ESG Pelas minorias?
Herói da esquerda, Che Guevara era racista, assassino e membro de um regime homofóbico?
O ícone das camisetas resiste mal ao exame dos documentos. Três acusações, três graus de prova.
13/10/2026 00h31 Atualizada há 3 semanas atrás
Por: Redação

Poucas imagens do século XX venderam tanto quanto o rosto de Ernesto Guevara fotografado por Alberto Korda em 1960. Está em camisetas, bonés, tatuagens, canecas e bandeiras de manifestações que, não raro, defendem direitos humanos, igualdade racial e diversidade sexual. A ironia é evidente para quem conhece a história; invisível para quem só conhece a estampa. Proponho, então, o exercício que o Direito impõe a qualquer acusação: separar o que está provado do que é apenas alegado.

São três as imputações que circulam: assassino, racista e homofóbico. Elas não têm o mesmo peso. Uma é robustamente documentada; outra se apoia em texto do próprio acusado, embora de sua juventude; a terceira, quanto ao indivíduo, é frágil, mas se torna sólida quando dirigida ao regime que ele ajudou a construir. É exatamente por isso que o título deste artigo fala em "membro de um regime homofóbico", e não em homofóbico pura e simplesmente.

Assassino: o paredão como método. Aqui não há controvérsia sobre os fatos, apenas sobre como qualificá-los. Em fevereiro de 1957, na Sierra Maestra, Guevara executou pessoalmente, com um tiro na cabeça, o camponês Eutimio Guerra, acusado de ser informante do exército de Batista, e registrou o episódio em seus próprios escritos de campanha. Segundo seu biógrafo Jon Lee Anderson, ele ordenou a execução de ao menos 21 pessoas ainda durante a guerrilha.

Com a vitória, em janeiro de 1959, Fidel Castro o nomeou comandante da fortaleza de La Cabaña, em Havana, transformada em prisão e paredão. Guevara supervisionava os tribunais revolucionários e funcionava como última instância das apelações. As estimativas de mortos sob sua jurisdição variam entre 55 e 105, conforme se incluam ou não os casos em que ele negou o recurso e assinou a sentença. A ONG Archivo Cuba documenta 79 execuções sob suas ordens diretas; estimativas da embaixada dos Estados Unidos à época falavam de 200 a 700 fuzilamentos no conjunto.

E ele não escondia. Em dezembro de 1964, na tribuna da Assembleia Geral da ONU, afirmou que Cuba havia fuzilado, fuzilava e continuaria fuzilando enquanto fosse necessário.

Para um jurista, a qualificação é inevitável. Julgamentos sumários, sem defesa técnica efetiva, sem contraditório, com o mesmo homem acumulando a função de acusador, revisor e executor, têm nome: execução extrajudicial. O fato de muitos réus terem sido agentes de uma ditadura que também torturou e matou não transforma o paredão em tribunal. Nuremberg julgou nazistas com advogados, provas e sentenças fundamentadas. La Cabaña não fez nada disso.

Racista confesso: o jovem dos diários. A segunda acusação nasce da pena do próprio Guevara. Em suas notas da viagem de motocicleta pela América do Sul, de 1952, ao passar por Caracas, o então estudante de medicina descreve os negros como indolentes e sonhadores, que gastariam o pouco que ganham em frivolidades, e os contrapõe aos imigrantes portugueses, que ele apresenta como trabalhadores e poupadores. A passagem é preconceituosa sem qualquer ambiguidade.

 

E seus registros sobre os combatentes congoleses carregam um tom de superioridade paternalista. O saldo é que há racismo documentado, por escrito, na juventude.

Membro de um regime homofóbico. Circulam relatos de ofensas homofóbicas, como o episódio em que teria insultado o escritor Virgilio Piñera em uma embaixada cubana, e alegações de que homossexuais teriam sido enviados ao campo de trabalho de Guanahacabibes, que ele criou como ministro da Indústria para punir servidores por "faltas à moral revolucionária". Mas, contra o regime que Che implantou, a prova é farta. Entre 1965 e 1968, Cuba internou milhares de homossexuais, religiosos e "desajustados" nas Unidades Militares de Ajuda à Produção (UMAP), campos de trabalho forçado. Guevara já havia deixado a ilha, mas o ideário que ele ajudou a formular, o do "homem novo", viril, disciplinado e devotado à revolução, era o caldo ideológico em que essa perseguição se fez política de Estado. Em 2010, o próprio Fidel Castro reconheceu publicamente sua responsabilidade pela perseguição aos homossexuais.

Guevara foi, portanto, dirigente de primeira hora de um regime homofóbico. Se foi homofóbico em pessoa, os documentos não permitem afirmar com segurança. Che não passaria em seleção de qualquer política ESG e estaria preso por crimes contra a dignidade humana e minorias.

 

À pergunta do título, a resposta dos documentos é que foi assassino, sim, por confissão própria e registro histórico; racista, sim, ao menos na juventude e por escrito; membro destacado de um regime homofóbico, sim, ainda que a homofobia pessoal careça de prova. Cada um pode admirar o que quiser. Mas não pode admirar sem saber.

Quem estampa Che Guevara no peito em nome dos direitos humanos está, sem perceber, vestindo a camiseta do carrasco.

 

Referências

ANDERSON, Jon Lee. Che Guevara: uma biografia. Rio de Janeiro: Objetiva, 1997.

ARCHIVO CUBA. Base de dados de vítimas do regime cubano.Disponível em: https://archivocuba.org.

CASTRO, Fidel. Entrevista a Carmen Lira Saade. La Jornada, Cidade do México, 31 ago. 2010.

CUBANET. Aleida March: fusilamientos en La Cabaña, "un acto de justicia revolucionaria". Disponível em: https://www.cubanet.org/aleida-march-fusilamientos-la-cabana-acto-justicia-revolucionaria/.

CUBANET. La revolución del crimen: cinco masacres perpetradas por el castrismo. Disponível em: https://www.cubanet.org/la-revolucion-del-crimen-cinco-masacres-perpetradas-por-el-castrismo/.

EL DEBATE. Ernesto "Che" Guevara, el comisario de la Cheka de La Cabaña. Madri, 15 nov. 2021. Disponível em: https://www.eldebate.com/historia/20211115/ernesto-che-guevara-comisario-cheka-cabana.html.

GUEVARA, Ernesto. Diários de motocicleta: notas de viagem pela América Latina. Diário da viagem de 1952.

GUEVARA, Ernesto. Passagens da guerra revolucionária: Congo. Diário da campanha no Congo, 1965.

GUEVARA, Ernesto. Discurso na XIX Assembleia Geral das Nações Unidas. Nova York, 11 dez. 1964.

MARCH, Aleida. Evocación: mi vida al lado del Che. Bogotá: Ocean Sur, 2008.

WERLAU, María C. Las víctimas olvidadas del Che Guevara.Archivo Cuba.

WIKIPEDIA. La Cabaña. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/La_Caba%C3%B1a.