Diziam que bastava tirar para a floresta respirar. Que o problema da Amazônia era o discurso, era a motosserra ideológica, era o negacionismo climático no Planalto. Lula voltou, os artistas voltaram a sorrir, os ministérios ganharam nomes bonitos e o Brasil voltou a ser "respeitado lá fora".
Só que a fumaça não lê discurso.
Em 2024, sob o terceiro mandato de Lula, a Amazônia registrou 74.792 focos de incêndio entre janeiro e 6 de outubro, contra 37.707 no mesmo período de 2023. Quase o dobro. Segundo o MapBiomas, 2024 teve as maiores áreas queimadas na Amazônia e na Mata Atlântica desde o início da série histórica, em 1985.
E 2026? De 1º de janeiro a 12 de outubro, só o Amazonas somou 7.815 focos, alta de 116% em relação aos 3.611 do mesmo período de 2025. Em setembro de 2026 foram 3.726 focos, contra 942 em setembro de 2025. Entre 1º de setembro e 14 de outubro, 5.365 focos, alta de 195% sobre o ano anterior.
É verdade que 2026 está 67% abaixo do pico apocalíptico de 2024, quando uma seca histórica turbinada pelo El Niño varreu a região. Mas isso não absolve o governo, apenas dimensiona o tamanho do fracasso: mesmo sem El Niño extremo, o fogo voltou a subir com força em 2026.
Onde estão agora os famosos que pintavam o rosto de verde em 2019? Onde estão as ONGs que faziam contagem regressiva de cada foco no governo anterior? O silêncio é ensurdecedor. A indignação seletiva virou política de Estado.
Lula prometeu zerar o desmatamento até 2030 e transformou a Amazônia em vitrine diplomática. Na prática, entregou contingenciamento do , brigadistas sem estrutura, governadores largados à própria sorte e uma política ambiental que funciona bem no palco da COP, mas derrete diante do primeiro mês seco.
Não se trata de negar a herança do clima ou a complexidade da seca. Trata-se de cobrar coerência. Se cada foco de incêndio sob Bolsonaro era crime contra a humanidade, o que são 38.620 focos na Amazônia em 2026 sob Lula?
A floresta não precisa de marketing verde. Precisa de Estado presente, prevenção real, fiscalização o ano inteiro e menos palanque.
Sob Lula, prometeram salvar a Amazônia. Até agora, o que sobe aos céus não é esperança. É fumaça.