O caso do cachorro Orelha, brutalmente espancado por quatro adolescentes na Praia Brava, em Florianópolis, no dia 4 de janeiro de 2026, chocou o Brasil. O animal comunitário, de cerca de 10 anos, foi agredido com um objeto contundente na cabeça, levando a uma agonia que culminou em eutanasia. Os jovens, oriundos de famílias abastadas, não hesitaram em registrar o ato em vídeo, transformando a crueldade em espetáculo digital. Após o crime, dois deles viajaram para a Disney, como se nada tivesse acontecido, enquanto a polícia cumpria mandados de busca e apreensão em seus celulares ao retornarem. 0 1 Esse episódio não é isolado: especialistas alertam para o crescimento de atos de violência extrema entre adolescentes, frequentemente compartilhados em plataformas como o Discord, onde grupos se reúnem para praticar e exibir torturas contra animais. 2 3 A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara de Infância e Juventude do Rio de Janeiro, destaca que tais atos ocorrem diariamente em chamadas de vídeo, envolvendo jovens de classes médias e altas, alimentados pela falta de supervisão familiar e pela banalização da violência online.
Essa selvageria juvenil reflete uma sociedade adoecida, onde a empatia cede lugar ao sadismo, amplificado pelas redes sociais. Plataformas digitais, como Instagram, TikTok e WhatsApp, tornaram-se férteis para a disseminação de conteúdos violentos, com 83% dos jovens já tendo encontrado vídeos discriminatórios ou humilhantes, e 26% admitindo que esses materiais os motivaram a atacar verbal ou fisicamente outras pessoas. 0 2 4 O cyberbullying, o aliciamento sexual e a exposição a cenas perturbadoras não só normalizam a agressão, mas também contribuem para um ciclo de radicalização, afetando a saúde mental – com o Brasil registrando 3,5 suicídios diários entre crianças e adolescentes. 0 1 3 6 Esses ambientes virtuais, longe de serem neutros, algoritmos que priorizam engajamento acabam promovendo a violência, transformando o sadismo em viral e dessensibilizando gerações inteiras.
Mas a influência não para nas telas: manifestações culturais como músicas, artes e eventos populares exacerbam esse quadro. No funk, gênero dominante nas periferias e entre a juventude, letras frequentemente exaltam a violência ostentatória e a cultura do estupro, com análises acadêmicas apontando discursos que constroem relações conflituosas entre gêneros, objetificando mulheres como “cachorras” ou “vadias” e normalizando o estupro coletivo em hits como “Baile de Favela” e “Malandramente”. 12 16 18 39 Embora alguns defendam o funk como espaço de emancipação feminina, reivindicando liberdade sexual, 13 15 críticas destacam como ele perpetua machismo, desrespeito aos pais e erotização precoce, influenciando comportamentos juvenis em bailes funk, onde a diversão muitas vezes descamba para brigas, apologia ao crime e desrespeito às normas sociais. 20 23 24 Paredões de som, comuns em Salvador e outras regiões do Nordeste, transcendem a música para se tornarem fenômenos culturais de massa, mas frequentemente associados a perturbação, violência e promoção de valores que banalizam a sexualidade e o respeito familiar, com equipamentos sonoros que ecoam letras explícitas em comunidades, moldando a identidade juvenil em meio a inclusão social e econômica, porém com riscos de radicalização. 29 33 36 Exposições artísticas e outras manifestações, incluindo sertanejo universitário e forró, também contribuem ao objetificar mulheres, tratando-as como descartáveis ou submissas, reforçando violência simbólica e cultural que se infiltra na educação e nas relações interpessoais. 44 47 48
Enquanto a comoção pública clama por justiça para Orelha – e com razão –, surge a pergunta inescapável: e os Enzos? As crianças e adolescentes humanos, vítimas diárias de abusos que superam em escala e horror qualquer caso isolado de maus-tratos animais. Aqui, entra o papel do Estado. Durante o governo Bolsonaro, foi sancionada a Lei 14.064/2020, que elevou a pena por maus-tratos a cães e gatos de três meses a um ano de detenção para dois a cinco anos de reclusão, além de multa e proibição de guarda. 10 11 Essa medida representou um avanço na proteção animal, mas enfrentou resistência de setores progressistas, que a viam como uma distração de pautas sociais mais urgentes ou como excessivamente punitiva, priorizando agendas ideológicas sobre a defesa da vida inocente. 15 17 No entanto, se a lei endureceu contra crimes como o de Orelha, por que não aplicamos o mesmo rigor aos horrores sofridos por nossas crianças?
