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Corredores verdes: como o modelo que reduziu a temperatura em cidade colombiana pode inspirar o Brasil
Entenda
30/07/2026 08h40
Por: Redação

 

Uma iniciativa de infraestrutura verde implementada na cidade colombiana de Medellín vem chamando a atenção por seus resultados no enfrentamento das altas temperaturas urbanas. Segundo publicação do The Times of India, desde 2016 o projeto Corredores Verdes transformou avenidas, margens de rios e espaços públicos em áreas arborizadas. Ao longo dos anos, foram plantadas cerca de 2,5 milhões de plantas e 880 mil árvores, criando uma extensa rede de vegetação distribuída pela cidade.

 

Entre os principais resultados está a redução de até 2°C nas áreas mais quentes, contribuindo para minimizar o efeito de ilha de calor urbana — fenômeno provocado pela predominância de concreto e asfalto, que absorvem e retêm mais calor do que áreas vegetadas. A iniciativa também favoreceu a melhoria da qualidade do ar, o aumento da biodiversidade, a conexão entre habitats naturais e a criação de espaços públicos mais confortáveis para a população.

 

Desde 2016, a Prefeitura de Medellín converteu canteiros centrais de avenidas, margens de córregos, encostas e fachadas de prédios públicos em uma rede de 30 corredores arborizados — 18 acompanhando vias de tráfego intenso e 12 seguindo leitos de riachos. O resultado agregado, informado pela administração municipal, é uma queda de cerca de 2°C no efeito de ilha de calor urbana da segunda maior cidade colombiana.

 

Os números de plantio são robustos: aproximadamente 880 mil árvores e 2,5 milhões de plantas de menor porte — arbustos, gramíneas, bambus e palmáceas — instaladas entre 2016 e 2021. O conjunto resultou em cerca de 70 hectares de novas áreas verdes e 20 quilômetros de rotas sombreadas para pedestres e ciclistas. A intervenção mais simbólica é o jardim vertical da sede da Prefeitura, com quase 100 mil plantas em 1.810 m². O projeto recebeu o Ashden Award de 2019 na categoria de resfriamento urbano.

 

O mecanismo é físico, não retórico

 

A queda de temperatura não decorre de simbolismo ambiental. Opera por dois mecanismos mensuráveis: sombreamento — a copa intercepta a radiação solar direta antes que ela aqueça asfalto e concreto — e evapotranspiração, processo pelo qual a folha libera vapor d’água consumindo energia térmica do ar circundante. Superfícies impermeabilizadas fazem o inverso: absorvem radiação durante o dia e a devolvem à noite, impedindo o resfriamento noturno. É por isso que a ilha de calor é, antes de tudo, um problema de material construtivo e de drenagem — não de floresta distante.

 

A letra miúda dos 2°C

 

Aqui a leitura precisa ser mais precisa do que a repercussão internacional do caso. O número de 2°C não é uma redução da temperatura média da cidade inteira: refere-se à atenuação do efeito de ilha de calor, conforme dados da própria Prefeitura. Dentro dos corredores, as quedas registradas são bem maiores — medições municipais indicam que, entre 2016 e 2019, a temperatura média do ar nos pontos arborizados caiu de 31,6°C para 27,1°C, e a temperatura de superfície recuou de 40,5°C para 30,2°C. Em trechos como a Avenida Oriental, relatos oficiais apontam diferenciais de 4°C a 5°C.

 

Cabe a ressalva metodológica: essas medições foram divulgadas pela administração municipal e não passaram por validação independente com controle das variáveis climáticas do período. Medellín está encravada num vale andino a cerca de 1.500 metros de altitude e é historicamente chamada de “cidade da eterna primavera” — condições de partida que não se transpõem automaticamente para capitais litorâneas tropicais úmidas como Salvador. Replicar o método é legítimo; importar o número como promessa, não.

 

Quanto custa manter uma cidade fria

 

O dado que raramente aparece nas manchetes é o financeiro. A implantação dos corredores consumiu cerca de US$ 16,3 milhões, e a manutenção anual gira em torno de US$ 625 mil — poda, irrigação, replantio, controle fitossanitário. O programa também estruturou capacitação técnica: o Jardim Botânico municipal formou jardineiros e técnicos de plantio recrutados em comunidades de baixa renda.

 

É exatamente nesse ponto que a experiência colombiana entrega sua lição mais dura ao Brasil.

 

Fontes: Alcaldía de Medellín (Secretaría de Medio Ambiente); C40 Cities; Ashden Awards (2019); PreventionWeb/UNDRR; Prefeitura de Salvador (Secis/Secom); Plano de Mitigação e Adaptação às Mudanças Climáticas de Salvador; IBGE — Censo Demográfico 2022; UFBA — Departamento de Geografia (pesquisa de mapeamento térmico urbano); MMA — PlaNAU / Cidades Verdes Resilientes.