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Dizem que “extrema esquerda” é invenção da direita. Não é.

Por Prof. Dr. Georges Humbert, advogado

08/10/2026 16h43
Por: Redação
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Também não é correto chamar toda a esquerda de extrema esquerda. A questão é outra: existem correntes políticas que defendem a superação do capitalismo, a propriedade social dos meios de produção, a luta de classes e uma transformação estrutural da ordem vigente. Isso está documentado.

Marx e Engels defenderam no Manifesto Comunista a abolição da propriedade privada dos meios de produção. Gramsci acrescentou a disputa pela hegemonia cultural e política.

E essas ideias não ficaram nos livros.

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O próprio PT afirma, em documentos partidários, que o capitalismo pode e deve ser superado. Resolução do partido fala em uma sociedade socialista e estabelece a propriedade pública ou social dos grandes meios de produção como pilar desse novo modo de produção.

Mais: documento de corrente nacional do PT sustenta que a emancipação dos trabalhadores somente seria possível com a superação do regime capitalista e fala em ruptura do monopólio capitalista sobre indústria, comércio, terra, finanças e meios de comunicação.

O PSOL também não esconde sua matriz ideológica. Seu programa define o socialismo como alternativa estrutural ao capitalismo e afirma que seu projeto é anticapitalista, baseado na socialização e no controle social da produção.

E o PCdoB é ainda mais explícito. Seu estatuto afirma que o partido se guia pela teoria revolucionária de Marx e Engels, desenvolvida por Lênin, visa à conquista do poder político pelo proletariado, propugna o socialismo científico e tem o comunismo como objetivo superior.

Documento mais recente do próprio PCdoB fala em transição do capitalismo ao socialismo, “rupturas” e construção de hegemonia para a conquista do poder político.

Não é acusação. É leitura de documentos.

O ponto juridicamente relevante é outro: até onde pode ir uma democracia que pretende transformar radicalmente a própria ordem econômica e política que a Constituição protege?

A Constituição brasileira garante propriedade, pluralismo político, liberdade, eleições e Estado Democrático de Direito.

Portanto, defender reforma tributária, políticas sociais, direitos trabalhistas ou redução das desigualdades não é extremismo.

Mas defender a superação do capitalismo, a socialização dos meios de produção, a conquista do poder por uma classe ou a ruptura estrutural com a ordem econômica vigente é, objetivamente, uma posição radical.

E isso explica por que existe extrema esquerda.

Não porque alguém decidiu colocar um rótulo em um adversário.

Mas porque Marx escreveu. Gramsci desenvolveu. E PT, PSOL e PCdoB ainda registram, em diferentes graus e formulações, partes dessa tradição em seus próprios documentos.

A democracia deve comportar esquerda e direita.

O que ela não deve fazer é confundir liberdade para defender uma transformação radical com a inexistência da própria radicalidade.

Extrema esquerda existe. E, às vezes, basta estudar, ou apenas ler o programa de quem diz que ela não existe.

Georges Louis Hage Humbert
Advogado em Direito Público, com duas décadas de experiência
Pós-doutor em direito pela Universidade de Coimbra – Portugal. Pós-doutor em direito pela UNICURITIBA. Doutor e mestre em direito do estado pela PUC-SP. Presidente do Instituto Brasileiro de Direito e Sustentabilidade – IBRADES e vice-presidente da Associação Comercial da Bahia. Presidente da Comissão de Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade da OAB-BA. Membro do Conselho de Meio Ambiente do Município de Salvador e do Conselho da Reserva da Biosfera do Estado da Bahia. Foi Superintendente de Patrimônio da União, Gerente de Projetos do Ministério do Meio Ambiente, Assessor Especial Secretaria-Geral da Presidência da República, Superintendente de Políticas Ambientais de Goiás, membro do CONAMA, do Conselho de Respostas a Desastres do Conselho de Governo da Presidência da República.
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