Pela primeira vez em cerca de vinte anos de séries comparativas, a China é vista com mais simpatia do que os Estados Unidos na maioria dos países pesquisados pelo Pew Research Center. O relatório *"People in Many Countries Now View China More Positively Than the U.S."*, divulgado em 15 de julho de 2026, consolida entrevistas com 42.151 adultos em 36 países, realizadas entre 8 de fevereiro e 13 de maio de 2026.
Duas precisões metodológicas evitam a leitura apressada que já circula em infográficos. A primeira: o levantamento mede opinião favorável, não "índice de aprovação" de governo — são coisas distintas. A segunda: o próprio Pew adota formulação conservadora ao contabilizar o resultado. Os Estados Unidos são vistos de forma mais positiva do que a China em apenas seis países, quatro deles na Ásia-Pacífico — Índia, Japão, Filipinas e Coreia do Sul. Contagens mais amplas, do tipo "27 a 9", derivam de comparações em que a distância entre os dois percentuais não é estatisticamente significativa.
A virada, em números
Entre os 37 países em que a pergunta foi aplicada — incluindo os próprios Estados Unidos —, uma mediana de **51%** declara ter opinião favorável sobre a China, contra 39% de opinião desfavorável. O contraste interno é acentuado: nove em cada dez paquistaneses veem a China com bons olhos, ante apenas 11% dos japoneses.
O movimento não resulta apenas de um país subindo. É reversão simultânea: melhora da percepção sobre a China somada à deterioração da percepção sobre os Estados Unidos.
O caso canadense é didático. Em 2023, 57% dos canadenses tinham visão positiva dos EUA, contra 14% para a China. Em 2026, a China aparece à frente: 44% contra 33%. Mexicanos seguem a mesma direção. Na Europa, a Itália registra 51% de opinião favorável à China — eram 45% em 2025 e 31% em 2022, alta de 20 pontos percentuais e a primeira vez em quase duas décadas de aferição em que cerca de metade dos italianos vê o país asiático positivamente. Na Espanha, os 54% atuais representam avanço de 17 pontos em um ano e o primeiro saldo líquido positivo desde 2011.
No plano das lideranças, o padrão se repete: mais entrevistados dizem confiar em Xi Jinping do que em Donald Trump para agir corretamente em assuntos mundiais. Na Europa, nenhum dos dois alcança avaliação majoritariamente positiva, mas Xi lidera por dois dígitos na Alemanha, Grécia, Itália, Holanda, Espanha, Suécia e Reino Unido — onde registra seu melhor índice europeu, 37%.
O trunfo americano que encolheu
Havia um terreno em que a vantagem dos Estados Unidos era estrutural e estável há mais de uma década: a percepção de que o governo norte-americano respeita as liberdades pessoais de seu próprio povo. Esse trunfo persiste, mas encolheu de forma acentuada.
Na Suécia, o percentual que atribui aos EUA respeito às liberdades individuais caiu de 61% em 2021 para 27% agora. Quedas de 25 pontos percentuais ou mais foram registradas também no Canadá, França, Alemanha, Itália, Holanda, Coreia do Sul e Espanha. No México, hoje 35% dizem que o governo chinês respeita as liberdades de seu povo, contra 20% que dizem o mesmo dos Estados Unidos.
A leitura relevante não é que a China tenha convencido o mundo de suas credenciais liberais — seus números seguem baixos, e em Israel e no Japão a diferença a favor dos EUA permanece expressiva (80% contra 15% e 61% contra 6%, respectivamente). É que o diferencial normativo americano, historicamente seu ativo mais sólido de poder brando, perdeu densidade.
Onde a percepção vira contrato
Para a agenda que interessa a esta publicação, o dado mais operativo do relatório está nas 17 economias de renda média pesquisadas. Nelas, uma mediana de 75% afirma que os Estados Unidos interferem nos assuntos de outros países — contra 45% que dizem o mesmo da China. E a China é mais frequentemente descrita como parceiro confiável.
Na África do Sul, 72% a consideram parceiro confiável, contra 46% para os EUA. A parcela que atribui à China contribuição para a paz e a estabilidade globais saltou de 47% em 2023 para 64% em 2026.
