A relação entre Brasil e Estados Unidos registrou mais um capítulo de desgaste nesta terça-feira (4). O governo norte-americano revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, em resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément — a aprovação diplomática necessária para a nomeação do novo embaixador indicado pelos Estados Unidos para Brasília.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, a medida foi confirmada pelo Departamento de Estado, que informou que o visto poderá ser restabelecido caso a situação diplomática seja solucionada.
Apesar da repercussão política, é importante destacar que a revogação do visto não equivale à expulsão da embaixadora. Maria Luiza Ribeiro Viotti não foi declarada persona non grata, mecanismo previsto na Convenção de Viena para determinar a retirada compulsória de um representante diplomático. Na prática, ela permanece exercendo suas funções e pode continuar nos Estados Unidos enquanto a controvérsia diplomática estiver em curso.
O impasse do agrément
A origem da crise remonta ao anúncio, em 1º de junho, do deputado estadual da Flórida Daniel Perez como indicado pelo presidente Donald Trump para chefiar a embaixada norte-americana em Brasília. Perez é aliado político do secretário de Estado, Marco Rubio.
Segundo a Reuters, o governo americano anunciou a indicação antes mesmo de receber a manifestação formal do governo brasileiro sobre o agrément. O Itamaraty, por sua vez, optou por não estabelecer prazo para a análise do pedido.
Uma fonte diplomática brasileira afirmou à agência que “não estamos dizendo que não vamos conceder o agrément, mas não existe prazo para isso, e a própria Convenção de Viena não determina um limite temporal”.
Novos atritos diplomáticos
A tensão aumentou nos últimos dias após o Brasil negar vistos a dois integrantes do governo norte-americano que pretendiam viajar ao país para questionar a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
O episódio ocorre em um contexto de crescente deterioração das relações bilaterais. Além das divergências diplomáticas, os dois países enfrentam disputas comerciais após a imposição de tarifas de 25% e de uma sobretaxa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos.
No plano político, o ambiente também é marcado pela aproximação das eleições presidenciais brasileiras de outubro, cenário que tem ampliado a sensibilidade das relações entre Brasília e Washington.
Diferença entre revogação de visto e expulsão diplomática
Especialistas em direito internacional ressaltam que a revogação de um visto possui natureza administrativa e não representa, por si só, uma ruptura das relações diplomáticas.
A medida difere da declaração de persona non grata, prevista na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas, que obriga o Estado acreditante a retirar o diplomata de suas funções.
Nas últimas semanas, analistas em Washington chegaram a cogitar que os Estados Unidos poderiam adotar uma medida mais severa contra a representação diplomática brasileira. Até o momento, contudo, a resposta oficial limitou-se à revogação do visto da embaixadora, preservando seu status diplomático e mantendo abertos os canais institucionais para uma solução negociada do impasse.