Os 10% mais ricos da população brasileira são responsáveis por cerca de 72% da pegada de carbono gerada pelo transporte aéreo no país, segundo um estudo recente que analisa a relação entre renda e emissões de gases de efeito estufa no setor da aviação. O dado expõe uma profunda desigualdade climática e reforça o debate sobre quem, de fato, contribui para o impacto ambiental associado às viagens de avião.
A pesquisa mostra que, na outra ponta da pirâmide social, os 50% mais pobres do Brasil respondem por menos de 10% das emissões do transporte aéreo. O resultado reflete o acesso extremamente desigual ao modal: enquanto uma parcela reduzida da população realiza múltiplas viagens aéreas ao longo do ano, a maioria dos brasileiros voa raramente ou nunca utilizou avião.
De acordo com os autores do estudo, a concentração das emissões está diretamente ligada ao padrão de consumo das camadas de renda mais alta, que incluem viagens frequentes a trabalho e lazer, uso de classes superiores e deslocamentos internacionais, todos associados a uma pegada de carbono significativamente maior. Mesmo representando uma fração pequena da população, esse grupo exerce um peso desproporcional sobre as emissões do setor.
O levantamento também chama atenção para o fato de que políticas climáticas voltadas apenas à eficiência tecnológica da aviação, como o uso de combustíveis sustentáveis ou aeronaves mais modernas, tendem a ser insuficientes se não enfrentarem o problema estrutural da desigualdade no consumo. Segundo os pesquisadores, sem mecanismos que considerem justiça climática, o custo da transição tende a recair sobre toda a sociedade, inclusive sobre quem menos contribui para o problema.
Especialistas apontam que os dados reforçam a necessidade de um debate mais amplo sobre tributação ambiental, subsídios ao setor aéreo e instrumentos econômicos que desestimulem o uso excessivo do transporte aéreo por uma minoria altamente emissora. Medidas como taxação progressiva de passagens, cobrança por voos frequentes e revisão de incentivos fiscais ao querosene de aviação aparecem entre as alternativas discutidas internacionalmente.
Em um país que busca cumprir metas climáticas e reduzir desigualdades sociais, o estudo evidencia que a crise do clima não é apenas ambiental, mas também social. A concentração da pegada de carbono da aviação nas mãos dos mais ricos revela que enfrentar o aquecimento global passa, necessariamente, por discutir padrões de consumo, distribuição de renda e responsabilidade histórica pelas emissões.
Fontes:
– Estudo sobre desigualdade de renda e emissões do transporte aéreo no Brasil, elaborado por pesquisadores das áreas de economia ambiental e clima.
– Relatórios do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG/Observatório do Clima).
– Oxfam Brasil — publicações sobre desigualdade climática e concentração de emissões por faixa de renda.
– Agência Brasil — reportagens sobre aviação, emissões e justiça climática.