Sustentabilidade sem alarmismo É verde dollar?
Ong compra primeira propriedade na Mata Atlântica e leva ao Brasil o maior corredor ecológico da América do Sul
A aquisição inaugura, em território nacional, a Jaguar Rivers Initiative — esforço transfronteiriço que pretende reconectar e restaurar mais de 2,5 milhões de km² na Bacia do Rio Paraná, entre Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai. O anúncio reabre o debate sobre quem deve, afinal, custear a proteção do bioma mais devastado do país
27/06/2026 16h37
Por: Redação

 

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Clima & Meio Ambiente | Sustentabilidade em Pauta

 

A ONG Onçafari anunciou a compra de sua primeira propriedade privada no bioma Mata Atlântica, marcando o início das operações brasileiras da *Jaguar Rivers Initiative* (JRI) — apresentada como o primeiro esforço multinacional voltado à conexão e restauração de paisagens naturais e recursos hídricos em escala continental. O anúncio foi feito em Curitiba, durante a Conferência Nacional de Unidades de Conservação para Biodiversidade (UCBIO 2026), com o lançamento oficial da iniciativa no Brasil.

A proposta é ambiciosa em sua geografia. A JRI quer reconectar, por meio de corredores fluviais, ecossistemas fragmentados da Bacia do Rio Paraná, que se estende por quatro países e abrange cerca de 2,5 milhões de quilômetros quadrados — uma área quase duas vezes o tamanho do Alasca. A lógica central é tratar os rios não apenas como recursos hídricos, mas como corredores vivos: eixos por onde a fauna circula entre fragmentos de floresta, atravessando fronteiras que a onça-pintada, símbolo do projeto, nunca reconheceu.

Como funciona o corredor

A iniciativa organiza o território em quatro categorias estratégicas:

- Arcas — grandes ecossistemas intactos, com espécies-chave, que funcionam como refúgios principais e fontes de dispersão da vida selvagem;
- Zonas de amortecimento — áreas de transição entre ambientes preservados e alterados, destinadas a atividades de baixo impacto e a economias regenerativas;
- Trampolins ecológicos — fragmentos menores de vegetação, muitas vezes reservas privadas, que servem de "ponte" entre habitats e reduzem o conflito entre humanos e fauna;
- Rios e planícies de inundação — o coração do projeto, onde a conectividade efetivamente se realiza.

No Brasil, a liderança cabe à Onçafari, fundada em 2011 e hoje referência global na reintrodução de onças-pintadas à natureza. A organização já mantém corredores ecológicos entre a Amazônia e o Pantanal e atua com propriedades reconhecidas como Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). As demais fundadoras são a Fundación Rewilding Argentina, a Nativa (Bolívia) e a Fundación Moisés Bertoni (Paraguai). A iniciativa foi lançada internacionalmente em setembro de 2025, durante a Semana do Clima de Nova York, com compromissos iniciais de doadores da ordem de US$ 26 milhões — cerca de um terço do orçamento previsto para os três primeiros anos.

 O outro lado da pauta: conservação privada e o silêncio do poder público

O modelo merece celebração, mas também exame crítico — e é aqui que a notícia ganha densidade.

Comprar terra para proteger a Mata Atlântica é, em si, um diagnóstico do problema. O bioma já perdeu cerca de 90% de sua cobertura original e é o mais ameaçado do país. Que a recomposição de corredores ecológicos dependa, em boa medida, da aquisição de imóveis por organizações da sociedade civil e do aporte de fundações filantrópicas estrangeiras revela uma lacuna estrutural: o Estado brasileiro dispõe de instrumentos públicos robustos de proteção territorial — o Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Lei nº 9.985/2000) e a própria Lei da Mata Atlântica (Lei nº 11.428/2006) — mas a criação e a gestão efetiva dessas áreas seguem aquém da urgência ecológica. Onde o poder público não chega, o capital privado, nacional ou internacional, ocupa o espaço.

Isso não desqualifica a iniciativa — ao contrário, evidencia sua importância. Mas impõe perguntas legítimas. A conservação ancorada na propriedade privada e em doadores internacionais é perene ou conjuntural? Um corredor que atravessa quatro países, terras indígenas e unidades de conservação públicas exige uma arquitetura jurídica de longo prazo que nenhuma escritura de compra, isoladamente, garante.

A boa notícia é que o ordenamento brasileiro oferece os mecanismos para dar perenidade ao que hoje se inaugura. A instituição de RPPNs em caráter perpétuo, a servidão ambiental (Lei nº 6.938/1981, art. 9º-A), a Cota de Reserva Ambiental e os instrumentos de pagamento por serviços ambientais (Lei nº 14.119/2021) permitem converter uma aquisição pontual em proteção estável e oponível a terceiros. A dimensão transfronteiriça, por sua vez, demandará cooperação internacional estruturada — o tipo de articulação que o Direito Ambiental internacional sustenta, mas que depende de vontade política dos quatro Estados envolvidos.

Por que isso importa

A Jaguar Rivers Initiative chega ao Brasil em um momento estratégico: a fragmentação avança, mas a Bacia do Paraná ainda preserva conectividade suficiente para que a reconexão seja viável, e não apenas simbólica. O projeto acerta ao tratar a paisagem como sistema integrado e ao mobilizar recursos em escala compatível com o desafio.

O ponto de atenção que o Sustentabilidade em Pauta sublinha é outro: a conservação não pode terceirizar permanentemente ao mercado e à filantropia aquilo que é dever constitucional do Estado — assegurar a todos um meio ambiente ecologicamente equilibrado (art. 225 da Constituição). A compra da Onçafari é uma vitória ambiental concreta. Que ela seja também um chamado para que o poder público assuma o protagonismo que a Mata Atlântica, há décadas, cobra.