Enquanto a Europa enfrenta uma nova onda de calor, com temperaturas acima de 40°C em algumas regiões, e organismos internacionais alertam para a formação do El Niño em 2026, um estudo da Worldpanel by Numerator mostra que a preocupação ambiental ainda enfrenta uma barreira concreta na vida cotidiana dos consumidores latino-americanos: ela existe, mas nem sempre se transforma em ação.
Dados do estudo Sustentar para Ganhar 2025 já indicavam que a América Latina vive uma contradição. De um lado, há consciência sobre a gravidade da crise climática e dos problemas ambientais. De outro, as decisões de compra seguem fortemente condicionadas por renda, preço, acesso, praticidade e falta de informação.
O contexto torna o dado ainda mais relevante. A atual onda de calor na Europa já afeta infraestrutura, energia e rotina da população, enquanto a Organização Meteorológica Mundial alerta para o avanço do El Niño em 2026, fenômeno associado ao aumento das temperaturas globais e a alterações nos padrões de chuva. Ainda assim, na América Latina, os temas ambientais não aparecem como prioridade imediata para grande parte dos domicílios.
Segundo o levantamento, quando questionadas sobre as principais preocupações para os próximos seis meses, as famílias latino-americanas priorizam temas econômicos e sociais. No Brasil, por exemplo, 48% citam a manutenção das fontes de renda como preocupação do domicílio, enquanto 12% mencionam desastres naturais, como inundações e incêndios. O mesmo movimento aparece em outros países da região, nos quais emprego, preços, dívidas, saúde e insegurança se sobrepõem aos riscos ambientais na lista de urgências.
O dado não significa ausência de consciência climática. Pelo contrário: o estudo aponta que 47% dos latino-americanos acreditam que a mudança climática é a ameaça mais crítica à humanidade, acima dos 33% observados globalmente. O desafio está na distância entre perceber o problema e agir de forma consistente diante dele.
Essa desconexão aparece na própria evolução dos segmentos de sustentabilidade. Na América Latina, a participação dos Eco-Actives — consumidores altamente preocupados com o meio ambiente e que tomam mais ações para reduzir resíduos — caiu de 28% em 2024 para 22% em 2025. No mesmo período, os Eco-Dismissers, grupo pouco ou nada interessado em meio ambiente e menos propenso a adotar medidas para reduzir resíduos, representam 40% da população domiciliar da região.
O Brasil aparece entre os mercados mais desafiadores. De acordo com o estudo, o país é uma das exceções na América Latina em que a maioria da população está pouco comprometida com a sustentabilidade. A participação dos Eco-Dismissers no Brasil passou de 62% em 2024 para 66% em 2025, enquanto os Eco-Actives recuaram de 16% para 11%.
A responsabilidade também é frequentemente deslocada para outros agentes. Apenas cerca de um terço da população se considera responsável por fazer a maior diferença no controle e na limitação dos danos ambientais. A maioria atribui esse papel à indústria, seguida por consumidores, governo e varejistas. Em 2025, 40% apontam a indústria como o grupo que poderia fazer a maior diferença, enquanto 24% citam os consumidores, 30% o governo e 6% os varejistas.
Ao mesmo tempo, o estudo mostra que o consumidor não rejeita necessariamente a sustentabilidade. O problema está na execução. Na América Latina, 90% dos consumidores declaram estar dispostos a optar por uma compra mais sustentável em algum aspecto da jornada de compra e uso. Entre as concessões possíveis estão mudanças relacionadas a embalagens, troca de marca, escolha de outra loja, redesenho de produto e investimento adicional.
As barreiras, porém, seguem fortes. Para 58% dos consumidores, produtos sustentáveis são muito caros. Outros 52% dizem que são difíceis de encontrar, 45% afirmam não entender se determinada escolha realmente faz bem para o planeta e 25% acreditam que esses produtos não têm a mesma qualidade.
Essa falta de clareza também aparece quando o tema é reciclagem. O levantamento mostra que 47% dos consumidores dizem não ter clareza sobre como fazer reciclagem em casa; 47% não entendem a sinalização de reciclagem nas embalagens; e 51% não sabem como descartar embalagens que afirmam ser biodegradáveis.
Para a Worldpanel by Numerator, os dados indicam que o debate sobre sustentabilidade precisa sair do campo da intenção e entrar na rotina real de compra. Em um cenário de pressão econômica, eventos climáticos extremos e incerteza sobre o El Niño, marcas, varejistas e indústria têm a oportunidade de tornar escolhas sustentáveis mais acessíveis, compreensíveis e convenientes.
O estudo também mostra que o consumidor mais distante da pauta ambiental não deve ser tratado como perdido. Entre os Eco-Dismissers, 40% tentam ser mais sustentáveis, mas não conseguem, e apenas 3% afirmam conseguir fazer algo. Esse grupo representa uma oportunidade relevante porque reúne consumidores que carecem de informação, acesso e soluções mais simples para transformar intenção em prática.
A conclusão é que a sustentabilidade não deixou de importar, mas perdeu espaço na hierarquia das urgências. Em uma região em desenvolvimento, marcada por pressões econômicas e sociais, o consumidor tende a priorizar o que afeta diretamente o orçamento e a segurança da família. O desafio para marcas e varejo é reduzir o custo percebido da sustentabilidade — financeiro, prático e cognitivo — e mostrar que escolhas melhores para o planeta também podem ser viáveis no dia a dia.
Em um momento em que ondas de calor, eventos extremos e o possível fortalecimento do El Niño recolocam a crise climática no centro das discussões globais, a América Latina mostra que consciência não basta. Para que a sustentabilidade avance, é preciso transformar preocupação em acesso, educação, conveniência e confiança.
Sobre o estudo
O estudo “Sustentar para Ganhar”, da Worldpanel by Numerator, é baseado em mais de 15 mil entrevistas realizadas em nove mercados da América Latina. São eles: América Central (Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e Panamá), Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Equador, México e Peru.
O levantamento trabalha com três segmentos de consumidores: Eco-Actives, altamente preocupados com meio ambiente e resíduos plásticos, que tomam mais ações sustentáveis; Eco-Considerers, que se preocupam com o tema, mas enfrentam barreiras como preço e praticidade; e Eco-Dismissers, pouco ou nada interessados em sustentabilidade e menos propensos a acreditar que suas ações fazem diferença.
Sobre a Worldpanel by Numerator
Worldpanel by Numerator decodifica o comportamento do comprador para moldar o futuro das principais marcas e varejistas do mundo. Fornece dados de consumo de referência representando quase 6 bilhões de consumidores em mais de 50 mercados, oferecendo uma visão multidimensional de como as pessoas pensam, compram e consomem, permitindo estratégias ousadas e impacto sustentável nos negócios. A empresa conta com 3.300 funcionários globalmente.