O Brasil gera cerca de 80 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano — volume historicamente tratado como problema sanitário, ambiental e financeiro, algo a ser removido das cidades. Um movimento crescente no mercado propõe inverter essa lógica: enxergar o resíduo como uma classe de ativo ainda subprecificada, capaz de gerar energia, combustível renovável, materiais recicláveis e atributos ambientais negociáveis.
O argumento central é o de que o valor não está no resíduo bruto, e sim no sistema de transformação. Assim como o petróleo no subsolo não gera riqueza sem refinarias e dutos, o lixo não vira energia ou crédito de carbono sem uma infraestrutura complexa — os chamados ecoparques —, que exige décadas de desenvolvimento, licenciamento ambiental, engenharia e escala operacional. É justamente essa barreira de entrada que, segundo os proponentes da tese, torna a infraestrutura da economia circular escassa e estratégica.
O contexto regulatório que muda o jogo
A tese ganha força em decisões concretas. Na União Europeia, o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM) passa a exigir que exportadores comprovem — e progressivamente paguem — o custo do carbono embutido em produtos como aço, alumínio, cimento e fertilizantes, transformando atributos ambientais em fator de competitividade comercial.
No Brasil, a Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), sancionada em outubro de 2024, criou o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB), regulamentado pelo Decreto nº 12.614/2025 e por resoluções da ANP aprovadas em fevereiro de 2026. O certificado atesta a origem renovável do biometano com rastreabilidade registrada e livre negociação. Na prática, uma molécula originada de resíduos passa a carregar não apenas valor energético, mas valor regulatório — receita rastreável, negociável e regulada.
Entre o potencial e a realidade da coleta
A leitura otimista, no entanto, esbarra numa etapa que o país ainda não resolveu: a destinação adequada dos resíduos. Parte relevante do volume nacional segue em lixões ou aterros sem captura de gás, e a universalização prevista no marco do saneamento e na Política Nacional de Resíduos Sólidos avança de forma desigual entre os municípios. Sem coleta qualificada e sem infraestrutura de tratamento na ponta, o ativo permanece potencial — não realizado.
Os números mais citados para sustentar a tese, é importante registrar, partem de agente diretamente interessado no setor. Uma das maiores plataformas brasileiras — a Orizon, cuja diretora de Economia Circular assina o artigo que deu origem a este debate — informa ter processado, em 2025, quase 9 milhões de toneladas de resíduos, gerado cerca de 500 mil MWh de energia renovável, capturado mais de 59 mil Nm³/h de biogás e evitado mais de 3 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. São dados de empresa, que ilustram a escala possível do modelo, mas não substituem uma fotografia do setor como um todo.
Por que importa
Ainda assim, a direção do debate é consistente com a agenda de descarbonização. Enquanto o país discute hidrogênio verde e combustível sustentável de aviação, a infraestrutura de tratamento de resíduos — capaz de capturar metano, produzir biometano e comercializar créditos ambientais — aparece como uma das mais estratégicas e menos compreendidas da nova economia verde. O diferencial brasileiro é concreto: matriz energética limpa, grande disponibilidade de resíduos orgânicos e potencial expressivo de biogás e biometano.
O ponto de convergência é que resíduo deixou de ser exclusivamente pauta ambiental. É também política industrial, segurança energética e competitividade — desde que o país resolva o elo mais frágil da cadeia, que é levar o lixo, de forma adequada, até onde ele pode virar valor.
Fontes: Exame/ESG, artigo de Marília Garcez, diretora de Economia Circular, Comunicação e Sustentabilidade da Orizon (18/07/2026); Lei nº 14.993/2024; Decreto nº 12.614/2025; Resoluções ANP de 27/02/2026; Regulamento CBAM (União Europeia); Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010).
Construção verde Construção em madeira engenheirada é uma das alternativas para enfrentar o déficit habitacional de 5,9 milhões de moradias no país
Em Pauta O Programa Mobilidade Verde e Inovação (Mover) está com uma nova chamada aberta
Em Pauta Por que preservar a Amazônia não é apenas uma pauta ambiental — é prioridade econômica global
Em Pauta Indústria plástica adota novas soluções para reduzir pegada de carbono nas embalagens flexíveis
Sustentável CNI reforça necessidade da regulamentação do Marco Legal dos Bioinsumos
Economia Projeto mapeia caminhos para economia verde no Nordeste