Percepção de confiabilidade não é sentimento: é variável de decisão em contratação de infraestrutura, financiamento de longo prazo e escolha de padrão tecnológico. E aqui a conexão com a economia verde deixa de ser metafórica — ainda que a pesquisa do Pew não formule perguntas sobre clima ou energia, e a ponte entre uma coisa e outra se apoie em fatos independentes.
A ausência dos Estados Unidos na COP30, em Belém, pela primeira vez em três décadas, abriu espaço que Pequim ocupou de forma deliberada: pavilhão nacional em posição central, executivos de suas maiores empresas de energia limpa apresentando projetos, diplomatas articulando nos bastidores. O diretor-geral da Irena, Francesco La Camera, resumiu à Reuters que a diplomacia flui para onde há espaço, e que o domínio chinês em renováveis e veículos elétricos reforça sua posição na diplomacia climática.
O ponto jurídico-regulatório é este: quem financia, escala e exporta a solução de baixo carbono tende a definir a norma técnica que a acompanha. Padrões de MRV, rastreabilidade de cadeia, certificação de origem, interoperabilidade de registros. Para um país que ainda está regulamentando seu Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões — com consulta pública sobre a portaria de MRV aberta até 23 de agosto de 2026 —, a pergunta deixa de ser diplomática e passa a ser normativa: o Brasil vai desenhar régua própria, compatível com o Artigo 6 do Acordo de Paris e interoperável nas duas direções, ou vai importar a régua de quem chegar primeiro?
Bahia: a geopolítica que chega de Camaçari
Na Bahia, esse debate tem endereço. O complexo da BYD em Camaçari, inaugurado em outubro de 2025 sobre a área da antiga Ford, representa investimento de R$ 5,5 bilhões, ocupa 4,65 milhões de metros quadrados e é a maior instalação da montadora fora da China. A capacidade inicial é de 150 mil veículos por ano, com meta de até 600 mil na conclusão do projeto. Em março de 2026, a empresa anunciou a contratação de mais 3 mil trabalhadores.
Não se trata de celebração acrítica. O mesmo empreendimento foi alvo, em dezembro de 2024, de acusações de trabalho análogo ao de escravo em seu canteiro de obras — episódio que esta publicação acompanhou e que permanece como advertência metodológica: atratividade de investimento e conformidade socioambiental são variáveis independentes, e a segunda não se presume da primeira.
O que os números não autorizam concluir
A leitura de que "a China venceu" é apressada, por três razões.
Primeira: favorabilidade não é aliança.Nos mesmos países latino-americanos onde a percepção migrou — Argentina, Brasil, Colômbia e Peru —, parcelas semelhantes descrevem os dois países como parceiros confiáveis. Não houve substituição; houve equalização.
Segunda: o movimento é substancialmente reativo.Boa parte da variação se explica pela deterioração da imagem americana, não por conquista chinesa autônoma. Imagem construída por contraste é reversível por contraste.
Terceira: onde a China é vizinha, a percepção inverte.*
Índia, Japão, Filipinas e Coreia do Sul avaliam melhor os Estados Unidos. Nas Filipinas, 81% veem os EUA como parceiro confiável, contra 42% para a China. Poder brando decai com a proximidade geográfica quando há disputa territorial.
O que observar
- Encerramento da consulta pública do SBCE sobre MRV, em 23 de agosto de 2026, e o grau de interoperabilidade adotado.
- Regras de conteúdo local e certificação socioambiental aplicáveis à cadeia de eletromobilidade instalada na Bahia.
- Evolução da posição brasileira sobre ITMOs e o Artigo 6 no ciclo pós-COP30.
- A próxima onda de dados do Pew, para aferir se a reversão é tendência ou oscilação de ciclo político.
O que a pesquisa mede é simpatia. O que decide o século é quem escreve a norma. Simpatia oscila com eleição; norma técnica, uma vez incorporada à cadeia produtiva, dura décadas. O Brasil precisa entender que sua vantagem comparativa não está em escolher lado, mas em ter régua própria — auditável, interoperável e juridicamente segura. Resolução não é lei, e padrão importado sem crivo nacional não é soberania energética: é terceirização regulatória com outro nome.
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**Fontes:** Pew Research Center — *People in Many Countries Now View China More Positively Than the U.S.* e *Views of China and Xi Are Improving Globally* (15.07.2026); Axios; Reuters (via Forbes Brasil e ISTOÉ); BYD Brasil; Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado da Bahia; CNN Brasil.