A sustentabilidade também precisa sobreviver ao discurso identitário.
Erika Hilton construiu parte de sua projeção política em torno da defesa da identidade negra, do combate ao racismo estético e da valorização das raízes culturais. Mas, quando se observa a distância entre determinados discursos e algumas escolhas públicas da parlamentar, surgem questionamentos que merecem ser feitos.
A começar pela estética.
Erika já falou sobre a importância de reconhecer a própria negritude, libertar-se dos padrões de beleza impostos e valorizar a história e a aparência das mulheres negras. Em entrevista, afirmou que descobriu sua história e que queria ter liberdade para usar o cabelo liso quando desejasse. É uma defesa legítima da autonomia individual. Mas também abre uma discussão interessante: até que ponto a representação política de uma causa se transforma em compromisso permanente com aquilo que se defende?
Hoje, a parlamentar aparece frequentemente com cabelos loiros, lisos e produções sofisticadas. Nada disso, isoladamente, diminui sua identidade ou sua legitimidade. O problema começa quando a estética vira bandeira política para os outros, mas deixa de ser objeto de reflexão quando envolve a própria imagem.
E a incoerência, para quem cobra coerência dos demais, não termina no espelho.
Em junho de 2025, veio à tona a contratação de dois profissionais que Erika conheceu como maquiadores para exercer funções de assessoria parlamentar. A deputada justificou as nomeações afirmando que ambos desempenhavam outras atividades no gabinete e que a maquiagem era apenas uma colaboração eventual. O episódio provocou questionamentos sobre a finalidade das contratações e chegou ao debate no Tribunal de Contas da União. A parlamentar negou irregularidades.
Há ainda a questão do consumo e da ostentação. Bolsas de grife, roupas sofisticadas, joias e produções de alto custo compõem uma imagem pública distante da simplicidade e da economia circular frequentemente associadas ao discurso de sustentabilidade. Não se trata de exigir que uma parlamentar viva sem conforto ou deixe de consumir produtos de luxo. Trata-se de perguntar se o compromisso ambiental é uma convicção que orienta escolhas ou apenas uma bandeira conveniente para o discurso político.
Mas talvez a contradição mais relevante esteja no silêncio.
Enquanto o Amazonas enfrentava uma grave crise de queimadas em outubro de 2026, com registros de focos de calor muito superiores aos do mesmo período do ano anterior em determinadas regiões, a cobrança por manifestações públicas de representantes que fazem da defesa ambiental uma bandeira política é absolutamente legítima.
Levantamento do IPAM apontou que, entre 4 e 14 de outubro, a região metropolitana de Manaus e municípios do entorno registraram 5.598 focos de calor, 37 vezes o número observado no mesmo intervalo de 2025. O cenário exigia atenção, fiscalização e cobrança das autoridades.
Onde estava a indignação proporcional à gravidade do problema?
A questão não é Erika Hilton usar cabelo loiro, roupas caras ou maquiagem. Cada pessoa tem liberdade para construir sua própria imagem, consumir o que desejar e exercer sua identidade como entender. A questão é a seletividade com que determinados discursos são mobilizados.
Quem cobra coerência da sociedade precisa aceitar que sua própria atuação também seja examinada.
A defesa das raízes não pode ser apenas um discurso de ocasião. A sustentabilidade não pode ser apenas uma palavra de efeito. E o ambientalismo não pode ter intensidade diferente conforme o governo, o personagem político ou a conveniência do momento.
No fim, a pergunta que fica para Erika Hilton e tantos outros representantes que reivindicam o monopólio das causas sociais e ambientais é simples: a coerência também está incluída no mandato ou é uma exigência reservada aos adversários?
Porque, no mercado das virtudes públicas, há quem venda consciência social, identidade e sustentabilidade. Mas nem sempre entrega o produto.
A Coluna Verde Dólar é satírica e escrita aos domingos pela filosofa cinza Anitilda Dicabra, para o Sustentabilidade em Pauta, trazendo um humor ácido sobre fatos (irreais) que (des) mascaram os (in) sustentáveis.