Em setembro de 2021, mais de trinta artistas gravaram, sem cachê, a “Canção pra Amazônia” — iniciativa do Greenpeace, exibida no Fantástico, cuja letra denunciava o garimpo, os ataques aos povos indígenas e “as boiadas” do governo de então. Em janeiro de 2023, na campanha SOS Yanomami, Wagner Moura, Marieta Severo, Bruno Gagliasso e outros artistas voltaram a se manifestar em vídeo contra o que classificavam como política de genocídio.
Estavam certos. A crise era real. E o Estado brasileiro falhou de forma grave e organizada.
A pergunta é outra: onde está aquela voz agora?
Em 19 de agosto, o Ministério da Saúde encaminhou ao Congresso levantamento indicando 1.121 óbitos na Terra Indígena Yanomami entre 2023 e 2025 — número superior aos 951 registrados no intervalo equivalente anterior. Infecções respiratórias, desnutrição e malária continuam entre os problemas apontados. O quadro levou o presidente do STF a procurar a Comissão de Direitos Humanos do Senado para articular uma missão ao território.
Nenhuma canção. Nenhum manifesto.
O contraponto, porém, precisa ser levado a sério.
O Governo Federal contestou a comparação dos números, argumentando que, entre 2019 e 2022, a rede de saúde indígena havia sido desmontada a ponto de comprometer a própria capacidade de registrar adequadamente os óbitos.
E há indicadores recentes que não podem ser ignorados: queda de 29,5% nos óbitos no primeiro semestre de 2023 em comparação com o mesmo período de 2026, redução de 75,7% nos casos de desnutrição, nenhum óbito por malária registrado em 2026, efetivo de saúde triplicado e redução de 99% na abertura de novas áreas de garimpo.
Não é retórica. É presença estatal.
E, na Amazônia, presença estatal muitas vezes separa o discurso da realidade — e, em casos extremos, a vida da morte.
É justamente por isso que a pergunta aos artistas não é se deveriam ter denunciado o passado. Deveriam.
A pergunta é por que a indignação parece desaparecer quando o problema deixa de caber na narrativa política conveniente.
Defender os Yanomami não pode ser uma bandeira de governo, partido ou ideologia. Tampouco pode depender de quem ocupa o Palácio do Planalto.
Se a causa é a Amazônia, que seja a Amazônia.
Se a causa são os povos indígenas, que sejam eles.
E se a indignação é verdadeira, ela não pode ter partido, governo ou patrocinador (via aportes milionários da Rounet, cargos ou virar apresentador rico da tv - e verba pública - EBC).
A verdade é que nunca foi pela Amazônia, pelo Ianômami, mas sim por outro verde: o dólar!