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Meio Ambiente Clima

O El Niño não explica tudo

Ondas de calor no Brasil aumentaram a cada El Niño: foram de 3 no episódio de 1982-83 para 9 no de 2023-24, segundo o CEMADEN.   Calor extremo é o evento com ligação mais clara com a mudança do clima; no Sul, o El Niño está associado a mais chuva, como nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul.

11/10/2026 23h35
Por: Redação Fonte: Boletim El Niño
 O El Niño não explica tudo



 


O El Niño não explica tudo

  • Ondas de calor no Brasil aumentaram a cada El Niño: foram de 3 no episódio de 1982-83 para 9 no de 2023-24, segundo o CEMADEN.
     
  • Calor extremo é o evento com ligação mais clara com a mudança do clima; no Sul, o El Niño está associado a mais chuva, como nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul.

Com a chegada da primavera e a aproximação de um verão que deve ser marcado por ondas de calor, o El Niño tende a aparecer cada vez mais na cobertura sobre altas temperaturas e eventos extremos no Brasil. Mas nem todo extremo será consequência do fenômeno. E as ondas de calor são o exemplo mais claro disso.
 

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Entre os diferentes tipos de eventos extremos, o calor é justamente aquele em que a relação com a mudança climática está mais bem estabelecida pela ciência. O El Niño pode elevar temporariamente as temperaturas globais e contribuir para determinados episódios, mas ocorre sobre uma base de aquecimento que já existe independentemente dele.

 

No Brasil, a frequência de ondas de calor vem aumentando ao longo das últimas décadas, inclusive em anos sem El Niño. O gráfico abaixo ajuda a visualizar essa diferença: mesmo episódios muito fortes de El Niño no passado ocorreram quando o país registrava menos ondas de calor do que hoje.

 

Frequência de ondas de calor no Brasil em cada episódio de El Niño. Fonte: CEMADEN e Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

 

Isso não significa que o aumento de temperatura causado pelo El Niño seja irrelevante. No Sul do Brasil, em particular, os anos de El Niño estão associados a maior volume de precipitação e maior probabilidade de chuvas intensas. Foi o que aconteceu nas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul: um estudo de atribuição concluiu que tanto o El Niño quanto a mudança climática contribuíram para as chuvas extremas.

 

Mas chuva extrema não acontece apenas no contexto de um El Niño. Em fevereiro de 2023, São Sebastião registrou mais de 600 mm de chuva em menos de um dia. Estudos meteorológicos apontam uma combinação de frente fria, circulação atmosférica, umidade oceânica e dos efeitos da Serra do Mar como ingredientes imediatos da tempestade. E um estudo de atribuição apresentado em 2026indica que a influência humana sobre o clima intensificou o evento, adicionando cerca de 46 a 50 mm à precipitação.

 

A cautela será especialmente importante nos próximos meses. Este El Niño pode modificar onde e como alguns extremos se manifestam, mas eles ocorrem em um Brasil mais quente e com uma frequência muito maior de ondas de calor. Para a cobertura jornalística, será essencial distinguir o papel do fenômeno do de uma tendência mais longa, provocada pelo aquecimento do planeta.


Temperatura do Pacífico sobe pela terceira semana seguida, com o calor concentrado perto da América do Sul: o Pacífico Equatorial marcou +2,3°C acima da média em 5 de outubro, a quarta leitura semanal seguida na faixa muito forte do El Niño, de 2°C ou mais. O aquecimento é maior junto à costa do Peru e do Equador, onde a anomalia chega a +4,5°C, segundo a NOAA.
 

 

Previsão indica chuva abaixo da média na bacia amazônica até 19 de outubro, com o rio Branco perto das mínimas: o prognóstico da NOAA reproduzido pelo Serviço Geológico do Brasil aponta déficit de chuva sobre quase toda a região monitorada nas próximas duas semanas. Em Boa Vista (RR), o rio Branco ficou estável, em 82 cm, ainda colado à curva de mínimas históricas e 54 cm abaixo do nível da mesma data em 2016, ano da mínima da estação. A bacia do rio Branco teve 35 mm de chuva nos últimos 30 dias, um terço do volume esperado para o período. Em Manaus, o rio Negro baixou 87 cm na semana, mas segue dentro do esperado para o período, 569 cm acima da mesma data de 2024, ano da seca recorde. Chuva abaixo da média no norte da Amazônia é o padrão histórico do El Niño.

