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A história de uma que poderia ser de muitos

Por Eduardo Martins

09/07/2026 19h20 Atualizada há 4 meses atrás
Por: Redação
O papel dos bioinsumos na jornada de Marion Kompier e o que está em jogo para o Brasil
O papel dos bioinsumos na jornada de Marion Kompier e o que está em jogo para o Brasil

 

 

Marion Kompier é uma agricultora como muitos no Cerrado. Veio do Sul, de uma família de origem holandesa, onde já representa a terceira geração. Seu pai, em busca de melhor região para grãos, escolheu Montividiu (GO) e batizou a fazenda de Brasilanda. Ela se dedica à produção de grãos e é referência na construção de uma agricultura sustentável no sudoeste goiano.

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Vinda de uma tradição de agricultura feita com capricho e cuidado, mas sempre com as contas em dia, Marion encontrou em 2018 no Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS) um espaço de inspiração para iniciar a transição regenerativa. A grande diferença na rede de agricultores do GAAS era a valorização do papel da biologia no sistema produtivo, algo que sua formação acadêmica convencional, baseada no uso intensivo de químicos, não lhe havia mostrado.

 

Das participações em eventos, das visitas a outros produtores e da troca intensa de experiências nos grupos de mensagem, Marion iniciou o processo. Primeiro, multiplicou na fazenda comunidades biológicas, usando áreas naturais próprias como fonte de inóculo e compostagem de leira enriquecida com esterco bovino da atividade leiteira. Depois, aprimorou as técnicas: compostagem de alta qualidade para extratos e chá de composto (Soil Food Web), compostagem líquida aeróbica (TMT), e, finalmente, a multiplicação própria de microrganismos específicos para reduzir o uso de inseticidas e fungicidas.

 

O laboratório de microbiologia que instalou passou a atestar a qualidade dos multiplicados. Marion também contribuiu para fundar a Muvi – iniciativa de produtores e pesquisadores para prospecção e produção de fungos regionais para a agricultura. A busca vem confirmando: os microrganismos locais, em geral, apresentam melhor desempenho que os disponíveis no mercado.

 

Em oito anos, Marion e sua família colheram resultados concretos: melhoria da qualidade do solo, redução da dependência de insumos químicos, menor exposição à variação do dólar, redução de custos, maior resiliência climática. A consolidação do que foi feito, e o futuro, dependem da biologia do agroecossistema. Dependem dos bioinsumos.

 

Mas a história de Marion só foi possível porque, em 2009, um decreto permitiu que a multiplicação própria de bioinsumos fosse ampliada dos agricultores orgânicos para todos os agricultores. Essa abertura permitiu a difusão dos biológicos, transformando o Brasil no campeão mundial de sua adoção.

 

A necessidade da Lei de Bioinsumos (15.070/2024) veio porque essa trajetória foi ameaçada. Iniciativas judiciais, campanhas de estímulo a denúncias, desqualificação da multiplicação própria — infelizmente, apoiadas por pesquisadores de instituições públicas — buscavam submeter os biológicos ao mesmo regime dos agrotóxicos. O lobby foi tão intenso que, na aprovação final da nova Lei dos Agrotóxicos no Senado, os bioinsumos foram incluídos como defensivos, impondo à multiplicação própria a obrigação de registro.

 

A separação foi consolidada na Lei dos Bioinsumos — fruto da união de produtores e da indústria nacional. Hoje, a lei é referência internacional, junto com a liderança brasileira na adoção dos biológicos.

 

O que falta agora é a regulamentação. O decreto e a normatização infralegal da Lei 15.070/2024 dependem do Executivo. O que Marion construiu em oito anos na Brasilanda, o Brasil precisa construir em escala, e para isso, a regulamentação precisa assegurar três coisas:

 

Primeiro: registro simplificado para os inóculos de uso próprio, com trâmite diferenciado do registro de produto comercializado. Marion não é indústria; é produtora que aplica o que multiplica em sua própria lavoura.

 

Segundo: que o acesso a inóculos registrados não seja barrado por burocracias que ignoram a segurança histórica dos biológicos — utilizados há décadas no Brasil e no mundo, sem os riscos dos químicos.

 

Terceiro: que a inovação seja orientada para o produtor, não apenas para os portfólios da grande indústria. O Brasil tem biodiversidade, pesquisadores competentes e agricultores capazes de conduzir multiplicações responsáveis.

 

A demora do governo na regulamentação não é um bom sinal. Não porque haja má-fé, mas porque sugere que a importância e o alcance do tema não estão claros. E eles precisam estar. Vejam, entre 2022 e 2025, o produtor rural enfrentou a chamada "crise da tesoura": enquanto o preço da soja caiu, o custo de implantação da lavoura subiu de forma expressiva; no Centro-Oeste, no período, foi de R$ 4.200,00 para R$ 6.000,00.

 

A pressão veio sobretudo do encarecimento dos insumos químicos, do diesel e de outros custos de produção, elevando a quantidade de soja necessária apenas para cobrir o desembolso da safra, que subiu de 33 para 48 sacas/ha.

 

Nesse cenário, a margem por hectare encolheu fortemente, e muitos produtores passaram a depender mais de crédito de custeio para manter a atividade. O resultado está sendo um sufoco generalizado: queda de rentabilidade, aumento da inadimplência e crescimento expressivo dos pedidos de recuperação judicial no setor agropecuário. Hoje existe uma conta de R$ 150 bilhões em valores atrasados ou renegociados.

 

Nesse cenário, cada real economizado em insumos é um real que não precisa ser financiado a juros altos. A possibilidade de redução dos custos via bioinsumos não é luxo para Marion — é sobrevivência. É a diferença entre rentabilidade e endividamento. A transição regenerativa é a diferença entre produzir ou não na próxima safra, quando o clima já é imprevisível e os custos dos insumos importados seguem pressionados pelo câmbio e pela taxa de juros.

 

Em bioinsumos, o Brasil tem uma vantagem competitiva enorme: biodiversidade, tradição em manejo biológico, produtores abertos à inovação. Não dependemos de patentes estrangeiras para os biológicos. Não precisamos importar o que nossa própria natureza oferece.

 

Marion e milhares de agricultores como ela já demonstraram que é possível. O que falta é a segurança jurídica para que essa possibilidade se torne escala.

 

A regulamentação da Lei dos Bioinsumos não é um favor aos produtores. É uma decisão estratégica para a soberania alimentar e a competitividade do agro brasileiro.

 

Marion continua na Brasilanda, cuidando do solo, multiplicando microrganismos, provando e ensinando que outro caminho é viável.

 

A pergunta é se o Brasil terá a coragem de tornar esse caminho acessível a muitos, ou se continuará endividando os que poderiam segui-lo.

 

(*) Eduardo Martins é biólogo (1979) e mestre em ecologia (1995) pela Universidade de Brasília (UnB) e agricultor de florestas plantadas, pecuária e produtor de cachaça orgânica na região norte de Minas Gerais. Foi presidente do IBAMA em duas ocasiões, além de ter atuado em entidades do terceiro setor e consultoria. Ex-presidente do Grupo Associado de Agricultura Sustentável - GAAS, atualmente diretor-executivo da associação.

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