O homem que vem nos ensinar a cuidar da floresta chega de onde? De Gatinho, ops jatinho.
Depois vem o iate , sempre emprestado, sempre de alguém cujo dinheiro ninguém teve a indelicadeza de perguntar de onde veio. Depois vem a produção de cem milhões de dólares, com trezentas pessoas, gerador a diesel, três caminhões de catering e uma frota de vans com o motor ligado para manter o ar-condicionado, tudo a serviço de um filme sobre a urgência de reduzir emissões.
É a única indústria do planeta em que a conta de energia é apresentada como certificado de virtude. Aqui embaixo, o senhor que queima um pneu no quintal responde a auto de infração, defesa prévia e recurso.
Lá em cima, queima-se querosene e chama-se conscientização. A diferença entre o crime ambiental e o ativismo, aprendi tarde, é a altitude.
Seis dias. Três biomas. Um cacique de 94 anos, uma onça reabilitada, dois ministros e meio, e uma fazenda no Pantanal com wi-fi melhor que o da minha rua. Chamam isso de imersão. No meu tempo chamava-se turismo, só que sem legenda em inglês e sem drone.
A onça, procurada por esta coluna, preferiu não se pronunciar. Informou apenas, por meio de sua assessoria, que assinou termo de confidencialidade e que a cláusula de imagem é exclusiva até dezembro.
Vi aporte de US$ 400 milhões para a conservação de florestas que ainda não existem, mas existirão assim que saírem a regulamentação, o edital, a chamada pública, a portaria interministerial e o segundo mandato. Os recursos, esclarece o release, começam a fluir em 2039, de forma retroativa e simbólica.
O hectare, coitado, acordou ativo financeiro. Nasceu chão, virou lastro. Amanhã, se Deus quiser e a taxa de câmbio ajudar, vira debênture incentivada com selo de impacto e certificado emitido por uma entidade sediada em Zug.
O Cerrado ficou de figurante, com duas diárias e sem fala. A Caatinga, essa, segue sem agente. Não tem dossel, não tem neblina, não tem plano aberto: só espinho. E espinho, me ensinou o dr. Ronildo, não converte. Xique-xique nunca ganhou prêmio em festival.
Porque floresta sem lei não é patrimônio: é estoque. E estoque, todo mundo sabe, um dia sai do armazém.
A Coluna Verde Dólar é satírica e escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o Sustentabilidade em Pauta, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.