Há perguntas que parecem exigir uma resposta de apenas “sim” ou “não”. Esta é uma delas: O Super El Niño de 2026 é culpa do homem? Minha resposta é: não. Mas seria igualmente errado dizer que a ação humana não tem nada a ver com o tamanho do problema que estamos prestes a enfrentar. E talvez seja justamente essa distinção que esteja faltando no debate climático.
O El Niño é um fenômeno natural. Ele existe há muito mais tempo do que a Revolução Industrial, antes dos automóveis, das plataformas de petróleo, das termelétricas e das atuais emissões de gases de efeito estufa. Ele nasce de alterações naturais na circulação atmosférica e no comportamento das águas do Pacífico equatorial. O fenômeno ocorre, em geral, a cada dois a sete anos e pode provocar mudanças significativas nos regimes de chuva e temperatura em várias partes do planeta. Portanto, não foi o homem que inventou o El Niño.
O problema é outro. O homem pode ter criado condições para que seus efeitos encontrem um planeta mais quente, mais vulnerável e menos preparado.
A Organização Meteorológica Mundial fez um alerta extraordinário neste mês: o El Niño de 2026 pode se tornar o mais forte já registrado, permanecendo até fevereiro de 2027. Segundo a organização, o episódio já está entre os quatro mais intensos desde o início dos registros modernos, em 1950. (Reuters) É uma informação que não pode ser tratada como mera curiosidade meteorológica. Porque o El Niño não fica no Pacífico. Ele mexe com o regime de chuvas, temperaturas, agricultura, disponibilidade de água, geração de energia, incêndios florestais e preços de alimentos. E o Brasil está no meio dessa equação.
O primeiro setor a sentir a pressão é justamente aquele que sustenta uma parcela fundamental da economia brasileira: o agronegócio. Uma combinação de calor extremo, chuva irregular, seca em determinadas regiões e excesso de precipitação em outras pode afetar produtividade, calendário agrícola, qualidade das culturas e logística. A Fundação Getulio Vargas já alertava, em junho, para riscos importantes à produção agrícola brasileira nas safras 2026/2027 diante de um El Niño forte. (Portal FGV) E os efeitos já começam a aparecer nos preços internacionais. A FAO informou que o índice mundial de preços dos alimentos subiu 2,2% em agosto e atingiu o maior nível desde o final de 2022. O clima extremo está entre os fatores que pressionam commodities agrícolas. (Reuters)
No Brasil, o problema ganha uma dimensão adicional. Somos simultaneamente potência agrícola, grande produtor de energia hidrelétrica e um dos países mais dependentes das condições climáticas para a organização de seu território econômico. Quando o clima muda, o preço muda. Quando a chuva muda, a energia muda. Quando a safra muda, a inflação muda. É a velha economia real mostrando que sustentabilidade não é apenas uma discussão ambiental. É também uma questão econômica.
E a energia? Outro ponto que merece muito mais atenção. O Operador Nacional do Sistema Elétrico já trabalha com a possibilidade de necessidade de acionamento de praticamente todo o parque termelétrico em determinados cenários a partir de setembro, diante da combinação entre demanda elevada e condições hidrológicas desfavoráveis. (UOL Economia) Isso deveria servir de alerta para quem insiste em tratar a transição energética como uma disputa ideológica entre fontes. Não é.
O Brasil precisa de segurança energética. Hidrelétrica, solar, eólica, biomassa, gás natural, nuclear e outras fontes têm papéis diferentes dentro de um sistema complexo. O erro está em acreditar que uma única tecnologia resolverá todos os problemas. Um evento climático extremo demonstra exatamente o contrário. É preciso diversificar. É preciso armazenar. É preciso transmitir. É preciso investir. E é preciso planejar.
Para o Nordeste, a discussão é ainda mais sensível. A região já enfrenta condições hidrológicas que merecem atenção. Dados recentes do ONS indicaram afluências abaixo do ideal no Nordeste e no Norte, enquanto outras regiões apresentavam condições mais favoráveis. Ao mesmo tempo, a demanda de carga do Nordeste cresceu acima da média nacional no início de setembro. (UOL Economia) Isso coloca energia e água no centro da agenda econômica regional. Não basta comemorar o crescimento da geração renovável. É necessário garantir que a energia produzida chegue ao consumidor. Isso exige linhas de transmissão, armazenamento, gestão de demanda, geração firme e planejamento de longo prazo. E exige algo que ainda falta ao Brasil em muitas áreas: pensar infraestrutura antes da emergência.
