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Casas resilientes pós enchentes no Rio Grande do Sul
Casas fora da 'mancha de risco' climático: reconstrução resiliente ganha força no interior gaúcho
14/02/2026 01h56
Por: Redação
Casa - Gov RS
 

Após o maior desastre climático do estado, reconstrução no Rio Grande do Sul avança com casas resilientes e soluções baseadas na natureza, mas déficit habitacional, dificuldades logísticas e falta de terreno ainda desafiam políticas públicas

Cinquenta famílias afetadas pelas enchentes de 2023 e 2024 no município de Muçum, no Rio Grande do Sul, ganharam casas neste ano. As moradias de 52m foram erguidas em uma área elevada da cidade banhada pelo rio Taquari e contam com conforto térmico e mobílias

A pouco mais de 150 quilômetros de Porto Alegre, o município de Muçum foi um dos mais afetados pelas enchentes devastadoras de setembro de 2023 e de maio de 2024, que assolaram o estado do Rio Grande do Sul. Com o transbordamento do Rio Taquari, cerca de 80% da área total da cidade foi alagada e desabrigou um quarto da população. Alguns se mudaram para casa de parentes, outros alugaram um espaço com o dinheiro do aluguel social do governo estadual, mas muita gente abandonou suas vidas na cidade com medo que novos desastres do tipo tirassem o pouco que ainda restava. Dos 6 mil habitantes que tinha há três anos, restam cerca de 4,5 mil. A reconstrução de moradias para quem decidiu ficar, contudo, se tornou um problema: restaram poucos espaços fora da mancha de risco de alagamento. E o pior: nem todos conseguem arcar com o custo de uma nova moradia. 

Entre recursos para as ações emergenciais, como reforma e equipagem de cozinha de escolas para retomar rapidamente as aulas, doações de cestas básicas, construção de lavanderias temporárias em contêineres e o projeto de médio prazo da construção das casas, a União BR direcionou cerca de R$ 90 milhões ao estado do Rio Grande do Sul, conta Marcella Balthar, cofundador da organização e da ONG Transforma Recife. Só para o projeto de habitação foram arrecadados R$ 35 milhões junto à iniciativa privada, com doações significativas do Banco Itaú, Regenera RS (fundo de coalizão com Gerdau, Vale e Grupo Fleury, Grupo Baumgart , Instituto Helda Gerdau e o Grupo +Unidos), o jogador de futebol Neymar Jr. e Itaúsa.

Os recursos foram aplicados em várias frentes. Marcella Balthar detalha que só de máquina de lavar e secar foram 160, além de mais de 3,6 mil quilos de sabão em pó doados para serem usados nos três contêineres de lavanderia. “Também conseguimos seis totens de telemedicina para os atendimentos psicológicos das famílias dentro dos abrigos e destacamos três carretas de atendimento médico e odontológico em parceria com o SUS para que a população que tinha consulta marcada de outras especialidades pudessem passar com os médicos. Foram feitos, ao todo, 68 mil atendimentos médicos nas carretas”, acrescenta Marcela.

Os recursos vieram de duas formas: doação em dinheiro por pessoas físicas, empresas e fundações, como o Itaú, a Zurich Foundation, a Zurich Santander ou insumos e/ou serviços. A auditoria Grand Thorton e o escritório de advocacia VPN Advogados, por exemplo, são parceiros do movimento doando seus serviços. Ao todo, são 60 doadores.

“O investimento no projeto do União BR foi de R$ 1 milhão, que faz parte de um ciclo de R$ 51 milhões em doações que fizemos no ano passado”, comentou Paulo Boneff, líder de Desenvolvimento Organizacional, Diversidade e Responsabilidade Social da Gerdau. Segundo ele, o dinheiro foi direcionado a projetos de infraestrutura, como pontes, para escolas, hospital, qualificação de pessoas para se recolocarem no mercado de trabalho, apoio a empresas e, agora, o foco será montar uma coalização de empresas e pessoas para atuar no desenvolvimento econômico e no ambiente de negócios do Rio Grande do Sul.

“Estamos discutindo um plano para a região do Instituto Caldeira, em Porto Alegre, se tornar um polo de empreendedorismo e inovação maior do que é hoje. Um desafio que o governador sempre fala é a atração de negócios para o Rio Grande do Sul, porque, com as chuvas, muitas pessoas e empresas saíram do estado”, comenta. Boneff explica que a ideia é não apenas atrair quem já saiu do estado, mas outros negócios que possam abrir escritórios ou operações no RS.

