Em 15 de outubro, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu a palavra no plenário do Supremo Tribunal Federal para fazer o que parecia ser um desagravo definitivo.
Sobre o charuto, o banqueiro e a palavra do PGR:
“O procurador-geral da República, Paulo Gonet, negou nesta terça-feira (15), durante sessão do Supremo Tribunal Federal (STF), vínculos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. [...] A única ligação, intermediada por advogado, foi brevíssima e banal”
Na mesma sessão, ele foi mais enfático ainda:
"não existe, nem tive relacionamento de proximidade com o senhor Vorcaro. O único encontro que eu tive se deu com várias autoridades em abril de 2024"
O problema é que a própria PGR desmentiu essa versão dias depois. E a Polícia Federal encontrou no celular de Daniel Vorcaro uma fotografia feita em Londres, em abril de 2024. Nela, Gonet aparece sorrindo, com um charuto nas mãos, sentado próximo ao banqueiro em frente a uma mesa com copos de uísque.
A Procuradoria-Geral da República confirmou a autenticidade:
"A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou a autenticidade de uma foto do procurador-geral da República, Paulo Gonet, ao lado do ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, durante um evento de degustação de uísque em Londres"
A imagem não estava perdida. Ela foi enviada a Vorcaro em 19 de junho de 2025 pelo advogado Ciro Soares, então defensor do Banco Master, com a legenda “PG mandou” – iniciais de Paulo Gonet.
E isso importa, não é banal. Não se trata de um charuto. Se trata de palavra.
No plenário, Gonet reduziu o encontro a algo institucional e coletivo e “com várias autoridades”. Na foto, ele está lado a lado com Vorcaro, em clima de confraternização, intimidade, para poucos mais chegados ao banqueiro, em evento pago pelo banqueiro.
No plenário, negou “proximidade”. Mas quem envia foto própria para o interlocutor meses depois, via advogado, com recado pessoal não está mantendo relação “brevíssima e banal”.
No plenário, falou como PGR, sob a fé do cargo. O plenário do STF não é palanque. É onde a República registra sua verdade oficial. Quando o chefe do Ministério Público Federal nega vínculo que depois sua própria instituição confirma em imagem, a credibilidade da instituição é atingida.
Gonet pode alegar que não mentiu, apenas omitiu o clima da festa. Pode dizer que “várias autoridades” não exclui sentar ao lado do anfitrião, felizes e serelepes, com mais dois intimos.. Mas no direito penal que ele mesmo aplica a outros, chama-se isso de falso testemunho por reticência. E com muito menos provas e sem mentiras e cargos, velhinhas estão condenadas e presas, com penas nada banais, maiores que de assassinos e estupradores, a pedido de Gonet.
Se um cidadão comum nega em juízo proximidade com um investigado e depois surge foto de confraternização íntima, o MP pede condenação por perjúrio. Por que com o chefe do MP seria diferente?
A pergunta, a perplexidade e a indignação que fica não é se houve foto. Houve, e a PGR confirmou. A pergunta, portanto, que precisa de resposta urgente e objetiva de todo ministério público e do judiciário é outra.
O homem encarregado, em última instância, de zelar pela lei pode se comportar assim com banqueiros fraudadores, depois mentir em plenário e continuar sendo o guardião da lei? Numa democracia, num estado constitucional republicano de direito, não. Nem idosa seria julgada e condenada por golpe armado, sem arma e no foro do STF.