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Janones é verde dólar?
Por Anitilda Dicabra, filósofa cinza
25/10/2026 01h05 Atualizada há 1 semana atrás
Por: Redação
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VERDE DÓLAR

Janones, a Rede Sustentabilidade e o contraste entre o discurso e os próprios registros

André Janones, deputado da Rede Sustentabilidade, construiu projeção nacional nas redes com ataques contundentes, denúncias de desinformação e uma retórica de defesa da ética na vida pública. Na reta final da disputa, virou o “general” do Exército do Lula e lançou a missão de retomar o verde e o amarelo. Camisa da seleção, gesto de “L”, postagens sincronizadas. “O verde e amarelo é nosso de novo!”

Enquanto isso, a Amazônia queima. Manaus engasga com a fumaça. E o partido que carrega “Sustentabilidade” no nome parece mais engajado em disputar cores da bandeira do que em cobrar, com a mesma intensidade, resultados concretos de prevenção, fiscalização e combate às queimadas de quem está no comando das políticas ambientais.

A floresta não é de esquerda nem de direita. O fogo não respeita partido. A fumaça não escolhe camisa.

Mas o contraste não para no ambientalismo de ocasião. Quando o personagem deixa o campo dos discursos e passa a ser examinado à luz de registros oficiais e decisões judiciais, surgem episódios que merecem escrutínio público — o mesmo rigor que ele costuma exigir dos adversários.

O primeiro é o caso da chamada rachadinha. Em investigação da Polícia Federal, Janones foi indiciado em 2024. Em março de 2025, o Supremo Tribunal Federal homologou o acordo de não persecução penal firmado com a Procuradoria-Geral da República. O deputado admitiu os fatos relacionados ao uso de recursos de assessores para pagar despesas pessoais e assumiu obrigações financeiras que totalizaram R$ 157,8 mil. Em setembro de 2026, a PGR pediu a extinção da punibilidade após o cumprimento das condições. Não se trata de condenação criminal, mas tampouco se pode apagar a admissão dos fatos e o acordo firmado com o Ministério Público.

O segundo episódio envolve sua ex-companheira, Leandra Guedes, prefeita de Ituiutaba (MG). Em dezembro de 2024, ela obteve medida protetiva da Justiça após relatar ameaças e pressão relacionadas a uma imagem íntima, em contexto que, segundo os documentos, estaria ligado a tentativa de forçar a demissão de uma aliada política. A decisão impôs restrições de aproximação e contato, além de proibir a divulgação de material íntimo. Janones nega os atos e fala em armação. A existência da medida protetiva não equivale a condenação, mas registra a gravidade das alegações e a proteção determinada judicialmente.

Há ainda o histórico disciplinar na Ordem dos Advogados do Brasil. Reportagem de julho de 2025 informou que o parlamentar acumulava quatro sanções, totalizando 513 dias de suspensão da inscrição profissional. Em junho de 2026, a Justiça do Distrito Federal negou liminar para retirar publicações sobre sua suposta exclusão da OAB, por não identificar demonstração robusta de desinformação.

Por fim, a atuação nas redes voltou ao centro da controvérsia em outubro de 2026. O canal “Exército do Lula” foi alvo de disputa judicial com alegações de divulgação de notícias falsas. O deputado nega. Reportagens apontaram controvérsias sobre a suficiência das provas.

A questão não é transformar denúncias em condenações nem adotar automaticamente a versão de adversários. É cobrar o mesmo padrão de responsabilidade de todos: transparência, respeito às decisões judiciais, rigor na divulgação de informações e coerência entre o discurso público e a conduta documentada.

No debate brasileiro, a indignação costuma ser seletiva. O adversário é submetido ao julgamento mais severo; o aliado, às justificativas mais generosas. A credibilidade, porém, não deveria depender da cor partidária nem da camisa do momento.

Na Verde Dólar a provocação fica no ar: quando a fiscalização moral dos adversários vira instrumento de combate político, quem fiscaliza os fiscais? E quando o partido se chama Sustentabilidade, quem cobra a sustentabilidade de verdade — inclusive a dos próprios discursos?

A Coluna Verde Dólar é satírica e escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o Sustentabilidade em Pauta, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.