A ilha circular conhecida como El Ojo, com cerca de 120 metros de diâmetro, fica no Delta do Paraná, entre os municípios de Campana e Escobar, na província de Buenos Aires. Imagens de satélite revelam a formação girando sobre o próprio eixo, desenhando um padrão que lembra um olho cercado por um anel d’água.
A ilha foi identificada por satélite em 2003 e ganhou notoriedade internacional em 2016, quando o cineasta argentino Sergio Neuspiller a avistou durante sobrevoo em busca de locações. Ele descreveu o lugar como um “círculo perfeito” e chamou atenção para a transparência incomum da água, quase impossível de encontrar no delta.
A explicação. El Ojo é o que se chama de embalsado: um tipo de ilha ou plataforma flutuante formada por estrutura compacta de matéria vegetal — raízes, caules, juncos, gramíneas, galhos e sedimentos orgânicos acumulados por longo tempo — que permanece unida sobre a água. Uma das hipóteses para o formato é a correnteza da lagoa, que impulsiona a massa vegetal a girar em sentido horário. Ao longo dos anos, esse deslocamento contínuo teria moldado as margens, criando o círculo praticamente perfeito que dá nome à formação.
As lendas. Moradores da região chegaram a acreditar que o local era habitado por divindades, que recebia objetos voadores não identificados ou que abrigava uma base nazista. Fenômeno de aparência semelhante só foi observado no rio Presumpscot, no Maine, nos Estados Unidos, onde um grande disco de gelo se formou repetidas vezes desde 2019 pela ação de uma corrente circular sob a superfície.
Por que isso importa. O embalsado não é curiosidade turística: é a assinatura funcional de uma planície de inundação viva. Os deltas e várzeas do sistema Paraná-Paraguai-Prata operam como reguladores hidrológicos de escala continental — amortecem cheias, retêm sedimentos, sustentam a pesca artesanal e alimentam a recarga de aquíferos. Em serviços ecossistêmicos mensuráveis, são o oposto exato do imaginário de “terra improdutiva” que historicamente justificou drenagem, aterro e ocupação desordenada.
O Brasil tem equivalentes diretos: o Pantanal, as várzeas do Baixo Amazonas e, em escala menor mas com igual relevância funcional, os manguezais e apicuns do litoral baiano. Todos submetidos à mesma tensão entre proteção e pressão de uso, e todos frequentemente tratados por instrumentos regulatórios que confundem rigidez com eficácia.
A lição do El Ojo é modesta e útil. Antes de decidir o que fazer com uma área úmida — proteger integralmente, permitir uso regulado ou converter —, é preciso entender como ela funciona. Decisão sem diagnóstico produz tanto dano ambiental quanto insegurança jurídica.
Fontes: UOL (21/07/2026); Revista Fórum; Metrópoles; Correio Braziliense; Náutica.