Política Voto dos baianos
Bahia: Flávio cresce e vantagem de Lula encolhe 606 mil votos e já não compensa o país
Confira a análise completa
06/10/2026 09h00
Por: Redação
EBC e Redes Sociais

◆ Eleições 2026 · Análise

Petista teve 211 mil votos a menos que em 2022, e Flávio Bolsonaro somou 394 mil a mais que o pai. Somados, os candidatos anti-Lula reuniram 2,87 milhões de votos no estado, num 1º turno em que Flávio terminou à frente no país.

A Bahia continua sendo a principal trincheira eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O primeiro turno de domingo (4), porém, mostrou duas coisas ao mesmo tempo: a muralha baiana ficou mais baixa, e já não bastou para segurar o resultado nacional. Na comparação com 2022, Lula perdeu votos em termos absolutos, o candidato do PL ganhou e a vantagem petista no estado encolheu 605.837 votos.

Segundo a totalização da Justiça Eleitoral, Lula recebeu 5.661.527 votos no estado (66,17% dos válidos), e Flávio Bolsonaro (PL), 2.441.882 (28,54%). Há quatro anos, também no primeiro turno, o petista havia somado 5.873.081 votos (69,73%), contra 2.047.599 de Jair Bolsonaro (24,31%).

Bahia — 1º turno

2022

2026

Variação

Lula (PT) — votos

5.873.081

5.661.527

−211.554

Lula — % válidos

69,73%

66,17%

−3,56 p.p.

Candidato do PL — votos

2.047.599 (Jair)

2.441.882 (Flávio)

+394.283

Candidato do PL — % válidos

24,31%

28,54%

+4,23 p.p.

Demais candidatos — votos

≈ 502 mil

≈ 453 mil

≈ −49 mil

Vantagem de Lula — votos

3.825.482

3.219.645

−605.837

Vantagem de Lula — p.p.

45,42

37,63

−7,79

Fontes: TSE, via Bahia Notícias (2022) e Alô Alô Bahia (2026). Linha "demais candidatos" estimada pela redação a partir dos percentuais oficiais.

◆ Mais mérito do adversário que perda própria

Dos 605.837 votos que a vantagem petista perdeu, cerca de 35% vieram da queda de Lula (211.554 votos) e 65% do crescimento do candidato do PL (394.283 votos). O encolhimento da margem se explica, portanto, menos por abandono do eleitor lulista e mais pela capacidade de Flávio de agregar votos que, em 2022, não foram para o pai. Flávio, aliás, já superou no primeiro turno a votação de Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022 (2.357.028 votos), ficando 84.854 votos acima dela.

A origem desse crescimento também pode ser medida. O saldo de Flávio (+394 mil) equivale à soma de três movimentos: a queda de Lula (−212 mil), a expansão dos votos válidos no estado (cerca de +133 mil, estimados a partir dos percentuais oficiais) e a retração dos demais candidatos (cerca de −49 mil). Trata-se de um saldo líquido, que não mede a migração individual de eleitores, mas indica que o avanço do PL na Bahia não se explica pela simples absorção da antiga “terceira via”, que encolheu pouco.

◆ O campo anti-Lula na Bahia

Os quatro principais candidatos de oposição fora do PL tiveram desempenho modesto no estado. Augusto Cury (Avante), terceiro colocado também no país, recebeu 189.899 votos na Bahia; Ronaldo Caiado (PSD), 119.524; Renan Santos (Missão), 115.028; e Romeu Zema (Novo), 6.388. Juntos, somaram 430.839 votos, pouco mais de 5% dos válidos.

Bahia 2026 — campo anti-Lula

Votos

% válidos*

Flávio Bolsonaro (PL)

2.441.882

28,54%

Augusto Cury (Avante)

189.899

2,22%

Ronaldo Caiado (PSD)

119.524

1,40%

Renan Santos (Missão)

115.028

1,34%

Romeu Zema (Novo)

6.388

0,07%

Subtotal Cury + Caiado + Renan + Zema

430.839

5,04%

Total do campo anti-Lula

2.872.721

33,58%

Lula (PT)

5.661.527

66,17%

Vantagem de Lula sobre todo o campo

2.788.806

32,59 p.p.

