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Transição Energética Análise em Pauta

Empresa baiana lidera transição em combustível sustentável

Acelen Renováveis assina o maior contrato de óleo de soja da história da Bunge na América do Sul e consolida a Bahia como polo do combustível do futuro

15/07/2026 18h23
Por: Redação
Empresa baiana lidera transição em combustível sustentável

 

 

Há anúncios que são notícia e há anúncios que são marco. O firmado na sexta-feira (10/7) entre a Acelen Renováveis, empresa de energia do Mubadala Capital, e a Bunge pertence à segunda categoria. São 300 mil toneladas de óleo de soja certificado por ano, 1,5 milhão de toneladas ao longo de cinco anos, com fornecimento iniciando em 2029 — exatamente quando a biorrefinaria da companhia entra em operação na Bahia para produzir combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável (HVO). É o maior contrato de fornecimento de óleo de soja já firmado pela Bunge no continente sul-americano.

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O superlativo não é retórica de assessoria. É a tradução comercial de um projeto que já superou a fase em que a maioria das promessas de transição energética morre: a do papel.

 

Um projeto que saiu do PowerPoint

 

O mercado brasileiro está saturado de anúncios de biocombustíveis que nunca chegam à ordem de compra. A Acelen Renováveis fez o caminho inverso. Em maio deste ano, o projeto recebeu decisão final de investimento (FID) — o momento em que um empreendimento deixa de ser intenção e vira obrigação contratual — acompanhada do anúncio de US$ 1,5 bilhão em financiamento, estruturado por consórcio global liderado por HSBC e IFC. O investimento total supera US$ 3 bilhões.

 

A escolha do sítio diz muito sobre a seriedade da engenharia: a biorrefinaria será construída em área industrial já existente em São Francisco do Conde, no Recôncavo. Não se trata de abrir fronteira, converter área nova ou disputar solo virgem. Trata-se de reindustrializar um território que já é industrial, com expectativa de gerar cerca de 3,6 mil empregos diretos e indiretos no pico das obras. Ao lado, a fila de parceiros de primeira linha — Honeywell UOP, Alfa Laval, Construcap, Moeve, Trafigura, BGN — funciona como atestado técnico independente.

 

A tecnologia é HEFA (Ésteres e Ácidos Graxos Hidroprocessados), rota consolidada e certificada internacionalmente, com capacidade planejada de até 1 bilhão de litros anuais de SAF e HVO. Registre-se, para precisão: a Acelen Renováveis é independente da Acelen Refinaria de Mataripe.

 

A engenharia de suprimento é a parte inteligente

 

O contrato com a Bunge representa aproximadamente 30% da matéria-prima necessária para iniciar a produção, informou à Reuters o vice-presidente Comercial e de Trading da Acelen Renováveis, Cristiano da Costa. A demanda total é da ordem de um milhão de toneladas por ano — e é aqui que a estratégia se revela.

 

Em vez de apostar tudo em um único insumo, a companhia montou uma cesta. Ao óleo de soja da Bunge soma-se o acordo firmado no fim de junho com a Trafigura, de aproximadamente 470 mil toneladas métricas por ano de óleo de cozinha usado (UCO) — resíduo que, sem projeto como este, seguiria entupindo rede de esgoto e contaminando corpo hídrico. “Nós (já) temos três fornecedores de matérias-primas, mas a Bunge é a única fornecedora de óleo de soja”, afirmou Costa. E, mais revelador: “Eu tenho 10% que a gente deixou propositalmente aberto para buscar desenvolver uma cultura alternativa.”

 

Deixar dez por cento em aberto de propósito não é lacuna. É gestão de risco de quem entende que uma planta de bilhão de litros não pode ficar refém de um único mercado.

 

A macaúba: paciência de quem planta certo

 

O horizonte declarado do projeto é a macaúba, palmeira nativa brasileira de alto potencial para biocombustíveis avançados, cuja cadeia a própria Acelen está desenvolvendo. A incorporação começa gradualmente a partir de 2032, respeitando o ciclo de maturação da palmeira.

 

Poderia ser lida como fragilidade. É o oposto. Significa que a companhia não subordinou o cronograma agronômico ao cronograma de marketing — não vai forçar uma cultura a produzir antes do tempo para cumprir promessa de release. Soja e UCO sustentam a planta na largada; a macaúba entra quando a lavoura estiver pronta. “Não existe uma solução única… (as matérias-primas) são complementares”, resumiu Costa. É exatamente essa a definição técnica de uma matriz resiliente.

 

Rastreabilidade não como ônus, mas como ativo

 

O óleo fornecido pela Bunge poderá ser originado no Brasil e na Argentina e contará com certificações da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) e do Conselho de Recursos do Ar da Califórnia (CARB), garantindo rastreabilidade e conformidade com padrões internacionais de sustentabilidade.

 

Vale sublinhar o que isso significa. As duas réguas mais severas do planeta em matéria de balanço de carbono e uso do solo foram voluntariamente adotadas como condição do contrato. A Acelen Renováveis não está pedindo confiança: está se submetendo, por antecipação, à auditoria de quem historicamente desconfia do agronegócio brasileiro. Não há gesto mais eloquente de compromisso ambiental do que aceitar ser fiscalizado pelo cético.

 

O que a Bahia deve extrair disto

 

Aqui está a lição que este programa sustenta há anos, agora em forma de aço, tubulação e contrato assinado. Sustentabilidade real não se faz com discurso de renúncia. Faz-se com investimento, engenharia, cadeia produtiva e emprego — convertendo potencial agrícola brasileiro e ativo industrial instalado em valor com destino certo: a aviação global, que precisará de SAF na escala de bilhões de litros e não tem alternativa.

 

O primeiro projeto de produção de SAF e HVO em larga escala da América do Sul está sendo erguido no Recôncavo baiano. Não em Roterdã, não em Cingapura, não em Houston. Está aqui — e chegou aqui porque houve quem tratasse desenvolvimento e meio ambiente como o que sempre foram: a mesma agenda.

 

O que resta é a parte que não depende da Acelen. Depende de licenciamento com prazo, de regra estável, de segurança jurídica e de um Estado que compreenda que atrasar um projeto desses não protege coisa alguma — apenas transfere a fábrica, o emprego e a redução de emissão para outro país. A companhia fez a sua parte com rigor exemplar. Que o poder público faça a dele.

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