Sustentabilidade sem alarmismo TECNOLOGIA FLORESTAL
IA que “prevê” o fogo na Amazônia: promessa tecnológica esbarra na velha pergunta de quem apaga o incêndio
Sistema do Instituto Federal do Amazonas promete antecipar queimadas em até 14 dias com mais de 90% de acurácia. Prever, porém, não é prevenir — e especialistas lembram que o gargalo segue sendo fiscalização, resposta operacional e responsabilização.
12/07/2026 23h54
Por: Redação

Um sistema de inteligência artificial que aponta onde a floresta vai queimar antes de a primeira fumaça subir. É essa a proposta do IA-FogoBio, desenvolvido pelo Instituto Federal do Amazonas (Ifam), que deve entrar em operação em agosto — começando por Roraima e, na sequência, pelo Amazonas, justamente quando a seca se intensifica. Segundo o projeto, a plataforma prevê queimadas com até 14 dias de antecedência e mais de 90% de precisão, além de identificar causas e medir impactos ambientais em tempo real.

 

A iniciativa nasce em um contexto de urgência real. De acordo com o Inpe, o Brasil lidera o ranking de países afetados por queimadas na América do Sul, e em 2024 a Amazônia registrou o maior número de incêndios dos últimos 17 anos. A questão que se coloca não é se o problema existe, mas se a tecnologia ataca o elo certo da corrente.

 

O ponto: informação antecipada como vantagem estratégica

 

O IA-FogoBio combina redes neurais (LSTM e CNN) e Random Forest para cruzar focos de calor com vegetação, tipo de solo e histórico. O sistema integra imagens de satélite da Nasa e do Inpe, mapas de solo da Embrapa, dados de biomas do IBGE e o histórico de queimadas dos 20 anos anteriores. A promessa central é converter esse cruzamento em uma janela de decisão: com dias de antecedência, gestores poderiam dimensionar brigadistas, equipamentos e rotas antes de o fogo se alastrar. As previsões são repassadas a órgãos como Ibama e ICMBio, responsáveis pela ação preventiva em campo.

 

Há ainda um módulo voltado à proteção de populações vulneráveis. Operando em três frentes — histórico, tempo real e predição —, a ferramenta busca cobrir a totalidade dos territórios indígenas do bioma e, em parceria com o Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam), notificar comunidades com até 6 horas de antecedência.

 

O projeto foi um dos oito selecionados por edital do Instituto Clima e Sociedade (iCS) com apoio do Google.org, que destinou R$ 18 milhões ao conjunto das iniciativas; ao Ifam couberam cerca de R$ 1,9 milhão. O anúncio foi feito às vésperas da COP30, e o sistema é apresentado como caso emblemático de “IA para ação climática”. A operação funciona no Polo de Inovação do Ifam, alimentado por painéis fotovoltaicos.

 

O contraponto: prever o fogo não é apagá-lo

 

Aqui entra a ponderação que as leituras celebratórias costumam deixar de lado. Monitoramento por satélite não é novidade — é política de Estado há quase quatro décadas. O Programa Queimadas do Inpe mapeia o território brasileiro desde 1986, hoje processando imagens de nove satélites para gerar o maior número possível de alertas de foco de calor. A inovação do IA-FogoBio está na predição, não na detecção. Resta saber quanto essa antecipação altera o resultado final quando o gargalo está a jusante — na capacidade de resposta.

 

E é aqui que aparece o dado incômodo: o problema amazônico é, na origem, humano — não climático-natural. Na Amazônia, o fogo natural é raríssimo, ocorrendo a cada 500 anos ou mais; mesmo na seca, a umidade não sustentaria tantos focos sem a mão do homem. Como resume a diretora de ciência do IPAM, Ane Alencar, a ignição vem majoritariamente do uso humano do fogo ligado ao manejo da terra, e o desafio urgente é conter a propagação. Se a fonte é a decisão de quem acende o fósforo, o vetor decisivo de mudança é jurídico e operacional — fiscalização, responsabilização e presença do Estado —, e não apenas um alerta mais preciso.

 

Os próprios números de 2025 reforçam a tese. Na comparação com o primeiro semestre de 2024, a Amazônia teve queda de cerca de 80% nos focos de calor, atribuída a chuvas mais persistentes, solo mais úmido e maior presença do Estado e fiscalização nos territórios. Ou seja: o que mais moveu o ponteiro foi a combinação de clima e enforcement — variáveis que nenhuma predição substitui.

 

Há, ainda, o contraponto sobre a sustentabilidade da própria ferramenta. O professor Juliano Maranhão, do Centro de IA da USP, pondera que a sustentabilidade precisa ser requisito do desenvolvimento tecnológico, e não medida compensatória: a energia solar reduz emissões da operação, mas não elimina o consumo de água para resfriamento nem os impactos do hardware. A isso soma-se uma pergunta de governança que permanece em aberto: quem detém, ao fim, o modelo e os dados de um sistema de vigilância territorial financiado por fundação privada estrangeira?

 

Síntese

 

O IA-FogoBio é uma ferramenta bem-vinda — e a crítica não se confunde com resistência à tecnologia. O ponto de equilíbrio é este: a IA otimiza a decisão de quem já tem capacidade de agir; ela não cria essa capacidade. Sem brigadistas suficientes, sem orçamento para Ibama e ICMBio, sem processos que responsabilizem quem ateia fogo criminoso, o alerta de 14 dias corre o risco de ser a previsão precisa de um incêndio que ninguém terá meios de impedir. Tecnologia de ponta e segurança jurídica de resultado não são projetos concorrentes — são a mesma agenda, e a floresta cobra os dois.

 

Com informações do Metrópoles, Inpe, IPAM, iCS/Google.org e Exame.