O Brasil melhorou seus indicadores oficiais de emprego. É fato. O problema começa quando transformamos um número correto numa explicação completa sobre como o brasileiro está trabalhando.
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O desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em julho de 2026, o menor resultado da série histórica para o período, iniciada em 2012.
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Mas 5,3% significa que o problema do trabalho no Brasil está perto de ser resolvido? Não.
E dizer isso não é negar o dado. É levá-lo a sério.
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Faz parte da minha rotina rodar o Brasil em fóruns e palestras para debater o tema em ambientes dos mais diversos. Fóruns de RH, educadores e gestores de empresas.
Ambientes quase opostos.
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Em especial, estive no V Encontro de Líderes do IDV, conversando com algumas das maiores lideranças do varejo brasileiro. Gente que precisa contratar, formar, aumentar produtividade e fazer operações gigantescas funcionarem todos os dias.
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Foi aí que o número dos 5,3% apareceu ou, na verdade, desapareceu. E a conversa ficou mais interessante. O que os 5,3% não contam.
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Segundo o IBGE, o Brasil tinha 103,3 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 5,8 milhões de desocupados no trimestre até julho de 2026. Daí vêm os 5,3%.
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Só que o desemprego tem uma definição estatística específica. Para entrar nessa conta, é preciso estar sem trabalho, ter procurado efetivamente uma ocupação e estar disponível para trabalhar.
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Não é manipulação. É metodologia.
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O problema vem quando tratamos essa taxa como um atestado geral da saúde do trabalho brasileiro.
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O próprio IBGE mostra outra fotografia. No mesmo período, havia 2,3 milhões de desalentados, aqueles que gostariam de trabalhar mas deixaram de procurar. E a subutilização, que junta desempregados, subocupados e força de trabalho potencial, alcançava perto de 15 milhões de pessoas.
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Tem ainda a informalidade. E aqui é preciso honestidade dos dois lados. A informalidade vem caindo no Brasil desde 2022. No começo de 2026 ela chegou a 37,5% da população ocupada, o menor nível desde 2020. Isso é bom e merece ser dito.
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Só que 37,5% ainda são cerca de 38 milhões de trabalhadores. Mais de um terço de quem trabalha no país.
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A taxa cai. O contingente segue gigante. As duas coisas são verdade ao mesmo tempo.
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Informalidade também não significa automaticamente precariedade ou ausência de qualquer proteção. Por isso vale olhar outra estatística.
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O Ministério da Previdência calcula a proteção previdenciária dos trabalhadores ocupados entre 16 e 59 anos. O último dado anual consolidado disponível é de 2024, e ele sai com essa defasagem justamente por ser anual. Naquele ano, dos ocupados nessa faixa etária, cerca de 27 milhões estavam desprotegidos.
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Quase três em cada dez. Agora coloque os números lado a lado, respeitando que são de períodos diferentes: 5,3% de desemprego (julho de 2026). Cerca de 38 milhões de informais (início de 2026). Perto de 15 milhões de subutilizados.
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27 milhões sem proteção previdenciária (2024). Todos são números oficiais.
Todos são verdadeiros ao mesmo tempo.
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O dado não está errado. Nossa interpretação dele é que pode estar preguiçosa. Seria igualmente desonesto contar apenas o lado ruim. O emprego formal está crescendo.
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O Novo Caged registrou saldo de 58.568 postos com carteira em julho e acumula
972.203 novos vínculos em 2026. A PNAD também registrou recorde de 39,4 milhões de empregados com carteira assinada no setor privado.
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São resultados relevantes. Vale notar, aliás, que o saldo de julho foi o menor do ano, sinal de que o ritmo de geração de vagas está desacelerando no segundo semestre. Mais um motivo para calma.
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O Brasil está, portanto, fazendo várias coisas ao mesmo tempo: reduzindo o desemprego, aumentando o emprego formal, reduzindo lentamente a informalidade e ainda convivendo com uma massa enorme de trabalhadores informais e desprotegidos.
A realidade não cabe nem no "está tudo ótimo", nem no "nada melhorou". E foi justamente essa tensão que apareceu na conversa com o varejo.
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Quem administra uma grande operação sabe que sua concorrência por trabalhadores já não é apenas a empresa do outro lado da rua.
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Quem trabalha faz uma conta muito mais ampla: quanto entra no bolso, quanto custa chegar ao emprego, quanto tempo perde no transporte, quem fica com o filho e quanta autonomia terá sobre a própria vida.
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O emprego formal passou a disputar pessoas com modelos que prometem flexibilidade, autonomia e dinheiro imediato.
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Prometem é a palavra.
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Flexibilidade não significa necessariamente boa renda. Autonomia não é proteção. Ganhar mais hoje não significa construir segurança econômica para os próximos vinte anos.
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Mas responder a tudo isso dizendo que "as pessoas não querem mais trabalhar" é cômodo demais.
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Querem.
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Só estão fazendo uma conta diferente.
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É aqui que precisamos subir o nível da conversa.
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A legislação trabalhista tem uma função legítima e indispensável: proteger quem trabalha. E não há consenso, entre os próprios economistas, de que ela seja a causa principal da informalidade brasileira. Há quem defenda que custo e rigidez empurram gente para fora da carteira, e há quem mostre que a informalidade cai quando a economia cresce, não quando se desregulamenta. A briga não está ganha por nenhum dos lados.
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Mas, se as relações de trabalho mudaram, é perfeitamente legítimo discutir se as instituições que as organizam também precisam evoluir.
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Talvez a discussão não devesse ser escolher entre proteção ou flexibilidade. Talvez o desafio brasileiro seja finalmente conseguir oferecer as duas.
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Trabalho não acontece só no trabalho
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Depois desses dois dias, minha maior conclusão foi outra. Precisamos colocar a bola no chão.
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"Essa geração não quer trabalhar." "Falta mão de obra."
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"O desemprego está no menor nível da história."
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Cada frase pode carregar um pedaço da verdade. Nenhuma explica o Brasil.
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Falar de trabalho é falar também de educação, renda, moradia, transporte, saúde, creche, formação, segurança e perspectiva de futuro.
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Queremos entender o comportamento das pessoas dentro do trabalho sem entender a vida que elas levam fora dele.
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Os educadores enxergam uma parte. As empresas enxergam outra. O governo mede outra. E o trabalhador vive todas ao mesmo tempo.
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O desemprego de 5,3% merece ser comemorado. Mas calma lá.
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Se cerca de 38 milhões de brasileiros ainda trabalham na informalidade e, na última medição disponível, 27 milhões de trabalhadores entre 16 e 59 anos estavam sem proteção previdenciária, ainda existe uma enorme distância entre ter trabalho e ter trabalho protegido, sustentável e capaz de melhorar uma vida.
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Comemorar o número é fácil.
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Fazer com que ele represente uma vida melhor é o que separa estatística de resultado.