 

 

Reservatórios de Pernambuco acentuam a queda, e o Sudeste/Centro-Oeste tem o menor nível em cinco semanas: com 34,5% e 34,8%, os açudes pernambucanos e piauienses são os mais vazios entre os seis estados do Nordeste com dado agregado na ANA, a menos de cinco pontos da faixa de pré-colapso, abaixo de 30%. Pernambuco teve a maior perda proporcional da semana, de 35,3% para 34,5%. No El Niño de 2015-16, o estado viu o açude de Jucazinho secar e Caruaru passar a depender da Transposição do Rio São Francisco. No conjunto, os 543 reservatórios monitorados na região estão em 46,3%. Já no sistema de geração de eletricidade, o subsistema Sudeste/Centro-Oeste caiu para 56,1%, o menor valor desde a primeira edição do boletim, em agosto.
 

 

Chuvas de setembro seguem o padrão histórico do El Niño: choveu de 50 a 200 mm acima da média em boa parte do Sul e do oeste de São Paulo, enquanto Roraima e o leste do Pará tiveram os maiores déficits de chuva do país, segundo o INMET. Na temperatura, o Sul foi a única região onde predominaram valores na média ou abaixo dela, com o litoral catarinense até 2°C mais frio que o normal. No restante do país, o mês foi mais quente que a média, com desvios acima de 2°C em Mato Grosso, no Pará e em Roraima. O excesso de chuva no Sul é compatível com o padrão que o El Niño costuma trazer na primavera e coincidiu com os temporais que atingiram o Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

 

 

Focos de calor diminuem no país, mas sobem na Amazônia: de 1º de setembro a 5 de outubro, o país teve 28.418 focos, 19,2% a menos que no mesmo período de 2025. A queda veio principalmente do Cerrado, com 51,5% menos focos. Na Amazônia, foram 15.206, 78,5% a mais. Só em setembro, o Amazonas teve quase quatro vezes mais focos do que no mesmo mês do ano passado. A divergência continua em outubro: nos cinco primeiros dias do mês, o país teve 42% menos focos que em 2025, mas a Amazônia teve o dobro, 2.644 contra 1.309. O Pará, estado com mais focos em setembro, está entre as áreas com os maiores déficits de chuva do país no mês, segundo o INMET.

 

 

 


 

 

 


Temporais do fim de setembro chegam ao registro federal, e o Rio Grande do Sul passa de 11 mil pessoas fora de casa: só o granizo de 26 de setembro em Santiago (RS) deixou 6.013 desalojados ou desabrigados, o segundo maior número entre os municípios do país nos últimos 30 dias, atrás de Itaquaquecetuba (SP), com 8.551. De 5 de setembro a 5 de outubro, 30.111 pessoas ficaram desalojadas ou desabrigadas por chuvas intensas, vendaval e granizo em 103 municípios de 10 estados, 33 vezes mais que no mesmo período de 2025. São Paulo soma 15,1 mil, e o Rio Grande do Sul, 11,3 mil. O registro federal tem nove mortes no período; cinco delas ocorreram na queda do helicóptero que levava o cantor Rick, da dupla Rick e Renner, em Urubici (SC) num dia de temporal. Na seca, 130 municípios de 14 estados tiveram decreto reconhecido pelo governo federal no período; neles vivem 1,61 milhão de pessoas, 23,6% menos que no mesmo período de 2025, quando 105 municípios somavam 2,11 milhões. No ano, 567,5 mil pessoas tiveram de deixar suas casas, 68,8% a mais que em 2025, embora o total de afetados, 20,4 milhões, seja 19,9% menor.

 

Publicações e Leituras Recentes

Jornalistas que queiram se aprofundar nos temas deste boletim encontram abaixo estudos sobre ondas de calor no Brasil, o papel do El Niño e o peso da mudança do clima nesses eventos. São leituras úteis para contextualizar pautas e separar o efeito do fenômeno da tendência de aquecimento.


Sobre este boletim
 

O Boletim do El Niño é uma publicação semanal do Instituto ClimaInfo que reúne indicadores oficiais para acompanhar os efeitos históricos do fenômeno no Brasil. A ciência afirma que a crise climática, provocada pela queima de combustíveis fósseis e pelo desmatamento, está amplificando os efeitos de fenômenos naturais como o El Niño, que atuam cada vez mais sobre um planeta em aquecimento.
 

 

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