Sustentabilidade sem alarmismo China verde?
A Grande Muralha Verde da China: o que 66 bilhões de árvores revelam — e o que escondem
Meio século depois, a maior obra de florestamento do planeta cresce mais rápido que a natureza. Mas cientistas alertam: contar árvores não é o mesmo que restaurar ecossistemas. E o Brasil, com a Caatinga, aposta no caminho oposto.
11/07/2026 17h28 Atualizada há 4 meses atrás
Por: Redação

 

 

ANÁLISE ◆ SUSTENTABILIDADE EM PAUTA

 

Desde 1978, a China plantou cerca de 66 bilhões de árvores em sua “Grande Muralha Verde”, com planos de mais 34 bilhões até meados deste século, para frear o avanço dos desertos de Gobi e Taklamakan. O projeto — oficialmente Programa de Cinturão de Proteção das Três Regiões Norte (Three-North Shelterbelt) — é o maior esforço de florestamento já tentado pela humanidade, com conclusão prevista para 2050.

 

Os números que o Estado chinês exibe são expressivos. A cobertura florestal nas regiões tocadas pela muralha saltou de 5% em 1978 para 14% em 2023, o que ajudou a reduzir tempestades de areia e melhorar a qualidade do ar em cidades a jusante, incluindo Pequim. Um novo estudo, publicado em 2026 na revista Geophysical Research Letters por equipe liderada pelo ecólogo Yuhang Luo, da Universidade de Pequim em Shenzhen, trouxe a manchete que rodou o mundo: as florestas plantadas expandem sua copa cerca de 66% mais rápido que as florestas naturais, medidas pelo Índice de Área Foliar (IAF).

 

A ressalva, porém, está embutida na própria descoberta. Boa parte dessa velocidade tem explicação trivial: a maioria das florestas plantadas é jovem, e árvores jovens crescem mais rápido, produzindo copas densas e absorvendo CO₂ a taxa mais alta em suas primeiras décadas. Ainda assim, quando os cientistas compararam florestas plantadas e naturais de idade e condições semelhantes, as plantadas cresceram 4,6% mais rápido — efeito atribuído a uma resposta mais forte ao aumento do CO₂ atmosférico. O próprio autor admite não estar claro como essas novas florestas diferem das naturais, o que reabre a dúvida sobre a real capacidade de estocar carbono no longo prazo.

 

O outro lado: a floresta que a estatística não mostra

 

Se a métrica for sobrevivência e integridade ecológica — e não velocidade de copa —, o retrato muda. A literatura científica revisada por pares, acumulada há mais de duas décadas, aponta falhas estruturais.

 

Mortalidade e monocultura. A taxa de sobrevivência das mudas no Three-North situa-se entre 15% e 45%, conforme o rigor do planejamento, segundo estudos publicados por Cao, Wang e outros — patamar considerado baixo para uma obra dessa escala e custo. A predominância do plantio de espécies de crescimento rápido em blocos uniformes, sobretudo álamos e salgueiros, reduz a biodiversidade e amplia a vulnerabilidade a pragas. O caso emblemático ocorreu em 2000, quando cerca de um bilhão de álamos em Ningxia foi perdido para uma única doença, anulando duas décadas de plantio.

 

A água que “apenas muda de endereço”. É o ponto mais delicado. Monoculturas consomem de 20% a 40% mais umidade do solo que as pastagens nativas que substituem, acelerando o ressecamento em regiões de escassez hídrica. Um estudo de 2026 na Earth’s Future, com pesquisadores da China Agricultural University, Tianjin University e Utrecht, é preciso: a restauração aumentou a evapotranspiração em cerca de 1,7 mm/ano e a precipitação em cerca de 1,2 mm/ano — ou seja, perdeu-se mais água do que choveu. A água não sumiu: ela se moveu, muitas vezes para longe de agricultores e cidades que já contavam cada gota, com mais umidade caindo sobre o Platô Tibetano.

 

A crítica de fundo. O ecólogo Jiang Gaoming está entre os que classificam a abordagem como ecologicamente falha, por priorizar crescimento rápido em vez de conjuntos nativos que resistam melhor à aridez. A própria correção de rumo veio de fora: em 2012, o Banco Mundial doou US$ 80 milhões ao programa para plantio de misturas de espécies nativas. A síntese dos especialistas é sóbria: crescimento rápido não se traduz automaticamente em sucesso ecológico de longo prazo, e florestas naturais seguem superiores no armazenamento duradouro de carbono e na resiliência.

 

O gancho brasileiro: a Caatinga aposta no caminho inverso

 

Aqui a pauta chega ao Nordeste — e a lição chinesa ganha tradução direta. Enquanto a China plantou muralhas de espécies exóticas em fileiras uniformes, o Brasil, em 2026, institucionalizou a estratégia oposta. Sancionada em junho de 2026, a Política Nacional para Recuperação da Vegetação da Caatinga (Lei nº 15.430/2026) determina planos de ação para combater desmatamento e desertificação no semiárido, ampliar a produção sustentável de alimentos e contribuir com a segurança hídrica e a bioeconomia — tornando a Caatinga o primeiro bioma do país com política nacional específica.

 

O conceito-chave é o recaatingamento, quase o antônimo da muralha chinesa: a recuperação natural de áreas do semiárido a partir do isolamento e da preservação de matas nativas, com envolvimento das comunidades locais. Não é plantar exótica de crescimento rápido; é permitir que o bioma nativo se regenere. O Programa Recaatingar (Portaria MMA nº 1.700/2026) financia projetos que combinam recuperação ambiental, segurança hídrica e alimentar e inclusão de povos tradicionais e agricultores familiares, com meta de recuperar 10 milhões de hectares até 2045 e investimento inicial de R$ 60 milhões.

 

A urgência é real e local: a desertificação atinge cerca de 13% do território nordestino. Em maio, Salvador sediou o 5º Encontro Nordeste do ICLEI Brasil, no qual a secretária-executiva da UNCCD-ONU, Andrea Meza, afirmou ver no Brasil uma fonte de inovação e conhecimento para o mundo no enfrentamento da desertificação.

 

O que fica

 

A Grande Muralha Verde é, a um só tempo, prova de que o florestamento em escala planetária funciona para frear areia e vento — e advertência de que contar árvores não é restaurar natureza. A obra chinesa segurou o deserto, mas ao custo de aquíferos, biodiversidade e de uma conta hídrica que apenas mudou de endereço. O experimento brasileiro com a Caatinga nasce, ao menos no papel, tendo aprendido a lição: espécie nativa, regeneração assistida, comunidade no centro e ciência antes da pá.

 

Para quem defende o desenvolvimento como vetor de sustentabilidade real, a moral é precisa: ambição de escala sem rigor ecológico e segurança hídrica não é solução ambiental — é passivo adiado. A muralha que interessa ao semiárido não se mede em número de mudas, mas em ecossistema vivo e gente permanecendo na terra.