Então é culpa do aquecimento global? Aqui precisamos ter cuidado. A ciência não autoriza dizer que cada El Niño é causado pelo aquecimento global. Isso seria simplificação. Na verdade, falso, pois existe o fenônemo muito antes de se ter aquecimento ou resfriamento do planeta. Mas também não autoriza ignorar que estamos colocando esse fenômeno natural em um planeta ignificativamente mais quente. O próprio debate científico aponta para uma questão importante, a saber, a de que um El Niño natural pode ter impactos diferentes quando ocorre em um sistema climático já aquecido. É a diferença entre provocar um incêndio e colocar mais combustível ao redor dele. O incêndio pode continuar sendo natural em sua origem. Mas o ambiente pode determinar sua dimensão. É exatamente por isso que a discussão climática precisa abandonar o maniqueísmo.
Nem todo desastre é “culpa do clima” Há outro exagero que precisa ser combatido. Transformar toda enchente, seca, incêndio ou tempestade em prova automática de mudança climática é tão inadequado quanto negar qualquer influência do aquecimento global. Eventos extremos possuem múltiplas causas. Há variabilidade natural. Há ocupação inadequada do território. Há desmatamento. Há urbanização sem planejamento. Há impermeabilização do solo. Há deficiência de drenagem. Há mudanças na circulação atmosférica. E há o aquecimento global. A boa ciência não precisa de slogans. Precisa de evidências.
Por isso, talvez devêssemos parar de perguntar se “O Super El Niño é culpa do homem?” e começar a perguntar “O que o homem pode fazer diante de um fenômeno natural que acontece em um planeta que ele próprio ajudou a aquecer?” Essa é uma pergunta muito mais importante. Porque não podemos desligar o Pacífico. Não podemos controlar os ventos. Não podemos impedir que o El Niño aconteça. Mas podemos preparar nossas cidades. Podemos melhorar a gestão da água. Podemos modernizar nossa infraestrutura elétrica. Podemos ampliar a capacidade de armazenamento de energia. Podemos fortalecer sistemas de alerta. Podemos melhorar o planejamento agrícola. Podemos investir em ciência e meteorologia. Podemos reduzir emissões sem destruir a economia. E, principalmente, podemos parar de confundir mitigação com adaptação. Precisamos das duas.
A sustentabilidade, levada à sério, e mundo real não cabe numa guerra ideológica ambientalista e extremista. O debate climático brasileiro sofre de um problema adicional: frequentemente transforma-se em disputa política. De um lado, há quem queira transformar qualquer fenômeno climático em argumento para aumentar impostos, proibir atividades econômicas ou demonizar setores produtivos. Do outro, há quem prefira simplesmente negar a realidade das mudanças climáticas porque considera o tema politicamente inconveniente. Nenhuma dessas posições resolve o problema. O produtor rural precisa de previsibilidade. A indústria precisa de energia. A população precisa de alimentos baratos. As cidades precisam de água. As empresas precisam de segurança jurídica. E o planeta precisa de redução de emissões e adaptação. Não existe contradição necessária entre essas agendas. Ao contrário. Uma política ambiental inteligente deveria justamente permitir que desenvolvimento econômico e proteção ambiental caminhem juntos.
O Super El Niño de 2026 será um teste. Teste para a agricultura. Teste para o sistema elétrico. Teste para a infraestrutura. Teste para a capacidade de planejamento do governo. Teste para empresas. Teste para produtores rurais. E, sobretudo, teste para a maturidade do debate da sustentabilidade e do direito ambiental brasileiro. Se tudo der errado, haverá quem diga que foi culpa do clima. Outros dirão que foi culpa do governo. Outros culparão o produtor rural, a indústria ou o setor energético. Mas a verdadeira lição talvez seja outra: fenômenos naturais sempre existirão; o que muda é o tamanho da nossa vulnerabilidade diante deles.
O El Niño não é criação humana. Mas um planeta mais quente, cidades mal planejadas, infraestrutura insuficiente e ausência de adaptação podem transformar um fenômeno natural em uma tragédia econômica e social. É por isso que não precisamos escolher entre desenvolvimento e sustentabilidade. Precisamos de desenvolvimento sustentável, segurança energética, produção de alimentos, infraestrutura resiliente e responsabilidade ambiental. Sem dogmas. Sem negacionismo. Sem alarmismo. E sem transformar a ciência em instrumento de guerra política. Porque o Pacífico continuará fazendo aquilo que faz há milhares de anos. A verdadeira questão é saber o que nós faremos quando ele fizer isso novamente.
Novo artigo Justiça anula, 148 anos depois, demissão de promotor que acusou baronesa pela morte de menino escravizado
Novo artigo Pandemia, seis anos depois: a culpa é de Bolsonaro, como dizem Lula e a esquerda? Quatro pontos entre a estatística e a sentença
Novo artigo Lula 4, o Imbecil Coletivo e o Admirável Brasil Novo
Novo artigo Perseguição ao bolsonarismo?
Novo artigo Lula, triplamente condenado e jamais inocentado
Insegurança jurídica Retomada de Ilhas Particulares? Governo Lula adota medidas e pode reaver todas