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Economia Faliu?

Lula pedalou nos Correios?

Entenda

18/05/2026 22h04
Por: Redação
Lula pedalou nos Correios?

A pergunta, que antes soava como provocação, agora ganhou peso real. Em 18 de dezembro de 2025, três dias úteis depois de receber a versão final do plano de reequilíbrio dos Correios, o Tesouro Nacional liberou a garantia da União para um empréstimo de R$ 12 bilhões à estatal, contratado com cinco bancos. Agora, a área técnica do Tribunal de Contas da União (TCU) vê sinais de irregularidade nessa decisão — e isso reacende, em ano eleitoral, um debate que o PT preferia deixar no passado: o das pedaladas fiscais.

Segundo reportagem de Guilherme Pimenta e Giordanna Neves, publicada no *Valor Econômico* nesta segunda-feira (18/05/2026), os auditores do TCU entendem que pode ter havido falhas na concessão da garantia do Tesouro ao empréstimo dos Correios. A suspeita é de que o órgão pode não ter avaliado direito a real capacidade de pagamento da estatal antes de dar o aval. Procurados, Tesouro e Correios não comentaram.

O ponto mais sensível da análise técnica está numa frase que, em Brasília, pesa bastante. Para os auditores, se os Correios não tiverem condições de pagar o empréstimo, a garantia da União pode ter servido não só para baratear o crédito da estatal, mas também para adiar o impacto fiscal dessa operação sobre as contas públicas e a dívida do governo. Em outras palavras: se a estatal não paga, quem assume a conta é o Tesouro — e isso empurra o problema para frente.

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A forma como tudo foi feito chama atenção. Em operações desse tipo, a garantia da União funciona como uma espécie de seguro: se a empresa não honra a dívida, o governo cobre. O que o *Valor* mostra é que o procedimento adotado pelo Ministério da Fazenda fugiu do padrão. A operação só andou depois da publicação, em 12 de dezembro, de uma portaria que permitiu aos técnicos considerar, na análise do pedido, medidas previstas no plano de reequilíbrio dos Correios, mesmo sem elas terem sido colocadas em prática ainda. Para o TCU, essa interpretação teria enfraquecido a análise sobre a situação financeira da empresa e reduzido o papel do Tesouro na proteção do caixa público.

O prazo também entrou na mira. A garantia foi liberada em 18 de dezembro, só três dias úteis depois de o Tesouro receber a versão final do plano de reequilíbrio e seis dias úteis após o aval da CGPAR. Para os auditores, esse intervalo foi curto demais para uma operação tão complexa, o que reforçaria a suspeita de que a capacidade de pagamento dos Correios não foi examinada com a profundidade necessária.

Os números ajudam a entender a desconfiança. Ainda segundo a reportagem, os Correios fecharam 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões e hoje convivem com um rombo mensal de cerca de R$ 700 milhões no caixa. Além disso, a estatal deve fazer nova captação ainda este ano, agora em torno de R$ 7 bilhões, também com garantia da União. Na primeira rodada, alguns bancos chegaram a oferecer crédito a 136% do CDI, acima do limite aceito pelo governo, que é de 120%. No fim, os Correios dividiram a captação e fecharam a primeira tranche a 115% do CDI.

É aí que a lembrança de 2015 volta com força. A palavra “pedalada fiscal” ficou marcada no vocabulário político brasileiro por causa da manobra que acabou sendo usada contra Dilma Rousseff. Naquele caso, o governo atrasava repasses e usava artifícios contábeis para adiar o impacto das despesas nas contas públicas. O caso dos Correios não é exatamente igual, porque aqui não se trata de atraso de repasse a banco público. Mas, na prática, o efeito apontado pelos técnicos do TCU é parecido: adiar o reconhecimento do impacto fiscal que poderia recair diretamente sobre o governo.

O cenário político também pesa. Em janeiro, o TCU já tinha negado um pedido do senador Flávio Bolsonaro para suspender a operação, afirmando que ainda não havia um ato administrativo formal para ser analisado. Em março, o Tribunal arquivou uma representação semelhante feita pelo senador Rogério Marinho, pelo mesmo motivo. Agora, a situação mudou: o ato foi praticado, a garantia foi concedida e o dinheiro saiu. E a área técnica do Tribunal passou a enxergar indícios de irregularidade.

Por enquanto, porém, não há decisão final. O que existe é uma avaliação técnica, ainda sujeita à manifestação dos envolvidos e ao julgamento do plenário do TCU. Até aqui, não houve decisão colegiada dizendo que houve pedalada fiscal, nem responsabilização de agentes públicos. Tesouro e Correios, como registrou o *Valor*, seguiram sem comentar.

Mesmo assim, a discussão já mudou de patamar. Se a União garantiu R$ 12 bilhões — e ainda pode avalizar mais R$ 7 bilhões — para uma estatal com prejuízo bilionário e caixa no vermelho, por meio de uma portaria editada pouco antes da liberação e com análise considerada apressada pelos próprios auditores, a questão deixa de ser só técnica. O debate passa a ser sobre se o governo montou uma engenharia para destravar crédito e, ao mesmo tempo, empurrar a fatura e a transparência dessa operação para depois da eleição.

 

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