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Boletim Sustentabilidade em Pauta Energia

BOLETIM DE ENERGIA

Os principais movimentos do setor de energia nos últimos 30 dias

08/09/2026 10h41
Por: Redação

 

O setor brasileiro de energia atravessou as últimas semanas marcado por uma combinação de fatores que merece atenção: crescimento da demanda por eletricidade, restrições à geração renovável, preocupação com os efeitos do El Niño sobre o sistema elétrico, avanço das discussões sobre armazenamento de energia, fortalecimento do gás natural como fonte de segurança energética e manutenção da relevância do petróleo e gás para a economia brasileira.

O período também mostrou uma contradição importante da transição energética brasileira: enquanto solar e eólica continuam ampliando sua participação na matriz, o sistema ainda enfrenta dificuldades para aproveitar integralmente essa geração, especialmente em razão das limitações de transmissão, excesso de oferta em determinados horários e necessidade de maior capacidade de armazenamento.

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1. ONS alerta para risco de acionamento das termelétricas

O principal alerta do período veio do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), que avalia a possibilidade de acionamento de praticamente toda a geração termelétrica brasileira diante da combinação entre crescimento da demanda, condições hidrológicas menos favoráveis e os possíveis efeitos do chamado Super El Niño.

O cenário é especialmente relevante para o Sudeste/Centro-Oeste e para o Norte. Para a primeira semana de setembro, a carga do Sistema Interligado Nacional apresenta crescimento projetado de 6,5%, enquanto o Nordeste pode registrar expansão de 9,3%.

O ONS trabalha ainda com diferenças importantes entre os subsistemas. No início de setembro, o armazenamento no Sudeste/Centro-Oeste estava projetado em aproximadamente 55,7%, enquanto o Sul apresentava situação muito mais confortável, próxima de 94,3%.

A possibilidade de maior despacho térmico demonstra que a segurança energética continuará sendo um dos grandes temas da agenda brasileira.

2. Bandeira amarela permanece e consumidor paga mais

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) manteve, em setembro, a bandeira tarifária amarela.

Na prática, o consumidor paga adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, refletindo condições menos favoráveis para a geração de energia.

A bandeira amarela já vinha sendo utilizada nos meses anteriores e está associada ao período seco e à necessidade de complementar a geração hidrelétrica com fontes de maior custo, especialmente termelétricas.

O sinal econômico é importante: a matriz brasileira permanece majoritariamente renovável, mas a disponibilidade da geração hidráulica continua determinante para o custo marginal de operação.

3. O paradoxo das renováveis: cresce a geração, mas também cresce o corte

Um dos dados mais relevantes do mês foi o avanço do chamado curtailment, ou corte/restrição da geração de usinas eólicas e solares.

Estimativas consolidadas sobre agosto apontam que os cortes atingiram aproximadamente 26,6% da geração de referência eólica e 32,8% da geração solar, os maiores níveis observados em 2026 até então.

No caso da geração eólica, foram cortados cerca de 5.381,9 MW médios. Na solar, aproximadamente 2.128,4 MW médios.

A Bahia apareceu entre os estados com maior restrição da geração solar, com aproximadamente 42,3% da geração de referência restringida em agosto.

O fenômeno evidencia um dos principais desafios da expansão renovável brasileira: não basta instalar novas usinas; é necessário construir transmissão, armazenamento e mecanismos de flexibilidade capazes de absorver a energia produzida nos horários de maior oferta.

4. ONS volta a restringir geração por excesso de oferta

O problema não se limita ao curtailment estrutural.

Em 23 de agosto, o ONS acionou pela segunda vez no ano um plano emergencial para reduzir a geração de determinadas usinas diante da expectativa de excesso de oferta no Sistema Interligado Nacional.

A medida alcançou empreendimentos conectados às redes de distribuição, incluindo pequenas centrais hidrelétricas, biomassa e unidades eólicas e solares de menor porte.

O episódio mostra uma situação aparentemente paradoxal: o Brasil pode simultaneamente enfrentar preocupação com segurança energética e, em determinados horários, ter energia renovável em excesso que não consegue ser plenamente aproveitada.

