Opinião: Georges Humbert Cultura sustentável
Lavagem do Bonfim é Meio Ambiente Cultural
Entenda
17/01/2026 15h30 Atualizada há 10 meses atrás
Por: Redação Fonte: Georges Humbert
Georges Humbert e Georges Humbert

A Lavagem do Bonfim não é apenas uma festa. É um território simbólico. Um ecossistema cultural vivo, construído pela fé, pela ancestralidade africana, pela resistência popular e pela ocupação histórica do espaço público. Tratar a Lavagem do Bonfim como simples evento folclórico, ou pior, como problema logístico ou de “ordem urbana”, é desconhecer – ou fingir desconhecer – que ali se manifesta uma das mais potentes expressões de meio ambiente cultural do Brasil.

A Constituição Federal é clara ao afirmar que o meio ambiente não se limita ao natural. O meio ambiente cultural integra o conceito constitucional de ambiente equilibrado, abrangendo os bens materiais e imateriais portadores de referência à identidade, à ação e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira. A Lavagem do Bonfim é exatamente isso: memória em movimento, identidade em marcha, cultura em estado vivo.

As baianas que lavam as escadarias com água de cheiro não estão encenando um ritual para turistas. Elas reafirmam um pacto ancestral entre o sagrado e o profano, entre o catolicismo popular e as religiões de matriz africana, entre o corpo negro e a cidade que tantas vezes tentou expulsá-lo de seus espaços centrais. Cada passo do cortejo é também um ato político, no sentido mais profundo do termo: ocupar a cidade, reafirmar pertencimento, reivindicar existência.

Quando se restringe, mercantiliza ou higieniza a Lavagem do Bonfim, não se está apenas regulando uma festa. Está-se intervindo em um bem ambiental cultural, com impactos diretos sobre direitos fundamentais, como a liberdade religiosa, o direito à cultura, à memória e à cidade. Não há neutralidade possível nesse processo. Toda tentativa de “enquadramento excessivo” carrega, quase sempre, uma lógica histórica de controle sobre corpos, saberes e práticas populares.

Defender a Lavagem do Bonfim é defender o meio ambiente cultural como espaço de diversidade, de conflito legítimo e de convivência democrática. É reconhecer que a cidade não é feita apenas de concreto, normas e fluxos econômicos, mas de rituais, afetos, cheiros, cantos e silêncios que não cabem em planilhas nem em decretos padronizados.

A sustentabilidade que precisamos não é apenas ambiental no sentido ecológico clássico, mas civilizatória. Sustentar a Lavagem do Bonfim é sustentar uma forma de existir que resiste ao apagamento, ao racismo estrutural e à tentativa constante de transformar cultura viva em produto pasteurizado.

Enquanto houver baianas, atabaques, fitas do Senhor do Bonfim e corpos caminhando juntos pelas ruas de Salvador, haverá meio ambiente cultural pulsando. E onde há meio ambiente cultural, há dever do Estado, da sociedade e do Direito de proteger, respeitar e não domesticar.

A Lavagem do Bonfim é meio ambiente cultural. E como todo ambiente vivo, não se preserva engessando, mas garantindo que continue respirando.