SUSTENTABILIDADE EM PAUTA
Editoria: Clima · Indústria
Brasil aprova estratégia para descarbonizar a indústria, mas conta de implementação segue sem números
Comitê Técnico fechou nesta quarta (17) a versão final da ENDI, lançada na COP30. Documento dá à indústria um mapa rumo à neutralidade em 2050 — resta tirá-lo do papel num setor de difícil abatimento e sob a sombra da taxa de carbono europeia.
O Comitê Técnico da Indústria de Baixo Carbono (CTIBC) aprovou na última quarta-feira a versão final da Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI), encerrando um ciclo aberto em 2024 com oficinas técnicas e que passou por consulta pública entre novembro e janeiro. Lançada na COP30 pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, a estratégia se apresenta como uma iniciativa de ação coletiva por um futuro industrial mais verde, mais competitivo e mais integrado às exigências da nova economia global. Coordenada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e alinhada à Nova Indústria Brasil e ao Plano Clima, a ENDI se organiza em quatro pilares: pesquisa, desenvolvimento, inovação e capacitação; insumos descarbonizantes; estímulo à demanda por produtos de baixo carbono; e financiamentos e incentivos.
O discurso oficial é de oportunidade, não de fardo. Para a secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do MDIC, Júlia Cruz, a estratégia permite transformar a sustentabilidade em motor de crescimento, ampliando a competitividade da indústria e convertendo vantagens ambientais em emprego e renda. Há lastro nesse otimismo. A indústria brasileira parte de uma posição incomum no mundo: o setor responde por cerca de 9% das emissões nacionais de gases de efeito estufa, fração modesta diante de países industrializados, e opera sobre uma matriz energética majoritariamente limpa — um trunfo competitivo que a própria secretária pede para valorizar.
O problema mora na distância entre o desenho e a execução. O Brasil entrou em 2026 ainda sem uma estimativa clara do custo de implementar seus compromissos climáticos, e os meios de financiamento foram submetidos à consulta pública durante a COP30 sem valores. A ENDI herda essa lacuna. De nada adianta o quarto pilar prometer financiamentos e incentivos se a conta da transição segue em aberto — e estudos recentes apontam que os recursos disponíveis se concentram no setor agropecuário, enquanto a indústria, sobretudo nas áreas mais críticas, exigiria atenção maior, com a insegurança regulatória ainda gerando desconfiança no setor.
Há também um limite técnico que nenhuma estratégia resolve por decreto. Estudo da Fiesp aponta que a indústria tem viabilidade técnica para cumprir o orçamento de carbono até 2035, mas alerta que as metas posteriores dependem de tecnologias que hoje ainda não estão disponíveis ou economicamente viáveis em larga escala. Os setores de difícil abatimento — cimento, aço, vidro, química, alumínio, papel e celulose — concentram justamente os gargalos mais caros, e o avanço da siderurgia, por exemplo, depende de aportes financeiros vultosos e de insumos estratégicos cuja oferta não está garantida.
A pressão externa, por fim, retira do Brasil o luxo da demora. O Carbon Border Adjustment Mechanism, a taxa europeia sobre o carbono embutido nas importações, entra em vigor de forma definitiva a partir de 2026, e a tendência é que outras grandes economias adotem mecanismos semelhantes. Descarbonizar deixou de ser bandeira ambiental para virar condição de acesso a mercado — o que torna a aprovação da ENDI necessária, mas insuficiente enquanto permanecer no terreno das diretrizes.
Com a versão final fechada, o MDIC anuncia o início da fase de implementação, voltada à articulação de instrumentos de financiamento, inovação e desenvolvimento tecnológico. É aí que a estratégia será efetivamente testada. O Brasil chega ao fim de seu ano-sede da COP30 com o mapa do caminho desenhado; falta agora o mais difícil, que é caminhá-lo.
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Versão final da ENDI: https://www.gov.br/mdic (link oficial)