Sensacionalismo: o Caso Orelha e o Tribunal Arbitrário da Internet em ação
Por Georges Humbert
Há algo de profundamente inquietante e perigosamente sedutor na forma como a internet passou a julgar pessoas. Não se trata mais de debate público, crítica legítima ou escrutínio democrático. Trata-se de um verdadeiro tribunal paralelo, sem regras, sem garantias e sobretudo sem responsabilidade. O Caso Orelha em Florianópolis exemplifica isso de modo cruel.
Nesse ambiente a verdade deixou de ser requisito. Basta uma narrativa bem construída, uma manchete impactante ou um vídeo editado com habilidade para que se forme em questão de minutos um consenso artificial. Esse consenso quase sempre vem acompanhado de um veredito: culpado. No Caso Orelha adolescentes foram apontados como responsáveis por um crime grave baseados em boatos virais, sofrendo linchamento virtual antes de qualquer prova.
O problema é que esse Tribunal Arbitrário da Internet não admite defesa. Não há contraditório, não há presunção de inocência, não há devido processo legal. Há sim uma lógica perversa de engajamento na qual quanto mais grave a acusação maior a repercussão e portanto maior o incentivo para sua disseminação. A defesa dos jovens revelou que a própria Promotoria reconheceu a inocência ao pedir o arquivamento por falta de evidências, mas o estrago já estava feito: famílias destruídas por notícias falsas.
Não importa se os fatos são incompletos, distorcidos ou simplesmente falsos. A velocidade da acusação é infinitamente superior à capacidade de verificação. Quando e se a verdade vem à tona o dano já está feito. Reputações destruídas não se reconstroem com a mesma facilidade com que foram arruinadas, como ocorreu com esses adolescentes e seus familiares expostos ao escárnio público.
Vivemos uma inversão preocupante: a opinião precede o fato e o julgamento antecede a prova. A multidão digital movida por indignação instantânea assume o papel de juiz e executor. Nesse processo o erro não é exceção, é regra.
É preciso reconhecer que a internet democratizou a informação mas também banalizou a responsabilidade. A liberdade de expressão valor essencial em qualquer sociedade livre não pode ser confundida com liberdade para acusar irresponsavelmente. Quando isso ocorre o que se tem não é liberdade, é abuso.
O mais grave contudo é a naturalização desse fenômeno. Passamos a aceitar como normal que pessoas sejam expostas julgadas e condenadas publicamente sem qualquer apuração séria. A cultura do cancelamento não busca justiça, busca satisfação imediata. É menos sobre corrigir erros e mais sobre punir exemplarmente ainda que o exemplo seja muitas vezes um inocente, como no Caso Orelha.
É urgente resgatar princípios básicos que sustentam qualquer ideia de justiça: prudência, responsabilidade e respeito aos fatos. A sociedade não pode abrir mão do devido processo em troca de cliques e compartilhamentos. O preço disso é alto demais e invariavelmente pago por quem sequer teve a chance de se defender.
Enquanto continuarmos a alimentar esse tribunal informal continuaremos também a produzir vítimas. O mais inquietante é que nesse sistema ninguém está verdadeiramente seguro. Hoje é o outro. Amanhã pode ser qualquer um de nós.
Porque no Tribunal Arbitrário da Internet a única certeza é a ausência de justiça.
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