Sustentabilidade sem alarmismo País do atraso
O país do cartório: por que a elite da riqueza brasileira não empreende, não inova e não arrisca
O painel inédito da Receita Federal mostra quem está no topo da pirâmide patrimonial: cartorários, juízes, promotores, diplomatas e servidores de carreira. Empreendedores, industriais e inovadores aparecem quase de raspão.
12/07/2026 16h36
Por: Redação

ANÁLISE ◆ ECONOMIA & DESENVOLVIMENTO


O painel inédito da Receita Federal mostra quem está no topo da pirâmide patrimonial: cartorários, juízes, promotores, diplomatas e servidores de carreira. Empreendedores, industriais e inovadores aparecem quase de raspão. Não é acaso — é o retrato de uma economia de emolumento, delegação estatal e proximidade do poder.


Um vídeo do economista Fernando Ulrich sobre “as profissões que mais ganham dinheiro no país” recolocou em circulação um dado que deveria envergonhar o Brasil e, ao contrário, é celebrado como sinal de prestígio. Pela primeira vez, a Receita Federal abriu ao público um painel estatístico com o patrimônio e a renda declarados no Imposto de Renda por ocupação. O resultado é um raio-X do topo da nossa pirâmide — e ele explica, melhor do que qualquer discurso, por que a promessa de justiça social, erradicação da pobreza e desenvolvimento sustentável segue empacada.


O retrato
Segundo o painel da Receita, referente às declarações entregues em 2026 (ano-calendário 2025), lideram o ranking de patrimônio médio declarado os titulares de cartório, com R$ 3,3 milhões. Logo atrás vêm ministros, juízes e desembargadores e os membros do Ministério Público, com cerca de R$ 2,9 milhões; diplomatas, com R$ 2,5 milhões; atletas profissionais, R$ 1,7 milhão; dirigentes de empresas industriais, também R$ 1,7 milhão; produtores agropecuários, R$ 1,6 milhão; servidores de carreira do Banco Central e da CVM e médicos, R$ 1,4 milhão; e advogados (públicos e privados), entre R$ 1,1 e R$ 1,2 milhão.
Para dar escala: a renda média anual de quem declarou o IR foi de R$ 130,5 mil. Um cartorário declarou renda média próxima de R$ 2,38 milhões — quase dezenove vezes a média. E o patrimônio médio do conjunto dos declarantes ficou em torno de R$ 400 mil ⚑.
Note o padrão. Dos dez primeiros, a maioria esmagadora vive de posição — cargo público de elite, monopólio delegado pelo Estado, carreira de Estado — e não de risco. Os cartorários, campeões absolutos, remuneram-se de emolumentos: taxas cobradas por serviços que só eles podem prestar, por delegação estatal, em regime sem concorrência. É a definição mais pura de renda cartorial: ganha-se por estar do lado certo do balcão, não por criar, produzir ou inventar.


A leitura estrutural


Um país onde os mais ricos são burocratas de carreira, profissionais liberais protegidos e detentores de monopólios estatais não tem, por definição, capacidade de desestratificação social. Quem já está no topo entrou por concurso, por delegação ou por diploma reservado — e ali permanece, com estabilidade, previsibilidade e blindagem. A mobilidade de baixo para cima, que só o empreendedorismo produtivo e a inovação entregam em escala, fica travada.
E a foto da inovação confirma o diagnóstico. No Índice Global de Inovação 2025, da OMPI, o Brasil caiu para a 52ª posição entre 139 economias. O investimento em Pesquisa e Desenvolvimento estacionou em torno de 1,19% do PIB — abaixo da média da OCDE (cerca de 2,7%) e a anos-luz de Israel (6,35%), Coreia do Sul (4,96%) e China (2,58%), onde o motor de P&D é o setor empresarial. Aqui, o motor é o Estado: entre os cinquenta maiores depositantes de patentes residentes, dois terços são universidades e institutos públicos. Ou seja, quando o Brasil inventa, quem inventa é o servidor público — não a empresa que arrisca capital próprio para transformar invenção em produto, emprego e imposto. O INPI ainda acumula mais de 100 mil pedidos de patente na fila.
É esse o núcleo da sua tese: temos um grande cartório de elite, tecnologicamente pobre, avesso ao risco, onde a recompensa máxima vai para quem administra a máquina — não para quem a alimenta.


O outro lado — e por que ele não desmonta o argumento


Um bom diagnóstico exige honestidade metodológica. O painel da Receita tem limites que os defensores do status quo vão explorar, e com alguma razão.
Primeiro: ele só enxerga quem declara IR — obrigatório apenas acima de R$ 35.584 de rendimento tributável. Fica de fora a maioria informal e de baixa renda, de modo que o painel não retrata a distribuição total da riqueza nacional. Segundo, e mais relevante: o dado é de patrimônio de pessoa física. Grandes empresários e fundadores de negócios costumam manter a riqueza dentro da pessoa jurídica — em participação societária que não aparece como patrimônio pessoal. Logo, parte da “ausência” de empreendedores no topo é artefato de medição, não prova de que não existam.
Só que essa ressalva, quando examinada, reforça o argumento em vez de enfraquecê-lo. O empreendedorismo brasileiro é numeroso e raso: o Monitor Global de Empreendedorismo (GEM 2025) aponta que cerca de um terço dos adultos está envolvido em algum negócio — mas a informalidade trava perto de 40% da força de trabalho (IBGE/PNAD), e o trabalhador formal é quatro vezes mais produtivo que o informal (FGV/IBRE). Temos milhões de empreendedores de necessidade — o camelô com CNPJ, o MEI de subsistência — e pouquíssimos empreendedores de oportunidade, de alta produtividade, base tecnológica e capacidade de escalar. O país que aparece no topo do painel e o país que empreende na esquina são a mesma economia: uma que protege a renda de posição e abandona a renda de risco.


O que isso significa para a sustentabilidade real
Não há justiça social sustentável sem produtividade, e não há produtividade sem quem invista, pesquise, industrialize e cultive assumindo risco. Enquanto a arquitetura de incentivos premiar o emolumento e punir a iniciativa — com insegurança jurídica, licenciamento errático, carga tributária labiríntica e um custo Brasil que sufoca quem produz —, seguiremos arrecadando R$ 2,1 trilhões e ainda assim fechando o ano no vermelho, com pobreza estrutural intacta.
O verdadeiro déficit ambiental e social brasileiro não está na floresta: está na cidade informal, na baixa produtividade, na tecnologia atrasada. Desenvolvimento não é o inimigo da sustentabilidade — é a sua única condição de possibilidade. Um país que quer erradicar a pobreza precisa de menos balcão e mais bancada de laboratório; menos proximidade do poder e mais proximidade do risco produtivo. Precisamos, em suma, de mais empreendedores, inovadores, pesquisadores, investidores, agricultores e industriais de sucesso — e de um Estado que os liberte, em vez de os taxar para sustentar a própria elite.

O Brasil transformou a proximidade do poder na mais rentável das profissões. Enquanto o topo da nossa pirâmide for feito de quem administra a máquina, e não de quem a alimenta, não haverá justiça social, nem desenvolvimento sustentável, nem fim da pobreza. Riqueza de emolumento não desestratifica ninguém.