Salvador, 17 de janeiro de 2026 – Na última quinta-feira, 15 de janeiro, milhares de fiéis, baianos e turistas se reuniram em Salvador para a tradicional Lavagem das Escadarias da Basílica do Senhor do Bonfim, um dos eventos mais emblemáticos da cultura religiosa baiana. O cortejo partiu da Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, no bairro do Comércio, e seguiu por cerca de 8 quilômetros até a Colina Sagrada, no Bonfim, onde as escadarias foram lavadas com água de cheiro – uma mistura perfumada de água, flores e plantas aromáticas. A celebração, marcada por manifestações culturais, fogos de artifício, música e vivas ao Senhor do Bonfim, reuniu devotos que pagaram promessas, dançaram e celebraram a fé em um ambiente de sincretismo religioso. 7 0
Entre os destaques do evento deste ano, esteve a participação de Isabela Suarez, presidente da Associação Comercial da Bahia (ACB), empresária e advogada, que atuou como juíza da festa – tornando-se a primeira mulher a assumir esse cargo em 280 anos de história da celebração. Suarez integrou o grupo de personalidades responsáveis pela representação institucional dos festejos, fortalecendo os laços entre a Irmandade do Bonfim, a sociedade civil e os setores produtivos. Em declarações, ela enfatizou sua ligação pessoal com a festa: “Minha filha nasceu no dia da Lavagem e meu filho no dia em que celebramos a chegada da imagem do Senhor do Bonfim em terras baianas”. 10 A presença feminina em um papel historicamente ocupado por lideranças masculinas da vida pública baiana simboliza um avanço na representatividade e no protagonismo das mulheres na preservação das tradições culturais e religiosas da Bahia.
Georges Humbert, presidente do Ibrades e vice-presidente da ACB, com Isabela Suarez, presidente da ACB e primeira juíza da história da Lavagem do Senhor do Bonfim.
A Lavagem do Senhor do Bonfim tem raízes no século XVIII, remontando a 1745, quando a imagem de Jesus Crucificado, conhecida como Senhor do Bonfim, foi trazida de Setúbal, Portugal, para Salvador por Teodósio Rodrigues de Faria, um oficial da Marinha portuguesa que cumpria uma promessa após sobreviver a um naufrágio. 15 23 A igreja foi construída na Colina Sagrada, na península de Itapagipe, e rapidamente se tornou um centro de peregrinação devido aos supostos poderes milagrosos da imagem.
A tradição da lavagem em si começou em 1773, quando devotos leigos da Irmandade do Senhor do Bonfim obrigavam escravizados a lavar e ornamentar a igreja como preparativo para a festa. 15 20 No século XIX, o ritual ganhou contornos afro-brasileiros, incorporando elementos do candomblé, como as “Águas de Oxalá”, onde a lavagem simboliza purificação e bênçãos. 16 Esse sincretismo religioso, que une o catolicismo à devoção ao Senhor do Bonfim com o candomblé e as homenagens a Oxalá – o orixá da criação, da paz e da purificação –, representa uma estratégia de resistência do povo negro durante a escravidão, permitindo a preservação de tradições africanas sob o disfarce de práticas católicas. 17 19 23 A Lavagem do Bonfim é um dos maiores exemplos de sincretismo no Brasil, simbolizando a convivência harmoniosa entre expressões religiosas distintas e reforçando a identidade cultural afro-brasileira. 16 22 Apesar de tentativas de proibição pela Igreja Católica no final do século XIX, devido ao sincretismo, a festa persistiu e se consolidou como uma celebração inter-religiosa. 20
Considerada a segunda maior manifestação popular da Bahia, atrás apenas do Carnaval, a Lavagem do Bonfim é um símbolo de identidade cultural baiana. 24 Ela representa o sincretismo religioso, unindo catolicismo e religiões de matriz africana, e promove valores como fé, unidade e purificação espiritual. Anualmente, atrai milhões de participantes, impulsionando o turismo e a economia local, enquanto reforça laços comunitários e tradições ancestrais. Em um contexto de diversidade cultural, a festa destaca a resiliência das práticas afro-brasileiras frente à colonização e à escravidão, servindo como espaço de resistência e celebração da herança africana na Bahia. Economicamente, o evento atrai mais de 1 milhão de participantes, incluindo milhares de turistas nacionais e internacionais, gerando empregos temporários em setores como hotelaria, comércio ambulante, transporte e serviços, e movimentando milhões de reais na economia local por meio de gastos com alimentação, souvenirs e hospedagem – contribuindo para o fluxo turístico da alta temporada na Bahia, que deve superar 10 milhões de visitantes e gerar R$ 26,5 bilhões em receita no estado, com a ocupação hoteleira em Salvador atingindo até 90% durante o período do evento e celebrações semelhantes, como o recente Réveillon, injetando mais de R$ 337 milhões em receita turística, destacando o impulso econômico significativo de tais eventos culturais. 7 8 10 12 5 30 23 28
O Que Significa Ser Juiz da Lavagem do Senhor do Bonfim
Ser juiz ou juíza da Festa do Senhor do Bonfim é uma função simbólica e honorífica, com caráter histórico e representativo. 25 Tradicionalmente exercida por personalidades proeminentes da sociedade baiana – como líderes políticos, econômicos e culturais –, o cargo envolve a representação institucional da celebração. O juiz atua como elo entre a Irmandade do Bonfim (responsável pela organização religiosa), a sociedade civil e os setores produtivos, promovendo a integração e o cuidado simbólico com a tradição.
Historicamente associado a figuras masculinas que marcaram a trajetória da Bahia, o papel ganhou um marco inédito em 2026 com Isabela Suarez, ampliando a participação feminina em espaços de liderança simbólica. Não se trata de uma autoridade judicial no sentido literal, mas de uma posição de honra que reflete o compromisso com a preservação cultural e religiosa da festa, garantindo sua continuidade e relevância para as gerações futuras.
Primeira juíza da história da festa, Isabela Suarez vem colecionando e consolidando atos de protagonismo e empoderamento feminino. É, tambêm, a segunda mulher a comandar a Associação Comercial da Bahia (ACB) em dois séculos, empresária, advogada e presidente da Fundação Baía Viva, que promove o turismo sustentável e melhorias para a comunidade das ilhaz de Salvador.