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ESG Estado da violência

Bahia concentra metade das dez cidades mais violentas do Brasil

Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta Eunápolis, Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro no topo do ranking nacional. A queda de 9,6% nas mortes violentas não retira do estado a 2ª maior taxa do país — e expõe o custo da insegurança sobre turismo, indústria e logística

24/07/2026 01h35
Por: Redação
Bahia concentra metade das dez cidades mais violentas do Brasil

 

O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23 de julho pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) com dados de 2025, mostra que a Bahia registrou 5.473 Mortes Violentas Intencionais (MVI), com taxa de 36,8 vítimas por 100 mil habitantes. O número representa redução de 9,6% em relação a 2024, mas o estado permaneceu com a segunda maior taxa do país, atrás apenas do Amapá, e concentrou cinco dos dez municípios brasileiros com os maiores índices de violência letal: Eunápolis, Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro.

O ranking

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A liderança nacional permanece com Maranguape, no Ceará, com 100,3 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes — alta em relação às 80 por 100 mil registradas em 2024. Três cidades da Bahia estão entre as cinco primeiras: Eunápolis, em segundo lugar (85,1), Porto Seguro, em quarto (71,2), e Simões Filho, em quinto (68,1). Jequié aparece em sexto (67,4) e Juazeiro em décimo (55,8).

Todas as dez cidades da lista estão no Nordeste, e o levantamento considerou apenas municípios com população igual ou superior a 100 mil habitantes.

O dado nacional caminha em sentido oposto ao baiano. O Brasil registrou 40.775 mortes violentas em 2025, queda de 8,2% sobre o ano anterior e de 30,1% em relação a 2012 — a menor taxa já registrada pelo anuário, de 19,1 por 100 mil habitantes. Na outra ponta do ranking estadual, Santa Catarina assumiu o posto de estado menos violento, com 7,6 mortes por 100 mil habitantes, superando São Paulo, que registrou 7,8. O Ceará ocupa a terceira colocação nacional, com taxa de 34,7.

A distância é o ponto central: a taxa baiana é praticamente o dobro da média nacional e quase cinco vezes a catarinense.

Corredores logísticos, turismo e indústria

O recorte geográfico dos municípios listados não é aleatório. Segundo o levantamento, muitas das cidades do ranking estão localizadas próximas a rodovias federais, portos, aeroportos e outros corredores usados para o transporte de cargas. Eunápolis, que não figurava entre os 20 mais violentos no levantamento anterior, passou a integrar o topo da lista em meio à disputa pelo controle de rotas no extremo sul do estado; cortada pelas BR-101 e BR-367, funciona como ponto de circulação entre diferentes regiões da Bahia.

Eunápolis e Porto Seguro formam o eixo de acesso à Costa do Descobrimento, um dos principais destinos turísticos do país e território de sítios reconhecidos pela UNESCO. Simões Filho integra a Região Metropolitana de Salvador e o entorno do Polo Industrial e do Porto de Aratu. Juazeiro é polo do agronegócio irrigado do Vale do São Francisco. Jequié é entroncamento rodoviário do sudoeste baiano.

São, portanto, exatamente os territórios que sustentam a cadeia produtiva e a atratividade de investimentos do estado.

Perfil das vítimas

O perfil das vítimas permaneceu marcado por desigualdades demográficas e raciais: em 2025, 90,8% eram homens, 41,6% tinham entre 18 e 29 anos e 79,7% eram negras.

Na Bahia, o anuário registra ainda elevada letalidade policial, responsável por 1.570 vítimas e por quase 29% das mortes violentas intencionais do estado. A categoria MVI, adotada pelo FBSP, soma homicídios dolosos, latrocínios, feminicídios, lesões corporais seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais.

Ponto e contraponto

A leitura oficial. A redução de 9,6% nas mortes violentas intencionais na Bahia em um único ano é expressiva e acompanha tendência nacional consistente. No Ceará, estado que lidera o ranking municipal, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social informou redução de 40% nos homicídios no primeiro semestre de 2026 em relação ao mesmo período do ano anterior — indicando que os dados de 2025 podem já não refletir o quadro corrente.

A crítica estrutural. A permanência da Bahia na segunda posição nacional por sucessivos anos, e a entrada abrupta de Eunápolis no segundo lugar do ranking municipal, sugerem que a redução agregada convive com concentração crescente da letalidade em territórios específicos — justamente os de maior densidade logística e econômica. Queda de média não significa queda de risco onde ele mais custa.

A dimensão ESG que raramente entra na conta

Violência letal é, no vocabulário ESG, o “S” mais caro que existe. O ODS 16 da Agenda 2030 — paz, justiça e instituições eficazes — é condição de possibilidade dos demais: não há cidade sustentável (ODS 11) onde o Estado não assegura o direito à vida, nem investimento privado que se consolide onde o risco operacional é imprecificável.

O debate ambiental brasileiro segue majoritariamente pautado pela agenda florestal, enquanto o passivo urbano — saneamento, resíduos, moradia em área de risco, mobilidade e, agora explicitamente, segurança — permanece marginal na formulação de política pública. Os números do anuário são lembrete de que o problema socioambiental brasileiro mais urgente tem CEP, e ele é urbano.

Para a Bahia, o dado impõe agenda concreta: integração entre política de segurança, planejamento urbano e ordenamento territorial nas cidades de corredor logístico; regularização fundiária e urbanização de assentamentos precários como política de prevenção; e tratamento da segurança pública como variável de competitividade econômica, não apenas como pasta policial.

 

Fontes: Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026 (20ª edição), Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 23/07/2026 — dados referentes a 2025; g1; Poder360; Jornal Grande Bahia; Diário de Pernambuco; Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará.

 

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