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El Niño no setor elétrico: mais chuva no Sul, calor no Centro-Norte e maior probabilidade de eventos extremos
Atualização da NOAA aponta 95% de possibilidade de um El Niño muito forte; no Brasil, chuvas podem favorecer geração hidráulica no Sul, enquanto calor, tempestades e enchentes pressionam infraestrutura e consumo de energia
14/08/2026 18h29
Por: Redação
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O fortalecimento do El Niño aumenta a atenção do setor elétrico brasileiro para os próximos meses. Segundo a Nottus, empresa de inteligência de dados e consultoria meteorológica para negócios, o contexto está relacionado à possibilidade de eventos meteorológicos extremos com impactos sobre a geração de energia, as redes de transmissão e distribuição e o consumo nas cidades.

 

A análise da consultoria começa com a atualização da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), publicada nesta quinta-feira (13), que aponta 95% de probabilidade de um El Niño muito forte durante o outono e o inverno do Hemisfério Norte de 2026/2027 e 69% de chance de um evento histórico entre outubro e dezembro, com intensidade superior à dos eventos registrados desde 1950.

 

No Brasil, a configuração esperada cria uma combinação de efeitos com consequências diretas para o sistema elétrico: mais chuva no Sul pode aumentar as afluências e favorecer a geração hidrelétrica; períodos de calor no Centro-Norte podem elevar a demanda por energia e, ao mesmo tempo, beneficiar a geração solar e eólica; enquanto chuvas intensas, vendavais, tempestades e enchentes aumentam o risco de danos à infraestrutura e transtornos nas cidades.

 

“O El Niño está se fortalecendo em um contexto de temperaturas recordes no planeta, tanto no ar quanto nos oceanos. Essa combinação aumenta a atenção para a ocorrência de eventos meteorológicos extremos e para seus possíveis impactos sobre a infraestrutura”, diz Alexandre Nascimento, sócio-diretor e meteorologista da Nottus.

 

Nascimento destaca que, neste ano, ciclones, tornados, tempestades severas e rajadas de vento já provocaram danos em linhas de transmissão e redes de distribuição em diferentes regiões do país, com ocorrências recentes em São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná e até Rondônia. “Com a intensificação do El Niño, o restante do segundo semestre exige preparação e monitoramento ainda maiores para entender onde esses eventos podem ocorrer e qual será sua intensidade”, alerta o executivo.

 

Atenção para eventos extremos – A intensificação do El Niño ocorre em um contexto de temperaturas excepcionalmente elevadas no planeta. Segundo o Copernicus Climate Change Service (C3S), junho de 2026 foi o segundo mês mais quente já registrado globalmente, com temperatura média do ar de 16,54 °C — 0,56 °C acima da média de 1991-2020 e 1,39 °C acima do período pré-industrial de 1850-1900.

 

Para o sócio-diretor e meteorologista da Nottus, a combinação entre o fenômeno e o aquecimento do planeta aumenta a atenção para a ocorrência de extremos. “Não estamos olhando para o El Niño isoladamente. Temos um oceano muito quente e um planeta que continua a acumular calor. Essa associação cria um ambiente mais favorável para extremos meteorológicos e aumenta a necessidade de preparação de setores críticos, como o elétrico”, avalia o meteorologista.

 

Preservação dos reservatórios do Subsistema Sul – No Brasil, um dos principais efeitos esperados do El Niño é a alteração do regime de chuvas. Para a Nottus, o comportamento mais chuvoso no Centro-Sul pode representar uma oportunidade para a geração hidrelétrica. As chuvas mais frequentes e volumosas tendem a favorecer as afluências no Subsistema Sul e, dependendo da abrangência do sistema meteorológico, também podem beneficiar o Sudeste/Centro-Oeste.

 

A maior entrada de água pode ainda contribuir para a recuperação dos reservatórios ou redução da necessidade de uso das reservas hídricas, preservando água para períodos posteriores. “Se por um lado a chuva e os ventos podem trazer desafios, por outro podem trazer alívio. As chuvas mais fortes e constantes no Centro-Sul do país devem beneficiar a geração hidráulica no Subsistema Sul e, eventualmente, dependendo de até onde chegar, no Sudeste/Centro-Oeste. Além de mais energia natural afluente, temos ainda mais reservas hídricas sendo recuperadas ou, pelo menos, poupadas durante um período em que deveriam estar sendo consumidas”, explica Nascimento.

