Publicações antigas atribuídas à deputada federal eleita Ana Elisa Santos Silva (PT-MG), de 21 anos, passaram a circular em massa nesta quinta-feira (8), poucos dias depois de ela ter sido convidada a colaborar com a comunicação digital da campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Natural de Divinópolis, estudante de Direito e influenciadora com cerca de 2 milhões de seguidores, Ana Elisa recebeu 524.219 votos – segunda maior votação de Minas, atrás apenas de Nikolas Ferreira (PL) – e tornou-se a deputada federal mais jovem já eleita no país. Filiou-se ao PT em março de 2026.
Na quinta, após a repercussão, ela desativou seu perfil no X (@aanaelisast). Segundo relatou, a decisão ocorreu após ameaças de morte e de violência sexual. A informação foi confirmada por veículos que acompanharam o caso.
O nome de Ana Elisa foi sugerido pelo vice-governador do Maranhão, Felipe Camarão (PT), na reunião de coordenação da campanha presidencial de 5 de outubro, e ela se reuniu com Lula em Brasília na quarta-feira (7). Até o fechamento desta edição, não há nomeação formal no Diário Oficial ou no TSE como “coordenadora de campanha”. O convite foi para reforço na estratégia digital do segundo turno.
Um levantamento do boletim independente A Investigação, citado pela redação, reúne 49 publicações do perfil @aanaelisast com data, idade à época e links para archive.is e para o endereço original no X. A redação recomenda publicar os links de arquivo junto a cada post citado.
Parte do material é autêntica e estava no ar até o início da polêmica. O caso mais sólido, verificado de forma independente:
4 de abril de 2023, aos 17 anos: “lula para de fazer coisas boas para o Brasil, cadê o kit gay e o fechamento das igrejas?”, com Divinópolis como localização. O arquivo no archive.today foi guardado em 8 de outubro e mostra que o post ainda estava no perfil quando a polêmica começou.
O que a Gazeta do Povo apurou
A imagem mais compartilhada aparece com data de 2 de outubro de 2022, dia do primeiro turno daquela eleição, quando ela tinha 17 anos: “Lula eu acho mesmo que vc deve fechar as igrejas esses crente só faz m… MEU DEUS DO CÉU”. Nikolas Ferreira compartilhou a imagem e escreveu: “Já virei voto demais com isso aqui”. Outra captura, datada de abril deste ano, pergunta quando o Vaticano vai proibir aos padres o acesso à rede social.
Outros perfis conservadores, entre eles o de Flávio Bolsonaro, entraram no tema e passaram a publicar a mensagem "Lula não feche a minha igreja".
Em um vídeo publicado no Instagram, Ana Elisa negou a autoria das postagens. Ela disse que a imagem sobre as igrejas é uma montagem e afirmou que levaria o caso ao Tribunal Superior Eleitoral, com pedido para suspender a diplomação de Nikolas e de outros que a compartilharam. Na resposta a Nikolas, a deputada eleita resgatou um tuíte de 2014 atribuído a ele, com uma mensagem ofensiva sobre Nossa Senhora, cuja autoria ele também nega.
Na mesma noite, a conta dela no X foi desativada. “A minha equipe desativou a minha conta no Twitter porque nós estávamos recebendo ameaça de morte a cada dois minutos”, ela disse ao Metrópoles. Ana Elisa afirmou que, se algo lhe acontecer, a responsabilidade deverá recair sobre Nikolas e sobre Gleidson Azevedo (Republicanos) e Eduardo Azevedo (PL), a quem atribui a disseminação do material. Os dois são irmãos do governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) e, como ela, fizeram carreira política em Divinópolis.Ao mesmo tempo, outras publicações do perfil de Ana Elisa no X passaram a circular. Algumas delas foram salvas no site Archive.today, que salva publicações, e atreladas ao usuário @aanaelisast, utilizado pela petista nas redes sociais. Ou seja: não se trata de material forjado.
Entre essas mensagens, está outra referência ao fechamento de igrejas. "Lula para de fazer coisas boas para o Brasil, cadê o kit gay e o fechamento das igrejas?", ela publicou em abril de 2023.
Em junho de 2024, dois dias depois de a Câmara aprovar a urgência do projeto que equipara ao homicídio o aborto feito após a 22ª semana de gestação, inclusive em casos de estupro, publicou: “F…-SE SE É DEPOIS DA 22ª SEMANA F…-SE É DE ESTUPRADOR, O ABORTO É LIVREEEE!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! QUEM DECIDE É A VÍTIMA,P…, QUEIMA ESSA BANCADA EVANGÉLICA, QUEIMA ESSE PL, PQ NEM O CAPETA PODE COM ESSE POVOOOOO!!!!!!”.
Em janeiro de 2025, três dias depois de a Meta anunciar o fim de seu programa de checagem de fatos nos Estados Unidos, escreveu: “pois eu já não vejo a hora do Xandão bloquear, Instagram, Facebook, e WhatsApp, por favor, TORNE REAL!”
Demorou quatro dias para que Ana Elisa passasse de uma esperança para um problema na campanha de Lula.
Outros prints que circularam sem arquivo público até agora, atribuídos a diferentes perfis que os divulgaram:
A imagem de maior circulação – datada de 2 de outubro de 2022, em que a autora pediria a Lula que “fechasse as igrejas” com a frase “esses crente só faz merda” – não consta do conjunto com arquivo verificado. É diferente do post de abril de 2023 confirmado acima.
Ana Elisa nega a autoria, afirma que o conteúdo foi “inventado pelo gabinete do ódio” e diz que vai acionar o TSE para pedir suspensão da diplomação de Nikolas e de outros que divulgaram o material. O print foi compartilhado por Nikolas Ferreira, que afirmou ter “virado voto” com ele.
Até as 20h desta quinta (9), não há protocolo público no sistema PJe do TSE confirmando a representação. A redação buscou a assessoria da deputada eleita e aguarda retorno.
Aliados argumentam que parte das publicações foi feita na adolescência em tom de ironia típico da plataforma. Críticos respondem que as falas mais duras sobre igrejas, Moraes e empresários são de 2024 a 2026, quando ela já era maior de idade e pré-candidata.
Fontes: Além da Gazeta do Povo, a Agência Brasil; Brasil Paralelo; Editorial Central; O Globo; Rádio Itatiaia; levantamento do boletim A Investigação com links para archive.is / archive.today.