Uma declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), feita em abril de 2023, voltou a alimentar o debate sobre preconceito contra pessoas com deficiência, autistas e indivíduos com transtornos mentais. A expressão “desequilíbrio de parafuso”, utilizada pelo presidente durante uma reunião sobre violência nas escolas, foi criticada por representantes da comunidade das pessoas com deficiência e por familiares.
Em 18 de abril daquele ano, ao discutir os ataques registrados em instituições de ensino, Lula afirmou que, segundo números que atribuiu à Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 15% da população teria algum tipo de “problema de deficiência mental”. Aplicando essa proporção à população brasileira, estimou quase 30 milhões de pessoas com “problema de desequilíbrio de parafuso” e acrescentou que “pode uma hora acontecer uma desgraça”.
A declaração foi criticada por associar pessoas com deficiência e transtornos mentais à possibilidade de atos violentos, sem que essa relação possa ser generalizada. A fala também reacendeu a discussão sobre o peso das palavras utilizadas por autoridades públicas ao tratar de grupos historicamente estigmatizados.
“Não temos parafuso a menos”
A frase que dá título a esta reportagem sintetiza uma resposta possível de mães atípicas — mulheres que criam filhos com deficiência, autismo ou outras condições que demandam acompanhamento específico — à linguagem utilizada pelo presidente.
Para essas famílias, a luta cotidiana envolve muito mais do que consultas, terapias, inclusão escolar e acesso a políticas públicas. Também exige enfrentar olhares preconceituosos, desinformação e expressões que reduzem pessoas a diagnósticos ou as tratam como ameaça.
A crítica central é que ninguém deve ser definido por uma condição de saúde, muito menos associado automaticamente à violência. Pessoas com deficiência e transtornos mentais têm direitos, dignidade e individualidade, como qualquer outro cidadão.
A indignação, nesse contexto, não se limita a uma escolha de palavras. Ela alcança a responsabilidade de quem ocupa a Presidência da República e tem influência sobre o debate público nacional.
Lula pediu desculpas
Diante da repercussão negativa, Lula publicou, em 22 de abril de 2023, um pedido de desculpas às pessoas com deficiência intelectual, às pessoas com questões relacionadas à saúde mental e a todos os atingidos por sua declaração.
Na retratação, afirmou que não se deve relacionar qualquer tipo de violência a pessoas com deficiência ou a quem enfrenta questões de saúde mental e reconheceu a necessidade de aprender e evoluir.
O episódio deixou uma lição importante para o debate público: combater a violência nas escolas é uma necessidade urgente, mas não pode servir de justificativa para reforçar estereótipos sobre milhões de brasileiros.
Mães atípicas não pedem privilégios. Pedem respeito, inclusão e políticas públicas. E nenhuma deficiência, diagnóstico ou condição neurológica torna alguém menos digno.
Nota de apuração: a declaração original e o pedido posterior de desculpas foram noticiados pela imprensa em abril de 2023. O tema retornou à pauta das redes sociais no período eleitora. O título utiliza a frase como síntese editorial da reação crítica, não como citação literal já verificada de uma representante.
Fontes para checagem: Folha de S.Paulo — declaração de Lula, em 19 de abril de 2023; pedido de desculpas, em 22 de abril de 2023.