Quinta, 05 de Novembro de 2026 18:58
(71) 98382-1916
26°

Parcialmente nublado

Salvador, BA

Dólar com.

R$ 5,5

Euro

R$ 6,17

Opnião Novo artigo

A “Bolsa Família Tributária”: O MEI poderia se encaixar nessa classificação?

João Eloi Olenike

11/07/2026 00h10
Por: Redação
A “Bolsa Família Tributária”: O MEI poderia se encaixar nessa classificação?

 

 

A discussão sobre o impacto dos programas sociais e dos regimes tributários especiais no comportamento econômico dos brasileiros tem ganhado relevância nos últimos anos. Dois fenômenos merecem destaque: a relutância de parte dos beneficiários do Bolsa Família em buscar emprego formal e a tendência de microempreendedores individuais (MEI) em não crescer acima do limite de faturamento do regime simplificado.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

 Ambos revelam um problema estrutural: a criação de “armadilhas de pobreza” tanto na assistência social quanto na tributação. O Bolsa Família, embora essencial para reduzir a pobreza extrema, gera um efeito conhecido como “poverty trap” (armadilha da pobreza). 

 

Continua após a publicidade
Anúncio

Muitas famílias de baixa renda evitam aumentar sua renda formal,  especialmente por meio de emprego com carteira assinada, para não perder o benefício. Estudos do Banco Mundial e do IPEA mostram que, próximo ao limite de elegibilidade, o ganho marginal de renda formal é parcialmente anulado pela perda do auxílio, desestimulando a formalização e o crescimento da renda.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

De forma análoga, o Microempreendedor Individual (MEI) — criado com o nobre objetivo de formalizar milhões de informais — acabou se transformando, na prática, em uma espécie de “Bolsa Família tributária”. O regime oferece tributação extremamente reduzida (em torno de 6% do faturamento), mas impõe um teto anual de R$ 81 mil (em 2026). 

 

Continua após a publicidade
Anúncio

Ao ultrapassar esse limite, o contribuinte cai no Simples Nacional ou no Lucro Presumido, com alíquotas e encargos muito mais elevados, incluindo a contribuição patronal de 20% sobre a folha.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

As consequências

 

Continua após a publicidade
Anúncio

Diante desse “degrau tributário”, é racional que muitos MEIs adotem estratégias para permanecer no regime: dividem faturamento com familiares, emitem menos notas fiscais ou simplesmente limitam o crescimento do negócio. Pesquisas do Sebrae e do IBPT revelam que uma parcela significativa dos MEIs declara faturamento próximo do teto, mas evita ultrapassá-lo. O resultado é a criação de um teto de vidro para milhões de pequenos empreendedores.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

Tanto o Bolsa Família quanto o MEI produzem, portanto, um efeito comportamental similar: desincentivam o aumento de renda ou de faturamento. No primeiro caso, o desestímulo é social-assistencial; no segundo, tributário-regulatório. Em ambos, o Estado cria uma racionalidade econômica que premia a estagnação em vez do progresso.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

Essa dinâmica tem consequências graves para o país. Ela contribui para a baixa produtividade, a informalidade persistente, a dificuldade de ascensão social e a redução da base de contribuintes que poderiam pagar mais impostos no futuro. Em última análise, programas bem-intencionados acabam gerando dependência e limitando o potencial de crescimento econômico.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

Para mitigar esses problemas, seria necessário reformular tanto o Bolsa Família quanto o MEI. No caso do programa social, é fundamental criar mecanismos de transição suaves, com redução gradual do benefício conforme a renda familiar aumenta. No MEI, seria recomendável elevar o limite de faturamento (para algo entre R$ 150 mil e R$ 200 mil) e criar faixas intermediárias de tributação, evitando o salto abrupto de carga tributária.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

Sem essas correções, o Brasil continuará reproduzindo um modelo que, embora reduza a pobreza imediata, dificulta a criação de riqueza e a mobilidade social de longo prazo. A discussão sobre “armadilhas de pobreza”,  tanto sociais quanto tributárias, precisa deixar de ser tabu e tornar-se central na agenda de desenvolvimento do país.

 

Continua após a publicidade
Anúncio

João Eloi Olenike – Presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT)

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários