*Por Hugo Bethlem, Presidente do Capitalismo Consciente Brasil*
É possível avaliar o avanço da transição energética no Brasil olhando apenas para a superfície dos números? Um levantamento recente da consultoria CELA (Clean Energy Latin America) traz dados que, à primeira vista, justificam o otimismo: o financiamento para projetos de energia renovável no país cresceu 10,6% em relação ao ano anterior, movimentando expressivos R$ 36,3 bilhões.
Uma análise mais atenta, no entanto, revela que esse crescimento não é homogêneo e, mais importante, esconde um paradoxo. Enquanto o cidadão comum e os pequenos comércios impulsionaram a chamada Geração Distribuída (GD) — responsável por injetar R$ 14,7 bilhões desse total através de placas solares em telhados e fachadas —, o volume geral de investimentos no setor ainda se encontra 22% abaixo do pico histórico registrado em 2022, quando atingimos R$ 46,3 bilhões.
Por que recuamos onde deveríamos acelerar?
A resposta convencional do mercado financeiro aponta para fatores macroeconômicos e operacionais bem conhecidos: a manutenção de taxas de juros elevadas, que encarecem o custo do capital, e os gargalos técnicos na rede de transmissão, evidenciados pelo fenômeno do curtailment — os cortes compulsórios na geração de energia limpa impostos pelo operador do sistema para garantir a estabilidade da rede, muitas vezes sem a devida compensação financeira aos geradores.
Essas barreiras são reais e complexas. Mas, sob a ótica do Capitalismo Consciente, o diagnóstico puramente técnico é incompleto. O recuo nos grandes investimentos de infraestrutura energética não reflete apenas a alta dos juros; reflete, fundamentalmente, a escassez de uma visão de interdependência e de compromisso com o longo prazo por parte do nosso ecossistema financeiro e regulatório.
Quando pensamos de forma isolada, os gargalos de infraestrutura viram desculpa para travar as torneiras do crédito. Quando pensamos sob a lógica do valor compartilhado, esses mesmos gargalos passam a ser interpretados como oportunidades urgentes de co-criação. Se bancos, investidores institucionais e reguladores não dialogarem para mitigar os riscos de quem se dispõe a gerar energia limpa, o prejuízo não será apenas das empresas do setor, mas de toda a sociedade.
A transição energética não é uma agenda de caridade ou uma escolha estética de responsabilidade social; ela é a salvaguarda da competitividade econômica do Brasil e da sobrevivência dos próprios portfólios de investimento no futuro. O crescimento vigoroso da Geração Distribuída prova que o desejo do consumidor e o senso de responsabilidade capilarizada já existem. Falta, agora, que o grande capital assuma o papel de liderança consciente que o momento histórico exige.
Não podemos financiar o futuro utilizando a mentalidade imediatista do passado. Mitigar os efeitos do curtailment, destravar o mercado de capitais para grandes usinas eólicas e solares e criar mecanismos financeiros inovadores não são apenas decisões técnicas. São decisões estratégicas de sobrevivência.
O Brasil tem o privilégio de possuir uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, mas o passado não garante o amanhã. Chegar ao Net Zero e consolidar nossa liderança global na economia verde exige coragem financeira.
É hora de o setor de energia e o mercado financeiro pactuarem um compromisso autêntico de interdependência. Afinal de contas, o custo de hesitar na transição agora será infinitamente maior do que o preço de financiá-la com coragem e consciência hoje.
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