Os dados são alarmantes e pintam um quadro de negligência sistêmica. Em 2025, o Canal Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos registrou 49.336 denúncias anônimas de abuso e exploração sexual infantil até julho, um aumento de 18,9% em relação ao ano anterior, representando 64% de todas as notificações cibernéticas. 20 27 Denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes cresceram 195% nos últimos quatro anos, saltando de 6.380 em 2020 para 18.826 em 2024. 21 O Atlas da Violência 2025 revela que 45,7% das violências sofridas por meninas de 10 a 14 anos são sexuais, enquanto para meninos de 5 a 9 anos, o índice é de mais de 41%. 23 No campo do infanticídio e mortes violentas, mais de 15 mil crianças e adolescentes foram assassinados de forma intencional nos últimos três anos (até 2024), com 91,6% das vítimas entre 15 e 19 anos e 82,9% pretos ou pardos. 31 Fatores de risco incluem perturbações pós-parto, vulnerabilidade social e ausência de suporte familiar, como visto em julgamentos do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2013. 34
A evasão escolar agrava essa tragédia. Em 2025, 4,2 milhões de estudantes da educação básica estão com dois ou mais anos de atraso escolar, representando 12,5% das matrículas – uma queda em relação a 2023 (13,4%), mas ainda um número inaceitável. Cerca de 993 mil crianças e adolescentes de 4 a 17 anos estão fora da escola, com o abandono afetando especialmente os de 15 a 17 anos (440 mil). A situação da educação infantil é péssima: apenas 30% das crianças de baixa renda (inscritas no CadÚnico) frequentam creches, com taxas ainda mais baixas no Norte (16,4%). Na pré-escola, obrigatória para 4 e 5 anos, só 72,5% estão matriculadas. Nos rankings internacionais, o Brasil patina: no PISA 2022, ocupamos o 65º lugar em matemática, 61º em ciências e 53º em leitura entre 81 países, bem abaixo da média da OCDE. 43 41 Essa colocação reflete uma educação deficiente, marcada por desigualdades regionais e socioeconômicas.
Antes de nos comovermos apenas com Orelha – um símbolo trágico da crueldade –, precisamos nos mover para cuidar dos Enzos, a atual geração de crianças e adolescentes abandonados à própria sorte. Isso exige apoio social robusto, psicológico acessível, educativo de qualidade, e o fortalecimento da família como pilar da sociedade. Valores milenares, como o respeito à vida, à autoridade e à moral, foram negados e atacados desde o início deste século, sob o pretexto de modernidade e progressismo, deixando um vácuo que a violência preenche, agravado por redes sociais e expressões culturais que banalizam o desrespeito.
Para não haver novos casos como o de Orelha, é imperativa uma guinada na forma como tratamos os Enzos, tanto na família quanto no Estado. Recobrando a solidariedade que une comunidades, a caridade que eleva o próximo, a individualidade que respeita o mérito, a propriedade que garante estabilidade, a família como berço de valores, o respeito ao próximo, aos professores e aos mais velhos. É preciso pôr fim à banalização da sexualidade e à erotização precoce, à pornografia disfarçada de arte e à adultização forçada que rouba a inocência, combatendo influências de redes sociais, músicas e eventos que promovem violência e objetificação. Essa base é essencial para uma sociedade justa, amorosa, digna e igualitária, com sujeitos capazes de não desprezar a si mesmos, ao próximo e, claro, à vida – inclusive a animal. Só assim, honraremos tanto Orelha quanto Enzo, construindo um Brasil onde a ordem prevaleça sobre o caos.