Uma série de peças de propaganda política que circulam nas redes sociais atribui a Flávio Bolsonaro (PL) a intenção de acabar com benefícios sociais, retirar medicamentos gratuitos da população, reduzir direitos trabalhistas e deixar idosos e pessoas com deficiência sem proteção. Parte desse material, porém, já foi desmentida por agências de checagem, que identificaram informações falsas e conteúdos manipulados por inteligência artificial.
Em junho, em evento do PT chamado "Porta-voz do Lula", Janones disse em discurso para militância:
"Para salvar a democracia neste país... Antes eu dizia que valia quase tudo. Eu mudei o meu discurso nestes quatro anos. Hoje, para mim, vale tudo para salvar a democracia deste país"
Na mesma palestra ele orientou a "criar versão dos fatos" e "desviar o foco" em vez de responder diretamente a ataques da oposição
Entre as publicações estão cartazes com frases como “Flávio Bolsonaro vai acabar com a LOAS”, “vai tirar seu remédio” e “quer tirar seus direitos, férias, 13º salário e outros benefícios”. As imagens utilizam cores fortes, representações dramáticas de pessoas vulneráveis e mensagens de impacto para apresentar como decisões anunciadas medidas que não foram comprovadas.
Em verificação publicada em 8 de outubro, a agência Aos Fatos informou que não encontrou registros de que Flávio Bolsonaro tenha anunciado a extinção do Farmácia Popular. A assessoria do candidato também negou que ele tenha feito a declaração atribuída a ele nas redes sociais.
O UOL Confere, por sua vez, publicou checagem apontando que a campanha não anunciou o fim do 13º salário, do Benefício de Prestação Continuada (BPC) ou o aumento da idade mínima para aposentadoria nos termos divulgados por publicações virais.
O caso mais grave envolve um vídeo manipulado por inteligência artificial no qual Flávio aparenta anunciar cortes em pensões, no 13º salário e no programa Pé-de-Meia. Segundo a Aos Fatos, o conteúdo foi produzido a partir de imagens de um pronunciamento real do candidato, com alterações na voz e nos movimentos da boca. Na gravação original, ele não fez os anúncios atribuídos a ele.
As publicações enganosas alcançaram centenas de milhares de visualizações e interações nas plataformas digitais, segundo os levantamentos divulgados pelos verificadores.
A controvérsia ocorre em meio ao debate sobre o programa econômico de Flávio Bolsonaro, especialmente as propostas de ajuste fiscal, revisão de despesas obrigatórias e mudanças nas regras previdenciárias e trabalhistas.
Essas discussões são legítimas e de interesse público. Eventuais alterações no financiamento da saúde, da educação e dos benefícios sociais merecem escrutínio jornalístico, análise técnica e cobrança de explicações dos candidatos.
O problema começa quando hipóteses, interpretações ou críticas são transformadas em afirmações categóricas sobre medidas que não foram anunciadas. Uma coisa é questionar se determinada política fiscal poderá comprometer recursos públicos; outra, diferente, é divulgar um vídeo falso em que o candidato supostamente promete extinguir benefícios.
A distinção é essencial para que o eleitor conheça os riscos reais de cada proposta sem ser induzido a decidir com base em informações fabricadas.
A circulação das peças também levanta questionamentos sobre a atuação de perfis políticos e influenciadores digitais alinhados ao governo Lula. A existência de conteúdo falso contrário a Flávio Bolsonaro, contudo, não basta para atribuir sua autoria ao PT, ao presidente ou ao deputado André Janones.
Para demonstrar eventual coordenação, seria necessário identificar quem produziu originalmente cada peça, rastrear sua distribuição, verificar possíveis vínculos entre os perfis e examinar se houve participação de estruturas partidárias ou de campanha.
Atribuir responsabilidade sem essas evidências reproduziria o mesmo problema que se pretende denunciar: apresentar uma suspeita como fato comprovado.
O uso político da desinformação não é exclusivo de um campo ideológico. Conteúdos falsos ou manipulados podem beneficiar diferentes candidaturas, e sua apuração deve seguir os mesmos critérios, independentemente de quem seja favorecido.
O episódio evidencia um dos principais desafios da campanha eleitoral de 2026: a velocidade com que imagens de forte apelo emocional e vídeos gerados ou alterados por inteligência artificial podem se espalhar antes que o público tenha oportunidade de verificar sua autenticidade.
Idosos, pessoas com deficiência, trabalhadores e famílias de baixa renda são diretamente afetados pelo debate sobre benefícios sociais. Usar o temor de perder direitos para atribuir a um candidato declarações inexistentes prejudica a qualidade da discussão democrática e dificulta a avaliação consciente das propostas.
A resposta exige transparência dos candidatos, responsabilidade dos partidos, atuação das plataformas digitais e rigor das autoridades eleitorais. Também exige que o jornalismo diferencie propostas efetivamente apresentadas, riscos econômicos plausíveis e alegações fabricadas.
Em uma eleição, é legítimo combater um adversário político com críticas duras. O que não é legítimo é fabricar uma declaração e apresentá-la como verdadeira. Quando a disputa eleitoral transforma o medo de perder direitos em instrumento de manipulação, quem sai prejudicado é o eleitor.
Fontes: Aos Fatos, “Flávio Bolsonaro não anunciou que vai acabar com o Farmácia Popular” (8/10/2026); Aos Fatos, checagem sobre vídeo manipulado por IA envolvendo pensões, 13º salário e Pé-de-Meia (8/10/2026); UOL Confere, “Campanha de Flávio Bolsonaro não disse que vai acabar com o 13º” (7/10/2026, atualizado em 8/10/2026).
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