5. Consumo de eletricidade continua crescendo

A demanda também merece destaque.

Dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) mostram que o consumo nacional de eletricidade alcançou 46.841 GWh em julho de 2026, crescimento de 3,7% em relação a julho de 2025.

Foi o quarto aumento consecutivo do consumo mensal nacional.

Já os dados preliminares da CCEE para a primeira quinzena de agosto indicaram crescimento de 7% no consumo do SIN na comparação anual. O Ambiente de Contratação Regulada avançou 10,1%, enquanto o Ambiente de Contratação Livre cresceu 3,1%.

Na geração, a fotovoltaica apresentou crescimento estimado de 34,3%, a hidráulica de 14% e a eólica de 1,5%, enquanto a geração térmica recuou 21,6% no período analisado.

6. Armazenamento entra definitivamente na agenda

O aumento dos cortes de energia renovável reforça a importância dos sistemas de armazenamento.

O Brasil se prepara para seus primeiros grandes leilões voltados à contratação de potência a partir de sistemas de armazenamento em baterias. O tema passou a ocupar posição central no planejamento do setor elétrico.

A discussão é estratégica porque baterias podem armazenar parte da energia produzida em momentos de excesso de oferta e disponibilizá-la posteriormente, reduzindo desperdícios e contribuindo para a estabilidade do sistema.

O cadastramento para os futuros leilões registrou números expressivos de projetos, demonstrando o interesse empresarial pela nova fronteira tecnológica do setor.

Ao mesmo tempo, estudos recentes sobre o sistema brasileiro apontam que tecnologias de armazenamento de maior duração, inclusive armazenamento hidrelétrico reversível, podem reduzir a necessidade futura de geração térmica e diminuir o desperdício de energia renovável.

7. Gás natural ganha espaço na discussão sobre segurança energética

O gás natural voltou a ocupar posição de destaque no debate energético brasileiro.

A EPE publicou, em 28 de agosto, estudo com projeções nacionais para os preços do gás natural até 2036, considerando preços de molécula, comercialização, tarifas de transporte e demais componentes da cadeia.

O movimento demonstra que a discussão sobre gás não está restrita à geração termelétrica. O combustível é cada vez mais analisado como elemento de integração entre indústria, geração elétrica, transporte e transição energética.

O debate ganhou ainda dimensão política com a aprovação, pelo Senado, do regime especial para data centers, cuja redação passou a admitir fontes classificadas como de "baixa emissão", incluindo gás natural, além de hidrelétricas e nuclear.

A alteração gerou controvérsia porque amplia o conceito de energia elegível para empreendimentos de infraestrutura digital.

8. Petróleo continua estratégico

Apesar do avanço das renováveis, o petróleo permanece fundamental para a segurança energética e para a economia brasileira.

A pressão internacional sobre os preços do petróleo voltou a repercutir no mercado nacional. No início de setembro, o Brent chegou a aproximadamente US$ 92,68 por barril, em alta de 7,6%.

Mesmo diante da valorização internacional, os preços médios internos apresentaram comportamento relativamente contido: a gasolina caiu 0,3%, para cerca de R$ 6,53 por litro, enquanto o diesel S-10 ficou próximo de R$ 6,88.

O cenário foi influenciado também por mecanismos governamentais de amortecimento dos preços dos combustíveis.

A conjuntura reforça a importância de o Brasil manter capacidade de produção e refino, ao mesmo tempo em que avança na diversificação de sua matriz.

9. Produção de petróleo e gás mantém trajetória robusta

A indústria brasileira de óleo e gás continua apresentando elevada capacidade produtiva.

Os dados oficiais mais recentes da ANP disponíveis no período mostram que o Brasil alcançou, em junho, produção de aproximadamente 5,842 milhões de barris de óleo equivalente por dia de petróleo e gás natural.

A produção de petróleo atingiu cerca de 4,475 milhões de barris por dia, crescimento de 4% em relação ao mês anterior e de 19,1% na comparação anual.

