Opinião: Georges Humbert Esquerdomachismo?
Misoginia Master
Por Prof. Dr. Georges Humbert, advogado
18/10/2026 16h18
Por: Redação
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O maior escândalo financeiro da história do país virou fofoca de alcova. Quem lucra com isso não é a Justiça — e quem paga são mulheres que não cometeram crime algum. Comecemos pelo que importa, porque é o que menos se lê. O caso Master é um rombo que, somados Master, Will Bank e Banco Pleno, ultrapassa R$ 50 bilhões, cerca de 40% de tudo o que o Fundo Garantidor de Créditos tem para proteger o correntista brasileiro. É um banco público, o BRB, que injetou R$ 16,7 bilhões numa instituição privada, boa parte em ativos sem lastro. É a suspeita de corrupção de agentes públicos nos três Poderes. É sobre isso que a Polícia Federal, a Procuradoria-Geral da República e o Supremo deveriam estar debruçados, e é disso que o país deveria estar falando.


Não é. O que o país discute, desde que o celular de Daniel Vorcaro foi aberto e vazado, são “as loiras”, “as camas”, “a orgia”. Mensagens de “bom dia” com emoji de coração. Uma noiva que tomava conhecimento da agenda do noivo. Classificações privadas de corpos femininos transcritas com deleite por colunistas que se dizem escandalizados. E, nesta semana, o ponto mais baixo: dois homens, um banqueiro e um executivo de mídia, comentando o corpo de uma atriz que sequer estava na conversa. Publicou-se. Repercutiu-se. Monetizou-se.

A vida sexual, afetiva, os gostos e preferencias, fidelidade ou não, desejos, condutas, feitiches e etc, desde que consensual e lícita, não interessa a ninguém além dos envolvidos, sejam pessoas política ou publicamente expostas ou não. E não deve haver julgamentos, muito menos moral e no tribunal da internet, nas redes sociais ou na arena política, sobre essa pauta. Muito menos quando envolvem mulheres livres.

Não repetirei aqui os nomes dessas mulheres, e jamais daria publicidade a esse tipo de ato nefasto. Já foram expostos, repetidos e achincalhados demais, injusta, imoral e ilegalmente. Basta dizer o que a própria imprensa que os repete admite, em nota de rodapé: nenhuma delas é investigada, nenhuma é alvo da Operação Compliance Zero, nenhuma é acusada de coisa alguma. A única que se manifestou — a ex-noiva, que classificou a exposição como “grave violência” e contratou advogado — viu a CPMI do INSS aprovar a sua convocação, a requerimento de um deputado de oposição. Convocar para quê? Para explicar que namorou?

O Direito não tem dúvida sobre isso. A Constituição, no art. 5º, X, declara invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas. A Lei nº 9.296/1996, no art. 10, tipifica como crime — reclusão de dois a quatro anos — quebrar segredo de Justiça com objetivos não autorizados em lei. O material vazado é prova sob sigilo, extraída de aparelho apreendido por ordem judicial. Sua divulgação seletiva, fragmentada e sem qualquer pertinência investigativa não é jornalismo: é crime em curso, cuja autoria o ministro André Mendonça mandou apurar. 

Interesse público há no encontro do banqueiro com a autoridade. Não há no emoji que ele mandou antes.
Mas o Direito, no Brasil de 2026, é detalhe. O uso é político. O Presidente da República, candidato à reeleição, subiu num trio elétrico em Salvador, em 29 de setembro, e exigiu que o adversário no Estado explicasse “se participava dessas orgias que eles patrocinavam”, sem apresentar prova alguma. No dia 4 de outubro, ao sair da urna, repetiu a fórmula: o Brasil não iria para a frente “com essa orgia que se faz em torno da quadrilha do Banco Master”. “Orgia” é a palavra escolhida. Não “fraude”, não “lavagem”, não “corrupção” — que são os crimes. “Orgia”, que não é crime, mas rende. E orgia, convém lembrar, não se faz sozinho: cada vez que a palavra é dita de um palanque, as mulheres das mensagens são novamente jogadas no palco, agora como argumento eleitoral. A convocação partiu da oposição; o palanque, do governo. A misoginia, aqui, que contribuí para aumento dos feminicídios nos quatro anos do atual governo, é do presidente da República, conhecido e confesso machista, reincidente, mas também é suprapartidária, ressalte-se.

