O Sudoeste da Bahia deu nesta semana um passo concreto rumo a uma infraestrutura logística que persegue há anos. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) concedeu a licença ambiental para implantação e operação de um novo Terminal de Cargas Aérea (TECA) no Aeroporto Glauber Rocha, em Vitória da Conquista, conforme decisão publicada no Diário Oficial do Estado da Bahia na última sexta-feira, 17 de julho.
O empreendimento terá 747,5 m² de área total e capacidade de armazenagem de 162 toneladas, e deverá ser erguido nas imediações da BR-116, no trecho próximo ao distrito de Iguá. A autorização ambiental tem validade fixada até 2029. A responsável pela obra é a Concessionária do Aeroporto de Conquista — sociedade de propósito específico do grupo Socicam, que administra o terminal desde a inauguração, em 2019 —, que ainda não apresentou prazo para a conclusão.
O ponto: vocação logística e adensamento regional
O argumento a favor do terminal é de infraestrutura como vetor de desenvolvimento. O Glauber Rocha é a principal porta aérea do Sudoeste baiano e do norte de Minas Gerais, com pista de 2.100 metros e mais de 400 mil passageiros movimentados em 2025. Hoje, porém, não há rota exclusiva de cargueiros: o transporte de mercadorias é feito em voos mistos, aproveitando os porões das aeronaves de passageiros de Gol, Latam e Azul.
Mesmo nesse formato limitado, a demanda existe e cresce. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) indicam que 289,3 toneladas de carga paga e correio passaram pelo aeroporto apenas no primeiro semestre de 2026. Para os defensores do projeto, um TECA dedicado destrava escala, dá previsibilidade a exportadores e importadores da região e cria a base física para, enfim, atrair operações cargueiras próprias — reduzindo a dependência da capital.
O contraponto: promessas que não decolaram e critérios não revelados
A história recente, contudo, recomenda cautela. O interesse por rotas cargueiras na região não é novo — e já frustrou. Em dezembro de 2022, a Gol chegou a anunciar que operaria aviões de transporte no ano seguinte; o projeto não se consolidou, e a companhia acabou alocando a aeronave cargueira em rota para Salvador, sem conexão com Vitória da Conquista. A primeira operação da Latam Cargo na cidade, divulgada na segunda metade de 2024, seguiu a mesma lógica de porão de voo comercial, e não de cargueiro dedicado.
Some-se a isso a ausência de transparência sobre os fundamentos técnicos do licenciamento. Procurado para detalhar o projeto e os critérios adotados na concessão da licença, o Inema não respondeu até o fechamento desta reportagem. A lacuna é relevante: sem prazo de obra anunciado pela concessionária e sem detalhamento dos condicionantes ambientais, o licenciamento corre o risco de repetir o padrão da região — anúncio robusto, execução incerta.
O que observar daqui para frente
A pergunta que fica não é ambiental no sentido restritivo, mas de governança e efetividade: o terminal sairá do papel dentro da vigência da licença, e a capacidade instalada encontrará demanda cargueira real que a justifique? A licença ambiental é condição necessária, não suficiente. O teste seguinte é de cronograma, investimento e — sobretudo — de compromisso das companhias aéreas com rotas que, até aqui, foram mais anunciadas do que operadas.