Também não é correto chamar toda a esquerda de extrema esquerda. A questão é outra: existem correntes políticas que defendem a superação do capitalismo, a propriedade social dos meios de produção, a luta de classes e uma transformação estrutural da ordem vigente. Isso está documentado.
Marx e Engels defenderam no Manifesto Comunista a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Gramsci acrescentou a disputa pela hegemonia cultural e política.
E essas ideias não ficaram nos livros.
O próprio PT afirma, em documentos partidários, que o capitalismo pode e deve ser superado. Resolução do partido fala em uma sociedade socialista e estabelece a propriedade pública ou social dos grandes meios de produção como pilar desse novo modo de produção.
Mais: documento de corrente nacional do PT sustenta que a emancipação dos trabalhadores somente seria possível com a superação do regime capitalista e fala em ruptura do monopólio capitalista sobre indústria, comércio, terra, finanças e meios de comunicação.
O PSOL também não esconde sua matriz ideológica. Seu programa define o socialismo como alternativa estrutural ao capitalismo e afirma que seu projeto é anticapitalista, baseado na socialização e no controle social da produção.
E o PCdoB é ainda mais explícito. Seu estatuto afirma que o partido se guia pela teoria revolucionária de Marx e Engels, desenvolvida por Lênin, visa à conquista do poder político pelo proletariado, propugna o socialismo científico e tem o comunismo como objetivo superior.
Documento mais recente do próprio PCdoB fala em transição do capitalismo ao socialismo, “rupturas” e construção de hegemonia para a conquista do poder político.
Não é acusação. É leitura de documentos.
O ponto juridicamente relevante é outro: até onde pode ir uma democracia que pretende transformar radicalmente a própria ordem econômica e política que a Constituição protege?
A Constituição brasileira garante propriedade, pluralismo político, liberdade, eleições e Estado Democrático de Direito.
Portanto, defender reforma tributária, políticas sociais, direitos trabalhistas ou redução das desigualdades não é extremismo.
Mas defender a superação do capitalismo, a socialização dos meios de produção, a conquista do poder por uma classe ou a ruptura estrutural com a ordem econômica vigente é, objetivamente, uma posição radical.
E isso explica por que existe extrema esquerda.
Não porque alguém decidiu colocar um rótulo em um adversário.
Mas porque Marx escreveu. Gramsci desenvolveu. E PT, PSOL e PCdoB ainda registram, em diferentes graus e formulações, partes dessa tradição em seus próprios documentos.
A democracia deve comportar esquerda e direita.
O que ela não deve fazer é confundir liberdade para defender uma transformação radical com a inexistência da própria radicalidade.
Extrema esquerda existe. E, às vezes, basta estudar, ou apenas ler o programa de quem diz que ela não existe.