De forma simples e bem-humorada, o agricultor Leonardo de Oliveira Morais, 36, resume o que é viver ao lado de uma torre de energia eólica instalada a cerca de 180 metros de sua casa, no sítio Pontais, zona rural de Venturosa (PE).
Incentivadas por políticas federais de transição energética, as torres eólicas se espalharam pelo Nordeste e, ao mesmo tempo, se tornaram um tormento para famílias vizinhas.
Elas não foram ouvidas no processo de instalação e hoje relatam problemas de saúde. Em alguns casos, até abandonaram seus terrenos, sem receber nenhuma indenização.
No final de novembro, o UOL passou uma semana visitando pessoas que tiveram suas vidas transformadas nos municípios de Caetés, Paranatama e Venturosa, no agreste pernambucano.
A reportagem encontrou no local dezenas de casas a distâncias inferiores a 200 metros das torres, valor inferior ao adotado em países europeus e em outros locais do mundo.
A região foi uma das primeiras a receber parques de grande porte no Nordeste, a partir de 2014, e se transformou em um símbolo dos impactos sociais da expansão eólica.
"Não foi o semiárido ou o litoral nordestino que deram causa a essa urgência climática, e essa população está sendo sacrificada em nome da chamada transição energética, que tem sido feita de forma muito injusta", diz o procurador da República José Godoy, que atua na Paraíba e tem sido uma das vozes mais ativas na defesa da regulamentação e da reparação às comunidades afetadas.
O Brasil já é o quinto país que mais gera energia eólica no mundo, com 1.131 complexos instalados e potência capaz de gerar 34,5 GW —16% da energia produzida no Brasil, segundo a Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica). O Nordeste concentra 95% dessa geração.
O ritmo de expansão é acelerado. Em 2024, foram inaugurados 76 novos parques eólicos, sendo 73 no Nordeste —um a cada cinco dias. As empresas afirmam ter investido US$ 1,8 bilhão no setor.
Atualmente, há 53 parques em construção, todos no Nordeste, e outros 441 em fase de projeto, segundo a Aneel.
Embora não emita CO2, a energia eólica gera ruído. Ainda assim, os parques se instalaram no Brasil sem regra sobre distância mínima entre torres e moradias.
Torres instaladas ao lado de residências são incomuns e fora do padrão internacional.
Segundo nota técnica do Ibama, alguns países europeus exigem distância mínima de até 1,2 km entre aerogeradores e residências. Consideradas todas as regulamentações, a média é de 780 metros.
Segundo o pesquisador Francesco Dalla Longa, esse recuo é suficiente para que o ruído de um aerogerador de grande porte caia de 109 para 40 decibéis, limite diurno definido por norma da ABNT.
Procurada pelo UOL, a Abeeólica alega que os parques que têm esses problemas são antigos e que os mais novos já adotam um protocolo de distância de pelo menos 400 metros. Afirma ainda que estão negociando para ajudar a indenizar moradores afetados.
A esposa adoeceu a ponto de pedir que deixassem o sítio de 33 hectares, referência nacional em agroecologia. A casa dele fica a 220 metros de um aerogerador, e outras oito torres cercam o terreno.
Hoje, Simão processa a empresa responsável pelo parque, pedindo indenização pela perda do sossego. O processo segue sem decisão.
"Para mim foi uma perda irreparável. Fico constrangido até hoje", diz ele, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Caetés, município onde nasceu o presidente Lula.
Em Caetés, os atingidos criaram a Escola dos Ventos, ONG que reúne agricultores na luta por reparação.
"A empresa reconhece o erro, mas se recusa a indenizar. Temos cerca de 700 famílias impactadas só aqui por esse parque", conta Simão.
Em fevereiro, movimentos sociais e indígenas ocuparam por dois dias a sede da Adepe (Agência de Desenvolvimento Econômico de Pernambuco)
A pressão levou a CPRH (Agência Estadual de Meio Ambiente) a negar a renovação da licença operacional do complexo São Clemente, que tem 126 aerogeradores.
Hoje, a usina funciona graças a uma decisão liminar do Tribunal de Justiça de Pernambuco, que autorizou a retomada das operações sem licença.