Da Redação — Sustentabilidade em Pauta
O Supremo Tribunal Federal (STF) encerrou nesta quarta-feira (12) uma das principais disputas jurídicas envolvendo produção agrícola, proteção ambiental, incentivos fiscais e liberdade econômica no Brasil. A Corte reconheceu a compatibilidade da Moratória da Soja com a Constituição e validou, com ajustes, as leis de Mato Grosso e Rondônia que restringem a concessão de benefícios fiscais e outros incentivos públicos a empresas participantes de acordos privados que estabeleçam compromissos ambientais mais rigorosos do que aqueles previstos na legislação.
A decisão tem relevância não apenas para o agronegócio, mas para a própria construção das políticas públicas de sustentabilidade no país. Segundo o entendimento predominante no STF, empresas privadas podem assumir voluntariamente compromissos ambientais superiores ao mínimo legal, enquanto os Estados permanecem livres para estabelecer critérios e condições para a concessão de benefícios fiscais e patrimoniais.
Criada em 2006, a Moratória da Soja surgiu como um compromisso voluntário entre empresas do setor e organizações da sociedade civil para reduzir o desmatamento associado à expansão da cultura na Amazônia.
O acordo estabeleceu como referência 22 de julho de 2008: empresas signatárias se comprometeram a não adquirir soja produzida em áreas do bioma Amazônia desmatadas após essa data. O mecanismo passou a utilizar monitoramento por satélite, auditorias e mecanismos de rastreabilidade para impedir a comercialização de produtos provenientes de áreas consideradas incompatíveis com o compromisso.
Para a maioria dos ministros, não há impedimento constitucional para que agentes privados estabeleçam padrões ambientais mais elevados do que aqueles definidos pelo Poder Público.
O ministro Flávio Dino, relator de uma das ações, destacou justamente a natureza voluntária do acordo e a autonomia privada para a adoção de compromissos ambientais adicionais. O ministro também afirmou que o Estado não está obrigado a conceder benefícios fiscais ou terrenos públicos a empresas que adotem determinadas políticas privadas de produção ou aquisição.
A compreensão estabelece uma distinção jurídica importante: uma coisa é a liberdade da iniciativa privada para estabelecer padrões ambientais voluntários; outra é a competência do Estado para definir sua política de incentivos e fomento econômico.
O julgamento analisou duas normas estaduais.
Em Mato Grosso, a Lei Estadual nº 12.709/2024 estabeleceu restrições à concessão de incentivos fiscais e terrenos públicos para empresas que participem de acordos privados que imponham limitações à expansão agropecuária, como a Moratória da Soja.
Em Rondônia, a legislação questionada adota mecanismo semelhante, restringindo determinados incentivos e benefícios públicos a empresas vinculadas a acordos privados com restrições à atividade agropecuária.
O STF considerou constitucional essa possibilidade, mas estabeleceu importantes limites jurídicos.
A retirada ou redução de benefícios tributários deverá respeitar as regras constitucionais de anterioridade anual e nonagesimal, quando aplicáveis, além da Súmula 544 do STF, que protege isenções concedidas sob condição onerosa.
Na prática, a decisão não significa uma autorização irrestrita para que governos estaduais retirem benefícios fiscais imediatamente. Ao contrário: a Corte reafirmou que a política ambiental e econômica deve conviver com as garantias constitucionais tributárias e com a segurança jurídica.
O julgamento possui uma dimensão particularmente relevante para o debate ESG e para a economia brasileira.
A decisão reconhece que compromissos ambientais voluntários podem coexistir com a legislação estatal, sem que isso signifique transferência automática de obrigações privadas para o Poder Público.
Ao mesmo tempo, o STF reconheceu a legitimidade de políticas estaduais que utilizem benefícios fiscais e patrimoniais como instrumentos de política econômica.
Essa combinação cria uma espécie de equilíbrio constitucional: empresas podem adotar padrões ambientais mais rigorosos por decisão própria, mas não podem pressupor que essa escolha lhes assegurará, necessariamente, acesso a incentivos públicos.
Para o setor produtivo, o aspecto mais relevante está na previsibilidade. A Corte estabeleceu parâmetros para que políticas de incentivo econômico e compromissos ambientais voluntários não sejam tratados como instrumentos juridicamente incompatíveis entre si.
Outro ponto de grande impacto foi a decisão, por maioria, de extinguir processos judiciais e administrativos que tenham como fundamento a suposta ilicitude ou inconstitucionalidade da Moratória da Soja, incluindo procedimentos no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).
A medida procura evitar a manutenção de um cenário de insegurança jurídica em torno de um acordo que envolve importantes agentes da cadeia de produção e exportação de soja.
O ministro Flávio Dino destacou que a continuidade de disputas relacionadas ao pacto poderia prolongar um quadro de incerteza econômica, inclusive diante de pretensões financeiras de grande dimensão.
Houve divergências entre os ministros sobre a extensão dessa análise. Dias Toffoli, André Mendonça e Luiz Fux, por exemplo, adotaram posições diferentes quanto à necessidade de o STF examinar diretamente a validade da Moratória e sobre eventual discussão concorrencial.
A maioria, contudo, reconheceu a compatibilidade constitucional do acordo na configuração atualmente examinada.
Mais do que resolver uma disputa específica entre tradings, produtores, Estados e organizações da sociedade civil, a decisão do STF estabelece uma referência para futuras discussões sobre sustentabilidade voluntária, livre iniciativa, incentivos fiscais e proteção ambiental.
A Constituição brasileira não limita a proteção ambiental à atuação direta do Estado. Empresas e agentes econômicos também podem assumir compromissos ambientais adicionais, desde que respeitados os limites legais e constitucionais.
Por outro lado, a decisão reforça que benefícios fiscais e utilização de patrimônio público não constituem direitos automáticos decorrentes da adesão a compromissos privados.
Esse entendimento pode influenciar outros setores econômicos que adotam compromissos voluntários de sustentabilidade, rastreabilidade, descarbonização e conservação ambiental.
A decisão também permite uma reflexão importante: não existe sustentabilidade econômica sem segurança jurídica.
A transição para modelos produtivos de menor impacto ambiental exige investimentos de longo prazo, sistemas de rastreabilidade, tecnologia, monitoramento e acesso a mercados cada vez mais exigentes.
Para que esses investimentos ocorram, empresas precisam saber quais são as regras aplicáveis e quais consequências jurídicas decorrem de suas escolhas.
Nesse sentido, o julgamento do STF procura estabelecer uma fronteira entre três dimensões que frequentemente entram em conflito: proteção ambiental, liberdade econômica e competência estatal para formular políticas públicas.
Ao reconhecer a validade constitucional da Moratória da Soja e, simultaneamente, preservar a competência dos Estados para estabelecer condições de acesso a benefícios públicos, o Supremo sinaliza que sustentabilidade e atividade econômica não precisam ser tratadas como valores necessariamente antagônicos.
A decisão, portanto, representa um capítulo relevante na evolução do Direito Ambiental brasileiro e na consolidação de mecanismos de sustentabilidade construídos também a partir da participação voluntária do setor privado.
Sustentabilidade em Pauta — informação, Direito, meio ambiente e desenvolvimento sustentável.