 

Casas industrializadas

 

Para a construção dos 116 imóveis, a Steel Corp aceitou o desafio de fazer montar casas industrializadas de baixa e média renda - até então, estava focada em projetos de maior porte e alto nível de customização. Também baixaram a margem de lucro e investiram em pesquisa e desenvolvimento para agilizar a entrega e contornar as dificuldades de mão de obra.

“Para o projeto de Bom Retiro do Sul, que começou depois, já conseguimos diminuir, por exemplo, em 35% o aço usado na obra. Utilizamos, por exemplo, materiais mais nobres e que oferecem uma performance melhor”, comenta Giulliano Polito, diretor de Engenharia e Operações da Steel Corp. A espessura das placas de aço também ficou maior para diminuir o número de placas a serem parafusadas, reduzindo consequentemente a necessidade de pessoas e tempo de instalação. Com as melhorias, o tempo de obra diminuiu bastante. No caso de Muçum, foram cerca de quatro meses para pôr de pé as construções e, em Muçum, três meses.

 

O tipo de construção que a Steel faz é industrializada. Segundo Stael Xavier, diretora Comercial da companhia, que tem entre os sócios o empresário Roberto Justus, a técnica de construção envolve estrutura de placas de aço preparadas na fábrica em São Paulo e uma lona tecnológica que permite que a casa “respire”, ou seja, que a umidade saia mas impede a entrada de água ou vapor, diminuindo a incidência de mofo. Depois é aplicado o reboco e o acabamento. “É diferente das paredes de drywall, que são frágeis. As nossas paredes estruturais são resistentes e oferecem uma cobertura melhor de desempenho técnico e acústico. Agora, o novo teste será substituir forros de gesso por telhas termoacústicas e ampliar o nível de industrialização.

Alguns terrenos precisaram de muros de contenção na frente e atrás das casas para evitar deslizamentos no período chuvoso — Foto: Naiara Bertão / Um Só Planeta

As 116 casas entregues pela iniciativa do União BR também contaram com materiais de parceiros privados do projeto, como Gerdau, que doou o aço da base dos imóveis, a Vedacit, com impermeabilizantes, Leroy Merlin com pisos e outros materiais, Lorenzetti com chuveiros, Suvinil com tintas, além de outras empresas que equiparem as casas com utensílios domésticos, louças, geladeira, liquidificador, fogão, ventilador, roupa de cama, mesa e banho.

 

Como cerca de 60% da obra ocorre dentro da fábrica da SteelCorp A29, em poucos dias as casas já ficam prontas. No caso do Rio Grande do Sul, a demora se deve ao desafio logístico de levar os materiais de São Paulo ao Rio Grande do Sul e a necessidade de construir muros de contenção em alguns terrenos para evitar deslizamentos com as chuvas. A Steel já construiu desde sua criação em 2023, cerca de 2 mil residências.

A experiência no Rio Grande do Sul veio, porém, em boa hora. A empresa já estudava entrar no modelo de casos mais populares e ganhar espaço no filão de mercado dos programas Minha Casa Minha Vida e CDHU, de baixa renda. “A escala, nesse caso, é muito importante para justificar o custo”, diz. Ela estima que, nos próximos anos, até 80% do faturamento pode vir de projetos de escala como esses.

A homologação da técnica de construção nos editais, contudo, é um desafio e nem todos aceitam construções modulares e industrializadas como as que a Steel faz. “Temos que comprovar como todos a eficiência da obra, a qualidade dos materiais, a durabilidade e vida útil. O governo não deveria ditar como fazer, mas sim a qualidade do que vai ser entregue”, aponta.

Cidade de Bom Retiro vai receber 66 casas do projeto do Movimento União BR — Foto: Naiara Bertão / Um Só Planeta
 

 

Déficit habitacional no Rio Grande do Sul

 

As 166 casas doadas pelo grupo coordenado pela União BR ajudam, mas não resolvem o déficit habitacional que o estado do Rio Grande do Sul ainda tem de enfrentar após a tragédia dos últimos anos. O governador gaúcho, Eduardo Leite, esteve presente na cerimônia de entrega das casas em Muçum na terça-feira (10) e falou a jornalistas.

“Materialmente é visível, mas tem uma contribuição moral também que é importante, que é a percepção de todos os gaúchos, seja no poder público, seja na iniciativa privada, sejam as famílias, de que nós não estávamos sozinhos, de que havia gente sofrendo junto conosco e agindo por nós. Isso faz toda a diferença”, comentou. “Isso ajudou muito a alavancar o melhor espírito de doação de todos, arrastou outros para fazer o mesmo gesto.”