Sustentabilidade sem alarmismo Clima
Ciclone extratropical põe 11 estados sob aviso de vendaval e expõe o elo fraco da adaptação climática brasileira
INMET prevê rajadas de até 100 km/h entre quinta e sábado; sul da Bahia está na faixa de risco. O sistema de alerta funciona; a resposta no território, nem sempre.
07/08/2026 00h42 Atualizada há 3 meses atrás
Por: Redação

SUSTENTABILIDADE EM PAUTA | Clima & Meio Ambiente

 

O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu avisos de vendaval para áreas de 11 estados entre quinta-feira (6) e sábado (8): Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia. O aviso mais intenso é o laranja, de perigo, válido durante toda esta sexta-feira (7), com previsão de ventos entre 60 km/h e 100 km/h em áreas dos três estados do Sul e de São Paulo. Os ventos fortes estão associados à passagem de uma frente fria e ao ciclone extratropical formado no início da noite de quinta-feira na região de fronteira entre Brasil e Uruguai.

O sistema

O INMET vinha monitorando desde o início da semana a possibilidade de formação de um ciclone extratropical intenso entre Argentina, Uruguai, Sul do Brasil e Oceano Atlântico — o que a meteorologia chama de ciclogênese explosiva e a imprensa popularizou como “ciclone-bomba”. As rajadas mais fortes tendem a se concentrar sobre o Atlântico, próximo ao centro do sistema, onde podem superar 100 km/h; na faixa costeira do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, são esperadas rajadas acima de 60 km/h entre os dias 6 e 8.

A escala do instituto tem três graus: amarelo, para perigo potencial; laranja, para perigo; e vermelho, para grande perigo. O vermelho — acionado para grande parte do Rio Grande do Sul — abrange previsão de chuva superior a 60 mm/h ou acima de 100 mm/dia, ventos acima de 100 km/h e queda de granizo. Em paralelo, a Defesa Civil gaúcha alertou para risco de tornado, tempestades severas e granizo.

A Bahia na faixa

A Bahia entrou em aviso amarelo de perigo potencial para vendaval, com previsão de ventos entre 40 km/h e 60 km/h, contemplando a região Sul Baiano, incluindo Mucuri. O instituto também manteve aviso amarelo de vendaval na faixa litorânea que se estende do Maranhão ao norte da Bahia, além de aviso de baixa umidade relativa do ar no oeste baiano.

Ponto

O Brasil melhorou justamente onde mais custava melhorar: a previsão. O sistema de avisos do INMET, integrado às defesas civis estaduais, deu quase 48 horas de antecedência sobre um evento severo, com gradação de risco, delimitação por região e recomendação de conduta. Isso é política pública funcionando — e é resultado direto do arranjo desenhado pela Lei nº 12.608/2012, que instituiu a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e distribuiu competências: à União, o monitoramento e o alerta; aos Estados, a articulação; aos Municípios, a resposta no chão.

Contraponto

Alerta não é adaptação. O elo fraco está exatamente onde a Lei nº 12.608/2012 é menos cumprida: no Município. Plano de contingência atualizado, mapeamento de áreas de risco, cadastro de moradores expostos, poda preventiva da arborização urbana, fiscalização de estruturas metálicas e coberturas, redundância na rede de distribuição de energia — nada disso se improvisa em 48 horas. O aviso laranja chega; a cidade continua a mesma. E quando o vento derruba a árvore que ninguém podou e destelha a casa que ninguém regularizou, a discussão migra do plano da prevenção para o da responsabilidade civil do ente público — terreno mais caro, mais lento e infinitamente menos útil para quem perdeu o teto.

Há ainda um ponto que a cobertura climática costuma tratar mal. Eventos extremos não são, isoladamente, prova individual de mudança do clima. Ciclones extratropicais no Atlântico Sul em agosto são fenômeno recorrente. O que a ciência afirma com solidez diz respeito a frequência e intensidade agregadas ao longo de séries históricas — não à rajada desta sexta-feira. Confundir os dois planos enfraquece o argumento climático em vez de fortalecê-lo, e abre flanco ao negacionismo pela porta dos fundos.

O que fica

O que este episódio revela não é a fragilidade do clima: é a fragilidade da governança territorial. Temos previsão meteorológica de qualidade internacional acoplada a uma capacidade municipal de resposta que, na média nacional, segue precária. Investir em adaptação — drenagem, arborização planejada, código de obras exigente, plano diretor que respeite área de risco — custa uma fração do que custa reconstruir. É a mesma lógica da segurança jurídica: a regra clara e cumprida a tempo é sempre mais barata que o litígio depois do dano.

“O Brasil aprendeu a prever a tempestade. Falta aprender a se preparar para ela. Enquanto o alerta chegar mais rápido que o plano de contingência, seguiremos administrando desastre em vez de evitá-lo.” — Georges Humbert, advogado, doutor em Direito e presidente do IbradeS

Serviço — Em caso de rajadas de vento, o INMET orienta não se abrigar sob árvores, evitar estacionar veículos próximos a torres de transmissão e placas de publicidade, e acompanhar as atualizações dos avisos meteorológicos. Defesa Civil: 199. Corpo de Bombeiros: 193.