O desempenho reforça a posição do Brasil como grande produtor mundial e amplia sua capacidade de gerar receitas, investimentos e divisas durante a transição para uma economia de baixo carbono.

10. Ibama incorpora risco climático ao licenciamento energético

Outro movimento importante veio da área ambiental.

O Ibama prepara orientações para incorporar os riscos associados ao El Niño e às mudanças climáticas ao licenciamento de empreendimentos como hidrelétricas, portos e linhas de transmissão.

Entre as recomendações estão avaliação de eventos climáticos extremos, reforço estrutural, proteção contra descargas elétricas e calor extremo, melhoria da drenagem e fortalecimento da gestão das bacias hidrográficas.

A iniciativa sinaliza uma tendência que deve ganhar força: o licenciamento ambiental de grandes projetos de infraestrutura energética deverá considerar cada vez mais os riscos climáticos futuros, e não apenas as condições ambientais existentes no momento da implantação.

11. A matriz brasileira continua entre as mais renováveis do mundo

O avanço recente das fontes renováveis ocorre sobre uma estrutura que já apresenta elevada participação de energia limpa.

Segundo o Balanço Energético Nacional 2026, as fontes renováveis representaram 86,8% da matriz elétrica brasileira em 2025.

Solar e eólica, juntas, responderam por 26,4% da geração de eletricidade no país. A geração solar chegou a 88,1 TWh e a eólica a 116,5 TWh.

Ao mesmo tempo, a geração termelétrica cresceu 12,3% em 2025, e o consumo de gás natural destinado à geração de eletricidade aumentou 22,7%.

O retrato é claro: o Brasil não está substituindo simplesmente uma fonte por outra. Está construindo uma matriz cada vez mais diversificada, na qual hidráulica, solar, eólica, biomassa, gás natural, nuclear e petróleo desempenham papéis diferentes.

12. O que esperar para os próximos meses

Os acontecimentos das últimas semanas permitem identificar pelo menos cinco grandes tendências.

1. Armazenamento será uma das principais agendas do setor elétrico.
O crescimento das fontes intermitentes exige baterias, hidrelétricas reversíveis e outras soluções capazes de deslocar energia no tempo.

2. Transmissão continuará sendo gargalo estratégico.
A expansão da geração renovável, especialmente no Nordeste, precisa ser acompanhada por investimentos em linhas e subestações.

3. O gás natural tende a ganhar relevância como fonte de flexibilidade.
Quanto maior a participação de solar e eólica, maior a necessidade de fontes capazes de responder rapidamente às oscilações de geração.

4. O risco climático passará a influenciar mais diretamente o planejamento energético.
El Niño, secas, chuvas extremas e ondas de calor já não podem ser tratados como eventos excepcionais na elaboração de projetos de infraestrutura.

5. O petróleo continuará relevante durante a transição.
A expansão das renováveis não elimina, no curto e médio prazo, a importância econômica e energética do petróleo e do gás natural.

Análises

O setor energético brasileiro entra no segundo semestre de 2026 diante de uma equação cada vez mais complexa.

De um lado, o país possui uma das matrizes elétricas mais renováveis do planeta, com forte expansão de solar e eólica. De outro, cresce a necessidade de transmissão, armazenamento e fontes de potência capazes de garantir segurança ao sistema.

O grande desafio deixou de ser simplesmente produzir mais energia limpa. O desafio passou a ser integrar essa energia ao sistema, evitar desperdícios, garantir confiabilidade e manter preços competitivos.

Nesse contexto, a transição energética brasileira deverá combinar renováveis, armazenamento, transmissão, hidrelétricas, gás natural, biocombustíveis e, enquanto durar a transição, petróleo e derivados.

Mais do que uma substituição tecnológica, trata-se de uma transformação estrutural do sistema energético brasileiro.

Sustentabilidade em Pauta continuará acompanhando os movimentos regulatórios, econômicos, ambientais e empresariais que estão redesenhando o mercado de energia no Brasil.

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