| A digitalização resolveu uma antiga dificuldade da gestão de combustíveis: a falta de informação. Hoje, sistemas de automação conseguem registrar quem abasteceu, qual máquina ou veículo recebeu o combustível, o volume liberado, o horário da operação e as leituras de hodômetro ou horímetro. O avanço, porém, trouxe um novo desafio: como encontrar, entre milhares de lançamentos, os poucos casos que realmente exigem atenção? O problema ganha relevância diante do peso do diesel nas atividades produtivas. Segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), as vendas de diesel B atingiram o recorde de 69,47 bilhões de litros em 2025, alta de 3% em relação ao ano anterior. No transporte rodoviário, o combustível representa entre 30% e 40% do valor do frete, conforme apresentação publicada pela própria agência em 2026. O insumo também está entre os custos essenciais de grandes obras e operações agrícolas, florestais e de mineração, que mobilizam centenas de máquinas e pontos de abastecimento. Para Nelson Margarido, engenheiro, diretor operacional da Korth e especialista em automação de abastecimento, coletar dados não é o mesmo que utilizá-los na gestão. “Se uma empresa realiza 10 mil abastecimentos por mês, não faz sentido ocupar o tempo de um profissional conferindo 10 mil linhas. A maioria dos registros provavelmente estará dentro da normalidade. O que a gestão precisa é identificar quais situações fogem do comportamento esperado e por onde a análise deve começar”, afirma. Nem todo alerta indica fraude Um volume aparentemente incompatível com o equipamento pode ter diferentes explicações. A capacidade do tanque pode estar cadastrada incorretamente, a leitura do horímetro pode ter sido digitada de forma errada ou determinada máquina pode ter passado a trabalhar em uma condição mais exigente. Por isso, Margarido alerta que uma ocorrência fora do padrão não deve ser tratada automaticamente como fraude ou desvio. O dado funciona como ponto de partida para uma verificação que deve considerar o contexto da atividade. O mesmo cuidado vale para as comparações de consumo. Equipamentos iguais podem apresentar desempenhos distintos conforme o terreno, a carga, a aplicação e o ritmo de trabalho. Na avaliação do especialista, uma referência única para toda a frota pode gerar distorções. “Uma escavadeira não precisa apresentar o mesmo consumo de outra que trabalha em uma frente de serviço diferente. Além das referências gerais, é necessário comparar cada máquina com o próprio histórico e procurar mudanças relevantes em seu comportamento. Isso torna a análise mais coerente com a realidade”, explica. |