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Salvador, 477 anos de sustentabilidade
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29/03/2026 20h29
Por: Redação

Salvador, 477 anos de sustentabilidade

Em 29 de março de 1549, Tomé de Sousa desembarcava na Baía de Todos os Santos com a missão de fundar a primeira capital do Brasil. Nascia Salvador, cidade planejada desde o berço para ser fortaleza, porto e centro administrativo do império português na América. Hoje, aos 477 anos, celebramos não apenas a longevidade de uma metrópole que misturou europeus, africanos e indígenas, mas algo mais profundo: o protagonismo contínuo de Salvador na construção de um modelo de desenvolvimento que equilibra meio ambiente, justiça social e vitalidade econômica. Sustentabilidade não é moda recente aqui. É herança que se reinventa a cada geração.

 

A localização geográfica de Salvador sempre foi seu maior ativo ambiental. A Baía de Todos os Santos – a maior do Brasil, com mais de 1.100 km² e extensos manguezais, recifes de corais, restingas e estuários – foi o cenário escolhido por sua riqueza ecológica e estratégica. Esses ecossistemas, que protegem a biodiversidade e sustentam a pesca e o turismo, foram formalmente reconhecidos em 1999 com a criação da Área de Proteção Ambiental (APA) Baía de Todos os Santos, que abrange 13 municípios e promove o uso sustentável dos recursos.

 

Ao longo dos séculos, a cidade aprendeu a conviver com esse tesouro. Hoje, Salvador consolida-se como referência nacional e internacional. O programa Recicla Capital, lançado pela Prefeitura, é um exemplo pioneiro: distribui contêineres de coleta seletiva pela cidade (especialmente na orla), remunera diretamente cooperativas de catadores e permite que a população troque recicláveis por produtos, serviços e cursos. Em 2025, o projeto venceu o Local Leaders Awards da Bloomberg Philanthropies e C40 na categoria “Soluções Sustentáveis para Resíduos”, destacando-se por sua inovação inclusiva e impacto na redução de emissões de gases de efeito estufa.

Complementar a isso está o IPTU Verde, incentivo fiscal que concede até 10% de desconto no imposto para imóveis que adotam práticas sustentáveis (eficiência energética, reuso de água, vegetação, etc.). O número de beneficiados cresce ano a ano – ultrapassou 6.500 em 2026 –, transformando a política tributária em ferramenta de transformação urbana.

 

Resultados concretos não faltam: Salvador é apontada como a capital brasileira que menos emite gases de efeito estufa e lidera o ranking de cidades sustentáveis no Nordeste, avançando 74 posições em avaliações recentes. Projetos de restauração de manguezais na Baía, como o CO2 Manguezal, envolvem comunidades e reforçam a resiliência climática. A sustentabilidade ambiental de Salvador não é retórica – é política pública que gera renda, protege a vida marinha e posiciona a cidade como laboratório vivo para as metrópoles do futuro.

 

A sustentabilidade social de Salvador nasce da sua própria formação: o encontro de três povos que gerou a identidade mais vibrante do Brasil. Do Candomblé aos terreiros, da capoeira ao carnaval, a cidade sempre foi espaço de resistência e construção coletiva. O Pelourinho, símbolo máximo dessa mistura, viveu décadas de degradação até o Programa de Recuperação do Centro Histórico, iniciado nos anos 1990. O que era abandono transformou-se em patrimônio vivo: em 1985, a UNESCO declarou o Centro Histórico Patrimônio Mundial, reconhecendo seu valor universal como palco do sincretismo cultural.

 

A restauração não foi apenas estética: devolveu dignidade a moradores, gerou empregos na cultura e no turismo e consolidou o Pelourinho como polo de inclusão. Hoje, o Recicla Capital dá continuidade a essa tradição ao empoderar catadores – muitos deles de comunidades periféricas – com remuneração e protagonismo na cadeia da reciclagem. São mais de 83 mil pessoas impactadas, com estações em bairros como Cajazeiras, Periperi, Rio Vermelho e Itapuã.

 

Educação ambiental, mutirões de limpeza na Baía e programas que unem escolas e comunidades no cuidado com os manguezais mostram que a sustentabilidade social é cotidiana. Salvador celebra sua história sem romantizar o passado: reconhece as dores da escravidão e transforma-as em força coletiva. Aos 477 anos, a cidade prova que desenvolvimento só é sustentável quando inclui todos.

 

Economicamente, Salvador nasceu para ser protagonista. Primeira capital do Brasil (1549-1763), foi o principal porto de exportação de açúcar e principal centro do comércio atlântico. Após a transferência da capital para o Rio de Janeiro, enfrentou declínio, mas renasceu no século XX com a Refinaria Landulfo Alves, o Centro Industrial de Aratu e o Polo Petroquímico. Hoje, a economia é diversificada: serviços, administração pública, comércio e, sobretudo, turismo.

O turismo sustentável é o novo motor. O Centro Histórico restaurado gera renda o ano inteiro, atraindo visitantes que consomem cultura, gastronomia e natureza preservada. A Baía de Todos os Santos, com suas ilhas e manguezais, torna-se polo da “economia azul”. Projetos como o Recicla Capital e o IPTU Verde mostram que é possível conciliar crescimento com responsabilidade: reduzem custos ambientais, criam empregos verdes e atraem investimentos internacionais. Salvador não escolhe entre economia e sustentabilidade – une as duas.

 

Aos 477 anos, Salvador não pede licença para ser sustentável: ela o é por vocação histórica e por escolha contemporânea. Do manguezal da Baía ao Pelourinho iluminado, do catador remunerado ao prédio com IPTU Verde, a cidade demonstra que meio ambiente, social e econômico não são dimensões separadas – são faces de um mesmo compromisso.

Que os próximos 477 anos sejam de ainda mais ousadia. Porque Salvador não apenas sobrevive: ela lidera, inspira e mostra ao Brasil e ao mundo que sustentabilidade é, acima de tudo, uma questão de identidade.