A imprensa, que deveria ser o antídoto, foi o vetor. “As loiras de Vorcaro.” “As camas do Master.” Manchetes que não informam nada sobre o rombo e tudo sobre o apetite do público. Perfis “quem é” de modelos e atrizes, com idade, currículo e escola de samba. A transcrição integral dos adjetivos com que um homem classificava mulheres em festas, sob o pretexto de denunciá-lo. Denúncia que precisa reproduzir o insulto para funcionar não é denúncia: é revenda.

E a sociedade, nas redes, fez o resto: memes, julgamento moral, piada de alcova. Os homens das conversas são “banqueiro”, “executivo”, “ministro”. As mulheres são “as loiras”. Ele é o réu; elas, o entretenimento. Uma coluna feminista resumiu com precisão o fenômeno: quando homens cometem crimes, a pena social recai sobre as mulheres.

Aqui chego ao ponto que mais incomoda. Onde estão os autoproclamados defensores das mulheres? Onde está o feminismo de ocasião, tão ágil para a nota de repúdio quando o alvo é conveniente? Salvo honrosas e discretas exceções, calou-se. Pior, parte dele aplaudiu, compartilhou, usou. Porque as mulheres expostas estavam do lado “errado” da fotografia — ao lado de um banqueiro, numa festa, numa viagem. E então valeu tudo, e o corpo delas virou munição legítima contra o adversário político. 

É esta a forma mais perversa e injusta de machismo: a que se exerce em nome da causa que diz proteger. O machismo tradicional, ao menos, não se disfarça. Este veste a camiseta da luta e, com a outra mão, entrega a intimidade de mulheres inocentes para render likes, votos e cliques.

Haverá quem objete minha indgnação, e a objeção merece resposta. Parte das mensagens trocadas com a ex-noiva tem, sim, interesse público: nelas o banqueiro relata encontros com autoridades. E há uma linha de investigação séria sobre mulheres levadas a festas com autoridades, tratadas nas conversas por termos que não reproduzo. Correto. Mas é exatamente aí que se mede a diferença entre informar e expor. O encontro com a autoridade é notícia; o “bom dia” com coração, não. A eventual exploração de mulheres é crime  e, nele, elas são vítimas, não personagens de galeria de fotos. Interesse público autoriza publicar o fato relevante. Não autoriza transformar a vida privada de quem não é parte em espetáculo. Quem não sabe distinguir uma coisa da outra não está fazendo jornalismo nem política: está fazendo misoginia com verba de campanha e tráfego de portal.

O Brasil tem a Lei nº 14.192/2021, que criou o crime de violência política contra a mulher, aprovada sob aplausos gerais. Nenhum dos que a aplaudiram pareceu lembrar que a mulher pode ser vítima de violência política sem ser candidata , basta virar argumento. 

O caso Master vai render condenações, espera-se, pelos crimes que importam. Mas a Misoginia Master já condenou, sem processo, sem defesa e sem apelação, mulheres cujo único ato foi existir perto de um homem poderoso. Contra elas não há presunção de inocência. Há presunção de alcova. E isso, convém dizer com todas as letras, não é defesa da mulher. É o machismo mais antigo do mundo, de camiseta nova.

Georges Humbert é advogado, doutor em Direito do Estado pela PUC-SP, pós-doutor pela Universidade de Coimbra e presidente do Instituto Brasileiro de Direito e Sustentabilidade (IbradeS).