Fontes: TSE, apuração com 100% das urnas; Lula e Flávio via Alô Alô Bahia. *Percentuais calculados pela redação sobre a base de cerca de 8,556 milhões de votos válidos.

Somado a Flávio, o campo anti-Lula chega a 2.872.721 votos, um terço do eleitorado válido baiano. Mesmo na hipótese, improvável, de transferência integral desses votos no segundo turno, Lula ainda teria cerca de 2,79 milhões de votos de vantagem no estado.

A natureza desse bloco, porém, é diferente da de 2022. Naquele ano, os votos fora da polarização (cerca de 502 mil) se concentraram em Ciro Gomes (2,59%) e Simone Tebet (2,35%), e Tebet apoiou Lula no segundo turno. Em 2026, o bloco equivalente é menor (cerca de 453 mil) e mais nitidamente oposicionista: Zema se posicionou contra o PT, Renan Santos declarou que Flávio “já é o próximo presidente”, Caiado adiou a decisão e Cury anunciou neutralidade.

◆ Capilaridade preservada, meta frustrada

O mapa municipal segue amplamente vermelho. Lula venceu em 413 dos 417 municípios, ante 415 em 2022. Em Salvador, teve 65,26% dos válidos, contra 27,03% de Flávio. As exceções se concentram no Oeste e no Sul e Extremo Sul, regiões mais favoráveis ao bolsonarismo: em Luís Eduardo Magalhães, Flávio fez 62,03%; em Buerarema, 51,69%; em Teixeira de Freitas, 49,51%.

O resultado ficou longe da meta anunciada pelos aliados. Em julho, o secretário estadual de Relações Institucionais, Adolpho Loyola, disse que o objetivo era ampliar a vantagem de Lula na Bahia para 5 milhões de votos. A diferença efetiva, de 3,22 milhões, ficou cerca de 1,78 milhão abaixo do alvo.

◆ A Bahia no placar nacional

O peso desse recuo aparece no resultado do país. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente, com 47,03% dos válidos (56.104.503 votos), contra 45,16% de Lula (53.879.538). A diferença nacional, de 2.224.965 votos, é menor que a vantagem de Lula na Bahia. Ou seja, o estado continua entregando ao petista mais de 3,2 milhões de votos de frente, mas o restante do país mais do que anulou essa margem.

No plano nacional, Cury (2,89%), Renan Santos (2,24%) e Caiado (2,18%), somados a Flávio, ultrapassam 54% dos válidos, antes mesmo de computar Zema. É esse o cálculo que torna a disputa de 25 de outubro especialmente difícil para o governo.

◆ O sinal de erosão

A leitura mais dura para o PT é que a Bahia deixou de funcionar como seguro eleitoral. Uma margem 606 mil votos menor no estado que mais deu votos de frente a Lula em 2022 pesa numa eleição decidida por pouco mais de 2 milhões de votos. Também chama atenção que Flávio, estreante como presidenciável, tenha ampliado o eleitorado do pai num estado governado pelo PT há duas décadas, e que o voto não alinhado, agora, penda para a oposição.

 

Há ainda um reservatório pouco explorado. A abstenção na Bahia foi de 19,97% dos 11,3 milhões de eleitores aptos, o que corresponde a cerca de 2,26 milhões de baianos que não foram às urnas. Num estado em que Lula tem dois terços dos votos, cada ponto de comparecimento recuperado tende a favorecê-lo.

◆ O que está em jogo

Para o segundo turno, em 25 de outubro, a tarefa petista na Bahia é menos conquistar novos eleitores e mais recuperar os que ficaram em casa ou mudaram de lado. Para a oposição, o desafio é repetir no estado o que já conseguiu no país: romper o teto de um terço dos votos.

A Bahia ainda é de Lula. Mas, nem tanto... e sozinha, já não basta.