Coluna Verde Dólar Anilta Dicabra ataca
BRUNO VERDE-DÓLAR?
A régua que só vale para os outros?
08/08/2026 23h19
Por: Redação

 

O problema começa quando a régua ambiental muda conforme o lado do balcão.

O ator já assinou manifesto em defesa de maior rigor ambiental e contra mudanças no licenciamento. Para atividades como petróleo, mineração e infraestrutura, defende estudos abrangentes, participação social e controle rigoroso do Estado. Tudo legítimo.

Mas, no próprio negócio ambiental, a história é outra.

A Pachamama Trading, empresa de Gagliasso, comercializa as chamadas Unidades de Crédito de Sustentabilidade (UCS), estruturadas em parceria com a BMV Global, que desenvolveu a metodologia utilizada na operação.

E aí aparece a pergunta incômoda: quem audita quem certifica?

A UCS pode existir legitimamente no mercado voluntário. Mas não é, por isso, um ativo regulado pelo Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), criado pela Lei 15.042/2024.

Portanto, é preciso separar as coisas: metodologia privada não é regulação; selo privado não é lei; ativo voluntário não é automaticamente crédito regulado.

Há ainda a pousada do ator em Fernando de Noronha, que recebeu certificação de sustentabilidade da própria BMV. Nada disso prova irregularidade. Mas, quando há relações comerciais entre certificador e empreendimento certificado, transparência e independência deixam de ser detalhes: tornam-se essenciais.

E a mesma lógica vale para o discurso social. O episódio dos dez minutos de fechamento antecipado de um McDonald’s pode ser banal. Mas ilustra a pergunta maior: a régua da responsabilidade vale apenas quando o custo é dos outros?

Não se trata de demonizar Gagliasso, nem de negar suas iniciativas ambientais.

É mais simples.

Quem cobra rigor do mundo precisa aceitar rigor sobre si mesmo.

Floresta em pé remunera, sim. Horário de funcionamento deve ser respeitado, sim.

Mas quem vende virtudes precisa aceitar a pergunta mais sustentável de todas: como empreender em um santuário como Noronha e querer limitar os outros em lugares muito menos sensíveis? como ser contra uma lei que valoriza o auditor, mas ter no seu negócio um auditor e, ainda pior, um particilar, próprio, para chamar de seu?  Quem paga a conta do fim da escala 6 x 1 se ele mesmo quer funcionando até tarde para saciar seu hamburguer cinza? 

Esse é o verdadeiro teste do Verde-Dólar. A empatia é mimada, o rigor é para os outros... e fecha às 22h50!

 

A Coluna Verde Dólar é satírica e escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o Sustentabilidade em Pauta, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.