 

O efeito, porém, não é homogêneo. No Centro-Norte do país, a perspectiva de menor precipitação pode aumentar a atenção sobre a disponibilidade hídrica, especialmente diante dos possíveis desdobramentos do fenômeno em 2027.

 

Impacto para transmissão e distribuição – Os episódios de chuva extrema e ventos fortes podem trazer consequências indesejáveis à infraestrutura elétrica. O cenário de temporais severos, vendavais, rajadas de vento, granizo, enchentes e deslizamentos tende a provocar danos em redes de distribuição e linhas de transmissão.

 

Regiões metropolitanas do Sul, como Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba, estão entre as áreas que exigem atenção diante de chuvas intensas. “As frentes frias e os sistemas de baixa pressão que se formam também são potencializados, e o choque entre os sistemas pode voltar a causar problemas. Além disso, há o risco de enchentes e transbordamento de rios no Centro-Sul. O segundo semestre deve ser bastante movimentado em relação aos fenômenos atmosféricos extremos”, diz Nascimento.

 

Chuva extrema e aumento do consumo em centros urbanos – Nas cidades, os impactos do El Niño não se restringem aos eventos de chuva. O padrão atmosférico esperado pode favorecer períodos prolongados de calor, especialmente no Centro-Norte. Para o setor elétrico, ondas de calor significam aumento da demanda, principalmente em razão do maior uso de ar-condicionado e equipamentos de refrigeração. Em grandes centros urbanos, episódios extremos podem pressionar a infraestrutura justamente nos horários de maior consumo.

 

“Temos dois movimentos acontecendo. Em determinadas regiões, a chuva extrema pode afetar a infraestrutura e a mobilidade das cidades. Em outras, o calor persistente aumenta o consumo de energia. Para o setor elétrico, tal conjuntura exige planejamento porque geração, transmissão, distribuição e demanda passam a ser afetadas simultaneamente por um mesmo fenômeno climático”, avalia o meteorologista.

 

Impactos na geração solar e eólica – A atuação de sistemas de alta pressão sobre o Centro-Norte é outro elemento relevante para o setor elétrico. Embora possa contribuir para ondas de calor e aumento do consumo, essa configuração tende a favorecer maior disponibilidade de radiação solar e, dependendo do comportamento dos ventos, pode beneficiar a geração eólica. “Se por um lado a presença de um sistema de alta pressão no Centro-Norte favorece as ondas de calor e o aumento do consumo de energia, ela também favorece a geração eólica e solar - cenário esperado para os próximos meses, sob os efeitos do El Niño”, diz o sócio-diretor e meteorologista da Nottus.

 

Projeção dos impactos do El Niño para 2027 – Para a Nottus, uma das questões que ainda precisam ser acompanhadas é a evolução do fenômeno para 2027. A possibilidade de déficit de chuva no Norte e Nordeste pode significar um desafio à disponibilidade hídrica e geração de energia nessas regiões.

 

A previsão, contudo, ainda traz incertezas. As condições do Atlântico podem alterar a distribuição das chuvas e modificar o cenário projetado. “O ônus do fenômeno fica para 2027, com possível déficit de chuva no Norte e Nordeste, mas esse capítulo ainda não está totalmente escrito, pois as condições mais voláteis e difíceis de prever neste momento no Atlântico podem ajudar o sistema. Dessa forma, esse assunto tende a ser abordado de forma mais assertiva somente daqui a alguns meses”, ressalta Nascimento.

 

Para o meteorologista, o desafio agora é transformar o monitoramento climático em antecipação e gestão operacional. “Esse El Niño precisa ser acompanhado como uma questão de infraestrutura. A chuva pode aumentar a geração, mas afetar linhas e cidades; o calor pode aumentar o consumo, por outro lado, favorecer os setores solar e eólico; e o comportamento regional pode ser completamente diferente. Para o setor elétrico, antecipar onde esses efeitos vão ocorrer e qual será sua intensidade será cada vez mais importante”, conclui.