O elo invisível entre a crise do mercado livre e a conta de luz
Rescisões contratuais, encargos crescentes e um passivo de projetos que não saíram do papel: como problemas nascidos no ambiente livre acabam pesando na fatura de quem nunca deixou o mercado cativo.
A pergunta que abre esta edição é também a que melhor resume o momento do setor elétrico brasileiro: como problemas nascidos no mercado livre de energia acabam desaguando na tarifa de quem nunca saiu do mercado cativo? A resposta exige seguir um fio que passa por rescisões contratuais, encargos crescentes e uma conta que, no fim, quase sempre sobra para o consumidor regulado.
O ponto de partida está nas pequenas distribuidoras. Quando comercializadoras em dificuldade rescindem unilateralmente contratos de fornecimento, essas distribuidoras ficam descobertas e precisam recorrer ao mercado de curto prazo — o ambiente mais volátil do sistema, onde o preço oscila ao sabor da hidrologia, do despacho e da liquidez. A crise não é hipótese: ao longo de 2026 o setor acompanhou pedidos de recuperação judicial de comercializadoras relevantes, em meio a um cenário de volatilidade, restrição de liquidez e encarecimento de garantias. O problema é que a fronteira entre o ambiente livre e o cativo é mais porosa do que se admite — e a inadimplência de um lado tende a se converter em custo regulado do outro.
Aqui cabe a crítica em duas direções. De um lado, há responsabilidade de agentes que assumiram posições contratuais sem lastro suficiente e migraram risco para terceiros. De outro, há a fragilidade de um desenho regulatório que permite que o desequilíbrio de um contrato privado se transforme em pressão tarifária para o consumidor que jamais participou daquela negociação.
Encargos em alta: a reserva de capacidade chega a R$ 5,9 bilhões
O segundo movimento dessa engrenagem são os encargos. A Aneel propôs revisar a previsão anual do Encargo de Potência para Reserva de Capacidade (ERCap) usada na cobertura tarifária das distribuidoras com reajustes previstos para o segundo quadrimestre de 2026, incorporando os custos dos empreendimentos contratados nos leilões de reserva de capacidade deste ano — custos que não estavam na projeção anterior. A nota técnica nº 99/2026 eleva a estimativa para cerca de R$ 5,9 bilhões. Reserva de capacidade é, por definição, um seguro de confiabilidade: paga-se por usinas disponíveis para os momentos de aperto. A questão legítima é se o tamanho e o ritmo dessa contratação estão calibrados — porque cada bilhão adicionado ao encargo é um bilhão que reaparece na fatura.
No mesmo capítulo entra a decisão da Comissão Permanente de Leilões, que deu provimento ao recurso da Ebrasil e recomendou reverter a inabilitação do consórcio com a Celne no leilão de março, restabelecendo a habilitação da térmica a gás Monte Fuji M1 (298,99 MW) e revogando o despacho nº 1.850/2026. É um movimento que recompõe a competição no certame, mas que também reforça quanto da segurança energética futura está sendo ancorada em capacidade térmica — com efeito direto sobre o encargo que o consumidor pagará.
A tarifa do consumidor final segue como o termômetro mais honesto do equilíbrio do setor.
O “Dia do Perdão” e o passivo da corrida do ouro
Se a reserva de capacidade mede o que falta, o “Dia do Perdão” mede o que sobrou de promessas não cumpridas. O mecanismo recebeu pedidos de revogação de mais de 11 GW de outorgas de projetos renováveis sem perspectiva de saírem do papel — resíduo da chamada “corrida do ouro” de 2022. O volume não surpreende: dados da Aneel apontam a revogação de cerca de 12,9 GW em autorizações para eólicas e solares só em 2025, marca recorde. O dado incômodo é que essa capacidade fantasma ocupou margem física no sistema de transmissão durante anos, travando conexões de projetos que de fato sairiam. Liberar esse espaço é saneador; mas o episódio é também um retrato de como subsídios mal calibrados produziram especulação em escala.
MME quer cobrar de quem pressiona o sistema
Olhando adiante, o Ministério de Minas e Energia sinaliza uma inflexão na lógica de preços. A secretária-substituta de Transição Energética e Planejamento, Lorena Perim, afirmou no Enase, no Rio, que a pasta estuda modernizar os sinais de preço da demanda, incluindo a possibilidade de cobrar reserva de capacidade dos consumidores de forma proporcional à carga e ao horário. A diretriz é tecnicamente defensável: quem pressiona o sistema nos horários críticos deveria pagar mais por isso. O risco a vigiar é a transição — desenhos de cobrança por demanda podem onerar pequenos consumidores e cativos se não vierem acompanhados de medição adequada e de uma calibragem que distribua o custo conforme a responsabilidade real de cada agente.
Aneel em semana decisiva e a estreia do Burger King na energia
A agenda regulatória fecha a edição. A Aneel remarcou para reunião extraordinária a votação da terceira fase da CP 45, que trata das regras de curtailment — os cortes de geração que vêm corroendo a receita de eólicas e solares e afastando investidores. Também está na pauta o edital do leilão de transmissão de outubro. E como pano de fundo, a projeção que dá concretude a esta reportagem: a conta de luz dos brasileiros deve subir, em média, 8,6% em 2026, segundo o boletim InfoTarifas da Aneel — acima das estimativas de inflação citadas no próprio levantamento.
Por fim, um sinal dos novos tempos do mercado livre: a Zamp, dona de Burger King, Popeyes, Starbucks e Subway no Brasil, passou a integrar a CCEE como comercializadora, com a Zamp Energy operacionalizada em 1º de junho. É a face virtuosa da abertura — grandes consumidores buscando autonomia e economia. A mesma abertura que, sem governança robusta, gera os desequilíbrios que abriram esta edição. O setor vive, ao mesmo tempo, sua maior expansão e seu maior teste de maturidade.